Meu pai não precisou repetir.
Quando Eduardo hesitou, o coronel Ricardo Benevides se colocou entre a minha cama e a porta, com a calma fria e calculada de um homem que havia passado metade da vida vendo mentirosos desmoronarem sob pressão. O quarto pareceu encolher ao redor dele.
— Encoste nela de novo — disse ele.
Eduardo forçou uma risada, mas ela soou frágil.
— Ricardo, você está exagerando. A Clara está exausta, medicada, emotiva...
O som seco de uma pasta batendo sobre o criado-mudo o interrompeu.
Meu pai havia encontrado os documentos do patrimônio que eu escondera embaixo de um livro sobre gravidez. A assinatura da minha mãe. A escritura. Cada página provando que a mansão pertencia exclusivamente a mim.
E havia uma cláusula que Eduardo nunca tinha visto: se fosse constatado que eu estava sendo submetida a coerção, o controle sobre meu patrimônio e as decisões relativas aos meus cuidados médicos passaria imediatamente para o administrador responsável.
Meu pai olhou para Margarida.
— E o administrador já está a caminho.
Pela primeira vez, minha sogra perdeu o sorriso.
Meus dedos tremiam quando enfiei a mão debaixo do travesseiro e tirei a segunda coisa que havia escondido: um pequeno gravador preto.
Eduardo empalideceu.
— Comecei a gravar depois da primeira vez que você me empurrou contra o guarda-roupa — sussurrei. — Gravei você me ameaçando de tirar meu bebê de mim. Gravei Margarida dizendo à minha médica que eu era instável. Gravei vocês dois planejando como me manter sedada depois do parto.
Margarida avançou.
— Ela está mentindo.
Apertei o botão para reproduzir a gravação.
A própria voz dela tomou conta do quarto, suave e cruel.
— Depois que o bebê nascer, não vamos precisar que a Clara fique consciente por muito tempo.
Eduardo cambaleou para trás como se alguém tivesse acabado de golpeá-lo.
Uma batida forte ecoou pela casa.
Depois outra.
Meu pai não desviou os olhos deles.
— Deve ser a polícia.
— Não! — disparou Eduardo, agora desesperado. — Você não pode fazer isso. Se isso vier à tona, vai destruir tudo.
A expressão do meu pai endureceu.
— Você deveria ter pensado nisso antes de encostar um dedo na minha filha.
Passos preencheram o corredor. Vozes de homens. A porta da frente se abrindo.
Mas, antes que alguém entrasse no quarto, Margarida sussurrou algo tão baixo que quase não consegui ouvir.
— Então você nunca contou a ela, Eduardo?
O rosto dele perdeu o pouco de cor que ainda restava.
Eu o encarei.
— Não me contou o quê?
Ele olhou para minha barriga inchada, depois para a pasta e, por fim, para meu pai.
E, com a voz quebrada, disse:
— Clara... o bebê não é a única coisa que sua mãe deixou para você.







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