Augusto não desviou os olhos do documento. Foi isso que mais me assustou. Se estivesse sendo acusado injustamente, eu esperava indignação, confusão, qualquer reação imediata. Mas meu pai apenas respirou fundo, ajeitou lentamente o paletó e olhou para mim como se soubesse que aquele momento chegaria um dia.
— A empresa é minha — disse.
Minha garganta apertou.
— Então você tentou bloquear o fundo?
— Sim.
Lucas avançou.
— Augusto, você acabou de descobrir diante de todos que esse patrimônio existe.
— Não. Eu descobri há seis meses.
O silêncio voltou a dominar a catedral.
Minha mãe ergueu a cabeça, chocada.
— Você sabia?
Augusto soltou uma risada amarga.
— Parece que não fui o único nesta família capaz de guardar segredos.
— Por que não me contou? — perguntei.
Ele me encarou.
— Porque eu precisava descobrir de onde aquele dinheiro vinha antes que chegasse até você.
— Você não tinha esse direito.
— Eu sei.
A simplicidade da resposta me desarmou.
Meu pai se aproximou do altar.
— Se eu tivesse contado naquele momento, você teria começado a investigar. E estava no meio da quimioterapia. Eu não queria que passasse suas noites tentando desvendar uma guerra de trinta anos enquanto lutava para continuar viva.
— Então decidiu tudo por mim.
— Sim.
— Igual à mamãe.
A frase o atingiu.
Augusto baixou os olhos.
— Sim — repetiu. — E foi meu erro.
Minha mãe o observava com incredulidade.
— Você comprou a empresa de Renato?
— Por meio de intermediários.
Renato cerrou o maxilar.
— Você me enganou.
— Eu precisava dos arquivos que estavam vinculados à empresa.
— Poderia ter me procurado.
— Depois de trinta anos desaparecido? Não sabia se podia confiar em você.
Lucas apontou para o documento.
— E o bloqueio judicial desta manhã?
Augusto respirou fundo.
— Fui eu.
Meu peito apertou.
— No dia do meu casamento?
— Principalmente hoje.
— Por quê?
Ele olhou para a tiara sobre minha cabeça.
— Porque, assim que você se casasse, alguém tentaria usar Lucas para acessar o patrimônio.
Lucas ficou rígido.
— Está me acusando?
— Não.
— Então quem?
Augusto olhou para Helena.
Minha mãe recuou.
— Não ouse.
— Já protegemos você demais.
— Augusto...
— O investigador contratado em seu nome não estava seguindo Lucas para descobrir traições ou segredos empresariais. Estava levantando a estrutura patrimonial dos Montenegro.
Lucas ficou pálido.
— Para quê?
— Para descobrir se o casamento permitiria alguma reivindicação indireta sobre o fundo.
Minha mãe começou a negar.
— Isso é mentira.
Augusto tirou o celular do bolso.
— Tenho os relatórios.
Helena ficou em silêncio.
— E não foi você quem contratou os investigadores — continuou meu pai.
Franzi a testa.
— Mas os pagamentos estavam no nome dela.
— Exatamente. Alguém queria que, se fossem descobertos, todos chegassem à conclusão óbvia.
Camila, ainda devastada pelas revelações sobre sua origem, ergueu lentamente o rosto.
— Quem?
Augusto olhou para Renato.
— Foi por isso que comprei sua empresa. Um dos investigadores também estava tentando localizar você. Quando rastreei os pagamentos, descobri que ambos recebiam instruções de uma terceira pessoa.
— Quem? — Lucas insistiu.
Meu pai colocou o telefone sobre o altar e abriu uma fotografia.
Reconheci imediatamente um homem que vira centenas de vezes em reuniões da Fundação Ferraz, festas de família e até no hospital durante meu tratamento.
— Tio Eduardo? — murmurei.
Eduardo Ferraz era o irmão mais novo de Augusto.
Meu padrinho.
O homem que me levara sorvete quando eu tinha oito anos depois de quebrar o braço. Que visitara meu quarto durante a quimioterapia e prometera cuidar da Fundação enquanto eu estivesse afastada.
— Eduardo descobriu o fundo há quase dois anos — explicou Augusto. — Não sei como. Desde então, vem tentando encontrar uma forma de contestar a titularidade.
— Por que ele teria direito ao dinheiro? — perguntei.
— Não teria. Mas, se conseguisse provar fraude na criação do fundo, o patrimônio poderia retornar às empresas originais que forneceram os ativos.
Lucas compreendeu.
— E alguma dessas empresas hoje pertence aos Ferraz.
— Uma parte significativa.
Minha mãe sentou-se.
— Meu Deus.
— Você sabia? — perguntei.
— Não disso.
Augusto a encarou.
— Mas sabia que Eduardo tinha acesso aos seus documentos.
Ela ficou em silêncio.
— Helena?
— Ele me ajudava com questões financeiras.
Meu pai soltou uma risada sem humor.
— Ele usou você.
Camila enxugou o rosto.
— Então foi Eduardo quem retirou o primeiro exame de Valentina?
Doutor Álvaro respondeu antes de Augusto.
— Não podemos concluir isso.
— Mas ele tinha motivo — disse Lucas.
— Que motivo? — perguntei.
Meu pai demorou.
— Na semana em que aquele primeiro exame apareceu, eu pretendia transferir para você minhas ações com direito a voto na holding Ferraz.
Eu me lembrava do que minha mãe dissera anteriormente.
— E se eu estivesse doente?
— O conselho poderia adiar a transferência.
— Quatro meses — murmurei.
Augusto assentiu.
— Foi exatamente quanto tempo Eduardo precisou para aprovar uma mudança no estatuto da holding.
Meu corpo gelou.
— Minha doença foi usada numa disputa empresarial?
— Ainda não sei se o atraso do diagnóstico foi provocado por ele — disse Augusto. — Mas sei que ele lucrou politicamente dentro da empresa enquanto você estava afastada.
Uma onda de náusea me atingiu.
Durante meses eu me perguntara por que aquilo acontecera comigo. Agora descobria que, enquanto eu recebia medicamentos que queimavam minhas veias, pessoas da minha própria família faziam cálculos sobre minha ausência.
Lucas segurou minhas mãos.
— Não precisamos continuar hoje.
Olhei para ele.
Atrás de nós havia um altar preparado para nosso casamento.
Diante dele, uma família inteira desmoronava.
— Precisamos.
— Valentina...
— Passei dezoito meses adiando minha vida porque não sabia se teria amanhã. Não vou adiar a verdade também.
Virei-me para Augusto.
— Onde está Eduardo?
Meu pai olhou o relógio.
— Era isso que eu estava tentando descobrir.
Henrique aproximou-se.
— Talvez eu saiba.
Todos se viraram.
— A segurança encontrou o carro do senhor Eduardo no estacionamento subterrâneo.
Meu coração disparou.
— Ele está aqui?
— O carro está. Ele não.
Lucas franziu a testa.
— Verifique todas as entradas.
— Já estamos fazendo isso.
Meu olhar percorreu os convidados.
Quinhentas pessoas.
Empresários, políticos, parentes, amigos.
Eduardo poderia estar entre elas.
Então me lembrei.
— Ele deveria ser uma das testemunhas do casamento.
Augusto assentiu lentamente.
— E não apareceu no altar.
Minha mãe levou a mão à boca.
Henrique recebeu outra mensagem.
— Encontramos uma coisa no carro dele.
— O quê?
— Uma caixa de veludo.
Camila ficou imóvel.
Eu olhei para ela.
— Minha peruca.
Henrique assentiu.
Camila começou a balançar a cabeça.
— Não. Eu escondi na sala de serviço. Eu juro.
— Então Eduardo encontrou depois — disse Lucas.
Meu pai estreitou os olhos.
— Ou estava observando Camila.
Um detalhe terrível se encaixou.
Camila acreditara estar agindo sozinha, movida pelo próprio ciúme. Mas alguém podia ter acompanhado cada passo dela, esperando justamente uma crise durante o casamento.
— Por quê? — perguntei.
Augusto ficou sério.
— Porque ele precisava que a cerimônia não acontecesse.
— Por causa do fundo?
— Talvez.
Lucas olhou para a carta de Beatriz.
— Ou porque sabia que Renato apareceria.
Renato empalideceu.
Henrique recebeu outra ligação. Desta vez, afastou-se vários metros. Quando voltou, seu rosto estava diferente.
— Precisamos retirar todos daqui.
Lucas imediatamente se colocou diante de mim.
— O que aconteceu?
— Nada dentro da catedral. Mas a equipe encontrou o telefone de Eduardo no estacionamento.
— E?
— Havia uma mensagem programada para ser enviada ao doutor Álvaro às onze horas.
Álvaro franziu a testa.
— Para mim?
Henrique mostrou a tela.
— Continha um arquivo anexado.
O médico leu.
Sua expressão mudou completamente.
— Isso é um resultado laboratorial.
— De quem? — perguntei.
Álvaro ampliou o documento.
— Seu.
Meu coração acelerou.
— Outro exame?
Ele analisou os números.
— Não. É uma análise genética recente.
— Eu não fiz nenhuma.
Álvaro levantou os olhos.
— Alguém conseguiu uma amostra sua.
Minha mão subiu instintivamente até a cabeça.
Hospital. Tratamento. Exames. Durante dezoito meses, centenas de pessoas tiveram acesso ao meu sangue.
— O que diz?
Álvaro ficou em silêncio.
— Doutor.
— O exame compara seu DNA com o de Augusto.
Meu pai ficou imóvel.
— E?
Álvaro respirou fundo.
— Augusto não é seu pai biológico.
Embora já soubéssemos que essa possibilidade existia, ouvir a confirmação me atravessou.
Meu pai caminhou imediatamente até mim.
— Nada muda.
Segurei sua mão.
— Eu sei.
Mas Álvaro continuava olhando para o documento.
— Há uma segunda comparação.
Renato empalideceu.
— Comigo?
— Sim.
Senti meu coração bater contra as costelas.
— E ele?
Álvaro balançou a cabeça.
— Renato também não é seu pai.
Minha mãe começou a chorar novamente.
— Então quem é? — perguntei.
O médico deslizou até a última página.
— Existe um terceiro perfil genético.
Lucas se aproximou.
— Identificado?
— Sim.
Minha mãe levantou-se abruptamente.
— Não leia.
Olhei para ela.
Depois para o médico.
— Leia.
— Valentina...
— Leia.
Álvaro pronunciou o nome.
E Augusto fechou os olhos.
Era Eduardo Ferraz.
Meu padrinho.
Irmão do homem que me criara.
Senti as pernas perderem força.
Lucas me segurou antes que eu caísse.
— Isso significa...
Álvaro falou com cuidado:
— Se o documento for autêntico, Eduardo Ferraz é seu pai biológico.
Minha mãe chorava.
Dessa vez, não negou.
Meu pai olhou para ela.
— Meu próprio irmão?
Helena baixou a cabeça.
A resposta estava no silêncio.
Mas antes que alguém pudesse exigir explicações, um som veio das caixas de áudio instaladas para a cerimônia.
Um estalo.
Depois outro.
O sistema de som havia sido ativado.
Todos olharam ao redor.
Uma voz masculina ecoou pela catedral.
— Finalmente.
Reconheci-a imediatamente.
Eduardo.
— Já que toda a família decidiu contar segredos hoje, talvez seja justo que Valentina ouça a única verdade que nenhum de vocês teve coragem de contar.
Henrique começou a falar com a equipe pelo rádio.
— Localizem a origem do sinal.
Eduardo riu através dos alto-falantes.
— Não precisa me procurar, Henrique.
As portas de uma galeria no segundo andar se abriram.
Eduardo apareceu acima de nós.
Perfeitamente vestido para o casamento.
Calmo.
Sorrindo.
E segurando nas mãos uma pasta idêntica à de Renato.
Ele olhou diretamente para mim.
— Parabéns, filha.
Meu estômago se revirou.
— Você atrasou meu diagnóstico?
O sorriso dele desapareceu.
— Não.
— Então quem fez isso?
Eduardo olhou para minha mãe.
— Essa é a pergunta errada.
— Qual é a certa?
Ele ergueu a pasta.
— Pergunte por que sua mãe escondeu o primeiro exame depois de descobrir quem havia solicitado que ele fosse feito.
Álvaro franziu a testa.
— Quem solicitou?
Eduardo abriu a pasta.
— Beatriz Montenegro.
Lucas congelou.
— Minha mãe morreu dezenove anos atrás.
— Exatamente.
Eduardo sorriu sem alegria.
— Portanto, alguém vinha usando a identidade dela durante quase duas décadas.
Olhei para Lucas.
Depois para minha mãe.
E então Eduardo pronunciou a frase que fez até Helena parar de chorar.
— Beatriz Montenegro não morreu naquele acidente.







No comments yet