Daniel parecia menor do outro lado do vidro da sala de interrogatório. Sem o terno impecável, sem o relógio caro e sem Viviane ao lado para reforçar suas mentiras, ele parecia apenas um homem cansado tentando calcular quantas saídas ainda restavam. Rafael insistiu para que a conversa fosse feita por vídeo, mas eu recusei. Eu precisava olhar para Daniel quando ele falasse sobre minha mãe. Helena protestou, naturalmente. No fim, concordamos que eu seria levada em cadeira de rodas até uma sala protegida do hospital, com dois agentes do lado de fora e Rafael presente o tempo inteiro. Quando Daniel entrou algemado, seus olhos pousaram primeiro nos curativos dos meus braços. Por uma fração de segundo, algo parecido com culpa atravessou seu rosto. Eu não permiti que aquilo me confundisse.
“Beatriz Montenegro”, comecei. “Você disse que ela é irmã da minha mãe.”
Daniel sentou-se lentamente.
“Meio-irmã.”
“Prove.”
“Eleanor e Beatriz tinham a mesma mãe. Pais diferentes. Richard sabia.”
Meu pai.
“Por que nunca ouvi falar dela?”
“Porque Beatriz desapareceu da família muito antes de você nascer. Sua mãe cortou contato depois que descobriu o que ela fazia.”
“Fraudes?”
“Lavagem, empresas de fachada, identidades financeiras. Beatriz era brilhante. Muito antes de Marcelo entender como esconder dinheiro, ela já sabia fazê-lo atravessar cinco países e reaparecer como investimento legítimo.”
Rafael permaneceu em silêncio, gravando tudo.
“E você?”, perguntei. “O teste de DNA mostrou parentesco com minha mãe.”
Daniel abaixou a cabeça.
“Porque Eleanor era minha tia.”
Aquilo explicava os 99,8% de probabilidade de parentesco sem transformar o horror em algo ainda mais absurdo. Daniel e eu éramos primos biológicos.
Senti o estômago se revirar.
“Você descobriu seis meses atrás.”
“Sim.”
“E continuou dormindo na mesma cama comigo.”
Ele fechou os olhos.
“Emily...”
“Não diga meu nome como se isso doesse em você.”
“Eu já estava preso.”
“Preso?”
Minha voz subiu.
“Você falsificou documentos, criou contas em meu nome e ajudou pessoas que tentaram me matar. Não transforme escolha em prisão.”
Daniel levantou os olhos.
“Você acha que eu não sei?”
Foi a primeira vez que ouvi raiva direcionada contra ele mesmo.
“Eu fui colocado perto de você para conseguir acesso ao trust. No começo, achei que era apenas dinheiro.”
“Viviane disse que você descobriu antes do casamento.”
“Descobri que minha aproximação tinha sido planejada. Não sabia por quê. Beatriz me disse que Richard havia roubado uma fortuna que pertencia à família dela e que você vivia com dinheiro construído sobre esse roubo.”
“E acreditou.”
“Eu queria acreditar.”
A resposta foi tão simples que doeu mais.
“Porque assim você podia me usar sem se considerar um monstro.”
Daniel não respondeu.
Rafael colocou sobre a mesa a fotografia encontrada na casa de Augusto.
“Onde está Beatriz?”
“Não sei.”
“Então sua confissão não vale muito.”
Daniel olhou para mim.
“Eu sei onde ela vai estar.”
Rafael se inclinou.
“Onde?”
“Ela quer alguma coisa que Richard escondeu.”
As duas chaves.
“Encontramos a caixa.”
Daniel pareceu genuinamente surpreso.
“Que caixa?”
Aquilo me chamou atenção.
Descrevi o gravador e os documentos.
“Não é isso”, disse ele imediatamente.
“Então o quê?”
“Um livro-caixa.”
Rafael franziu a testa.
“Contabilidade?”
“Não apenas financeira. Nomes, operações, políticos, empresários, contas, intermediários. Beatriz chama aquilo de Livro Cinza. Richard conseguiu uma cópia antes de morrer.”
Meu pai não tentava apenas proteger dinheiro.
Tentava preservar provas.
“Beatriz acredita que está no trust?”
“Ela acreditava. Até Marcelo abrir o cofre hoje.”
“E agora?”
“Agora ela sabe que Richard escondeu em outro lugar.”
Pensei na página arrancada da carta.
Marcelo talvez tivesse levado a única pista.
“Marcelo está com ela?”
Daniel sorriu amargamente.
“Marcelo acha que trabalha com ela.”
“Qual é a diferença?”
“Beatriz nunca teve parceiros.”
Rafael recebeu uma mensagem. Leu e imediatamente saiu da sala.
Fiquei sozinha com Daniel por alguns segundos, embora dois agentes permanecessem visíveis através do vidro.
“Você sabia do óleo?”, perguntei.
Ele demorou.
“Sabia que Viviane iria assustar você.”
“Pare.”
“Emily—”
“Você mandou uma mensagem para Augusto dizendo que Viviane tinha estragado tudo porque eu sobrevivi.”
Daniel empalideceu.
Então compreendi.
“Você sabia.”
“Quando cheguei à cozinha...”
“Você passou por cima de mim.”
Minha voz quebrou pela primeira vez.
“Eu estava no chão, Daniel. Você limpou seus sapatos.”
Ele começou a chorar.
Eu não senti satisfação.
“Por quê?”
“Porque Augusto estava chegando.”
O choro desapareceu do meu rosto antes mesmo de começar.
“O quê?”
“Eu precisava fazer parecer que estava seguindo o plano. Se Augusto percebesse que eu tinha chamado uma ambulância...”
“Você chamou?”
“Do telefone de Viviane. Depois apaguei a ligação.”
Lembrei-me vagamente de sirenes. Viviane jurara que um vizinho ouvira meus gritos.
“Isso não absolve você.”
“Eu sei.”
“Você poderia ter impedido tudo.”
“Eu sei.”
Dessa vez, a culpa pareceu verdadeira.
Mas culpa não era inocência.
Rafael voltou abruptamente.
“Encontramos Marcelo.”
Daniel ficou rígido.
“Vivo?”
A pergunta me assustou.
“Sim. Tentando embarcar em um voo particular.”
“Para onde?”
“Uruguai. Mas havia outra pessoa registrada no plano de voo.”
Rafael colocou uma impressão diante de nós.
**Beatriz Montenegro.**
“Ela não apareceu no aeroporto”, continuou. “Marcelo apareceu sozinho.”
Daniel soltou uma risada nervosa.
“Ela abandonou ele.”
“Marcelo está falando?”
“Está pedindo imunidade.”
“Todo mundo quer imunidade hoje”, murmurei.
Rafael não sorriu.
“Ele trouxe a página arrancada da carta de seu pai.”
Meu coração acelerou.
“Leia.”
Rafael colocou uma cópia diante de mim.
A página começava no meio de uma frase:
**...o Livro Cinza não pode permanecer comigo. A única pessoa que sabe onde o escondi é Augusto. Se Beatriz descobrir, todos os envolvidos estarão em perigo.**
Augusto.
O homem que Daniel contratara.
O homem que fotografara meu quarto.
O homem que trouxera Sofia ao hospital.
Talvez ele não estivesse apenas tentando terminar um serviço.
Talvez estivesse tentando chegar até mim.
Continuei lendo.
**Augusto concordou em desaparecer e proteger a localização até que Emily estivesse preparada. Ele receberá uma frase específica. Sem ela, não entregará nada.**
A frase estava escrita logo abaixo:
**Eleanor ainda guarda a chave da casa azul.**
Minha mãe.
Não compreendi.
Daniel, porém, ficou completamente imóvel.
“Você conhece essa frase”, disse.
Ele não respondeu.
“Daniel.”
“Beatriz usava isso quando eu era criança.”
“Para quê?”
“Era uma senha.”
“Para onde?”
Ele me encarou.
“Uma propriedade na costa. Uma casa azul perto de Paraty. Beatriz me levou lá uma vez.”
Rafael já estava chamando uma equipe.
Então meu telefone vibrou.
Número desconhecido.
Dessa vez não havia ameaça.
Havia coordenadas.
Rafael verificou.
Paraty.
Abaixo delas, uma mensagem:
**VENHA SOZINHA SE QUISER O LIVRO. NÃO CONFIE NA POLÍCIA. BEATRIZ TEM ALGUÉM DENTRO DA EQUIPE.**
Outra mensagem apareceu imediatamente.
Uma fotografia.
Augusto estava sentado dentro de uma casa antiga. Sobre a mesa diante dele havia um enorme livro de capa cinza.
Ao lado do livro estava Sofia.
Amarrada a uma cadeira.
Mas não foi Sofia que me fez gelar.
No fundo da fotografia havia uma mulher de cabelos grisalhos, parcialmente de costas.
Daniel viu.
Sua respiração parou.
“É ela.”
“Beatriz?”
Ele assentiu.
Então uma terceira mensagem chegou.
**VOCÊ TEM ATÉ AMANHÃ AO MEIO-DIA.**
Rafael pegou meu telefone.
“Você não vai a lugar nenhum.”
Eu continuava olhando para a fotografia.
Alguma coisa estava errada.
Ampliei a imagem.
Na superfície metálica de uma chaleira, havia um reflexo.
Augusto não estava sozinho atrás da câmera.
Havia outra pessoa.
Um homem.
Usava distintivo.
E eu reconheci seu rosto porque estava sentado a menos de dois metros de mim.
Levantei os olhos lentamente para Rafael Mendes.
O mesmo homem aparecia refletido na fotografia ao lado de Beatriz.







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