Liguei para Marcelo imediatamente.
Uma vez.
Duas.
Na terceira tentativa, ele atendeu.
— Marcelo?
— Estou bem.
A voz dele estava baixa, mas firme.
— Saia daí agora.
— Não posso.
— Claro que pode.
— Augusto está ferido.
Olhei para Helena.
— Chame a polícia.
— Já chamei. A ambulância também está vindo.
— E o homem?
Silêncio.
— Marcelo?
— Foi embora.
Fechei os olhos por um segundo.
— Quem era?
— Ele não disse o nome. Só perguntou pelo exame.
Helena estendeu a mão pedindo o telefone.
Recusei.
— Como ele era?
Marcelo descreveu um homem de aproximadamente sessenta anos, alto, cabelos grisalhos, uma cicatriz discreta junto à sobrancelha esquerda.
Helena empalideceu.
— Renato — sussurrou.
Marcelo ouviu.
— Quem disse isso?
— Minha médica.
— Keila, o que está acontecendo?
— Vou descobrir.
Desliguei.
Helena caminhou até a janela.
— Renato Valença trabalhou com Henrique no início dos anos noventa. Eles fundaram uma pequena empresa de construção antes de a família Ribeiro crescer no mercado imobiliário.
— E por que ele quer um exame genético?
Ela se virou.
— Porque Renato teve um relacionamento com Patrícia.
Meu corpo ficou imóvel.
De repente, a primeira amostra falsa adquiriu um significado terrível.
— Você acha que Renato é pai de Marcelo?
— Não acho. O exame praticamente prova.
Sentei-me.
— Patrícia sabia?
— Não posso afirmar.
— Mas Henrique sabia.
— Em algum momento, descobriu.
Tudo começou a se encaixar de maneira grotesca. A obsessão de Henrique com linhagem. O medo de que Marcelo reconhecesse meus filhos. A tentativa de desacreditar a paternidade.
Não era sobre mim.
Nunca fora.
Henrique estava tentando proteger um segredo muito mais antigo.
— Se Marcelo descobrisse que os quadrigêmeos eram realmente filhos dele... — murmurei.
Helena completou:
— Os exames poderiam revelar que a genética dele não correspondia à de Henrique.
Meu telefone tocou novamente.
Dessa vez era Patrícia.
Atendi.
— Onde você está?
— Por que quer saber?
— Marcelo foi ao escritório de Augusto.
— Eu sei.
Ouvi sua respiração falhar.
— Keila, você precisa acreditar em mim. Renato é perigoso quando se sente encurralado.
— Você o conhece muito bem, não é?
Silêncio.
— Encontre-me.
— Onde?
— Na minha casa em São Paulo. Sozinha.
— Não.
— Então nunca vai entender por que aceitei os dois milhões.
Ela desligou.
Uma hora depois, deixei as crianças com Daniela e dois funcionários de confiança. Não contei a elas o que estava acontecendo. Apenas disse que precisava resolver um assunto relacionado à família Ribeiro.
Quando cheguei ao apartamento de Patrícia, Marcelo já estava lá.
Havia uma faixa pequena sobre sua mão.
— Augusto?
— Está vivo. Um corte na cabeça. A polícia acha que ele tentou impedir alguém de levar documentos.
— Renato?
— Provavelmente.
Patrícia surgiu na sala.
Parecia dez anos mais velha do que na véspera.
Marcelo colocou sobre a mesa a cópia da transferência.
— Dois milhões. Explique.
Patrícia olhou para mim.
— Você encontrou o cofre.
Não respondi.
Marcelo franziu a testa.
— Que cofre?
— Depois — falei. — Primeiro ela.
Patrícia sentou-se.
— Eu conheci Renato antes de Henrique. Nós éramos jovens. Eu o amava. Então ele desapareceu.
— Desapareceu? — Marcelo perguntou.
— Henrique me disse que Renato tinha roubado dinheiro da empresa e fugido. Meses depois, descobri que estava grávida.
Marcelo ficou completamente imóvel.
— De mim.
Ela assentiu.
— Henrique sabia?
— Eu contei.
— E ele se casou com você?
— Sim.
— Por quê?
Patrícia começou a chorar.
— Porque dizia me amar.
Marcelo riu amargamente.
— Henrique Ribeiro não fazia nada apenas por amor.
— Eu descobri isso tarde demais.
Ela explicou que Henrique registrara Marcelo como filho e exigira que Renato jamais fosse mencionado. Anos depois, quando Renato reapareceu, Henrique pagou para que ele permanecesse distante.
— E quando Keila engravidou — Patrícia continuou — Henrique entrou em pânico. Quatro crianças significavam exames, hospitais, registros. Ele temia que alguma coisa levasse à descoberta.
— Então você aceitou dinheiro para esconder meus filhos? — Marcelo perguntou.
— Não.
Ela empurrou o comprovante de volta.
— Os dois milhões foram transferidos para mim, mas eu nunca fiquei com eles.
— Para onde foram?
— Para Renato.
O silêncio pesou sobre nós.
— Você pagou para ele desaparecer? — perguntei.
— Henrique me obrigou a fazer a transferência porque não queria seu nome ligado ao pagamento. Renato ameaçava contar tudo.
Marcelo caminhou até a janela.
Eu conseguia ver sua raiva lutando contra algo muito pior: a sensação de que sua identidade inteira havia sido construída sobre mentiras.
— Então meu pai biológico vendeu o silêncio.
Patrícia não respondeu.
— E meu pai adotivo comprou minha vida.
— Marcelo...
— Não.
Ele se virou.
— Nenhum dos dois vai transformar isso numa história em que vocês estavam me protegendo.
Pela primeira vez, senti algo que não esperava sentir por ele.
Compaixão.
Não perdão.
Eram coisas diferentes.
Meu celular vibrou.
Daniela.
Atendi imediatamente.
— Keila, está tudo bem, mas você precisa voltar.
Meu coração disparou.
— As crianças?
— Estão comigo. Só que apareceu alguém aqui.
— Quem?
— Um homem chamado Renato Valença.
Marcelo ouviu.
Seu rosto perdeu a cor.
— Não deixe ele entrar — ordenei.
— Ele não entrou. A segurança o impediu.
Respirei.
Então Daniela acrescentou:
— Mas ele deixou uma coisa para você.
— O quê?
— Uma pasta e uma gravação.
— Não toque em nada.
— Keila... tem uma fotografia dentro.
Minha garganta secou.
— Fotografia de quê?
Daniela demorou alguns segundos.
— Do dia em que os quadrigêmeos nasceram.
Olhei para Patrícia.
— E?
— Renato aparece nela.
— Isso já sabemos.
— Não é isso.
Daniela respirou fundo.
— Ele está segurando Noah no colo.
Patrícia soltou um som abafado.
— Impossível — murmurei.
— No verso tem uma data, horário e uma frase escrita por Renato.
— Leia.
Daniela hesitou.
Então leu:
— “Henrique contou apenas metade da verdade. Eu não fui ao hospital por causa de Marcelo. Fui buscar uma criança.”
O rosto de Patrícia se desfez.
Marcelo virou-se para a mãe.
— O que ele quer dizer?
Ela não respondeu.
— Mãe.
Patrícia levou as mãos ao rosto.
E naquele momento eu soube.
Ela reconhecia aquela fotografia.
— Patrícia — falei lentamente. — Por que Renato estava com meu filho?
Ela baixou as mãos.
Seus olhos estavam cheios de terror.
— Porque durante quase três horas, Keila... Noah desapareceu do berçário.
Meu coração parou.
— E você nunca soube.







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