Passei o resto da manhã fingindo dormir.
Ricardo entrou no quarto duas vezes.
Na primeira, trouxe café e perguntou se eu queria que ele ligasse para minha mãe. Na segunda, apareceu com o tenente-coronel Mauro Ferraz, que vestia jaleco branco sobre a farda e carregava uma prancheta contra o peito.
— Senhora Almeida — disse Mauro, evitando meus olhos —, como está a dor?
— Administrável.
Ele assentiu e começou a falar sobre riscos cirúrgicos, sangramento, alterações celulares e decisões emergenciais.
Palavras demais.
Nenhuma resposta para o que eu realmente queria saber.
— Quero uma cópia de todos os meus exames anteriores à cirurgia — interrompi.
Mauro ficou imóvel por um instante.
Ricardo respondeu antes dele.
— Helena, isso não é necessário agora.
Olhei apenas para o médico.
— Eu não perguntei ao meu marido.
O maxilar de Ricardo endureceu.
Mauro baixou os olhos para a prancheta.
— Alguns exames ainda estão sendo consolidados no sistema.
— Então me dê os que já estavam prontos.
— Senhora Almeida...
— Meu corpo foi operado. Eu tenho direito de saber com base em quê.
O silêncio que se seguiu foi mais revelador do que qualquer resposta.
Ricardo se levantou.
— Doutor, podemos conversar lá fora?
— Não — falei.
Os dois olharam para mim.
Mantive a voz baixa.
— Quero ouvir tudo aqui.
Ricardo sorriu daquele jeito que usava diante de superiores quando precisava esconder irritação.
— Você está muito abalada.
— Estou.
Não precisei fingir essa parte.
— Mesmo assim, quero os documentos.
Mauro respirou fundo.
— Vou verificar o que pode ser disponibilizado.
Ele saiu quase depressa demais.
Ricardo permaneceu.
— O que está acontecendo com você?
Virei o rosto para a janela.
— Perdi um bebê e acordei sem útero. O que você esperava?
A resposta o desmontou por um segundo.
Não porque sentisse culpa.
Porque era plausível demais para ser contestada.
Ele se aproximou.
— Eu fiz o que precisava ser feito para salvar você.
Fechei os olhos.
— Então você não tem nada a temer.
Foi um risco.
Pequeno, mas calculado.
Quando tornei a encará-lo, vi exatamente o que procurava.
Medo.
Não o medo de me perder.
O medo de que eu soubesse alguma coisa.
Ricardo beijou minha testa e saiu sem dizer mais nada.
Esperei dez minutos.
Depois liguei para Beatriz usando o telefone do banheiro, onde o som do exaustor mascarava parte da conversa.
— Existe uma cópia automática dos exames no laboratório central — sussurrei. — Ouvi Ricardo e Mauro falando.
— Isso muda tudo.
— Eles ainda não encontraram.
— Então nós também não vamos correr atrás dela de forma óbvia.
Franzi a testa.
— Por quê?
— Porque, se alguém acessar esse arquivo usando suas credenciais ou fizer uma solicitação formal agora, Ricardo pode descobrir antes de conseguirmos preservar a cadeia de custódia. Precisamos saber que sistema é esse e quem recebeu a cópia.
— Você consegue descobrir?
— Consigo tentar por vias legais. Mas Helena... há outra coisa.
A voz dela mudou.
Ficou mais cautelosa.
— A investigação sobre Ricardo começou por causa de uma denúncia anônima feita há quatro meses.
Meu coração bateu mais rápido.
— Sobre os contratos?
— Parcialmente. A denúncia mencionava uso de influência, manipulação de relatórios internos e pressão sobre subordinados. Mas havia uma frase específica que chamou atenção.
— Qual?
— “O coronel Almeida recompensa lealdade pessoal com promoções e pune quem se recusa a alterar documentos.”
Apoiei a mão na pia.
Aquilo não era um comportamento criado para destruir meu corpo.
Era um método.
Talvez antigo.
— Quem fez a denúncia?
— Ainda não sabemos.
— Camila?
— Não presuma nada.
Beatriz foi firme.
— Nem todo mundo próximo de Ricardo está do lado dele. E nem todo mundo que parece vítima é inocente.
A frase ficou ecoando na minha cabeça depois que desligamos.
Pouco antes do almoço, uma enfermeira que eu ainda não tinha visto entrou no quarto.
Era uma primeiro-tenente de aparência cansada, cabelo preso com rigor e olheiras profundas.
Seu crachá dizia: Luciana Prado.
Ela conferiu minha medicação sem conversar.
Depois colocou um copo de água sobre a mesa e começou a ajeitar o soro.
— A senhora vai precisar assinar a confirmação de alta quando o coronel autorizar — disse.
— Quando o coronel autorizar?
Ela percebeu o erro imediatamente.
— Quero dizer... quando a equipe médica autorizar.
Olhei para ela.
Luciana ficou pálida.
— Tenente.
Ela continuou mexendo no equipo.
— Sim?
— Quem preparou minha medicação na noite da cirurgia?
Seus dedos pararam.
— Não sei.
Mentira.
Não precisei ser filha de um homem da Inteligência para perceber.
— Tudo bem.
Ela voltou ao trabalho.
Quando terminou, caminhou até a porta.
Então hesitou.
Sem olhar para mim, falou quase num sussurro:
— Não tome nada que venha em copo sem lacre.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Antes que eu pudesse responder, ela saiu.
Levantei devagar, suportando a dor, e fui até a porta.
Luciana já desaparecera no corredor.
Na bandeja de medicamentos havia dois comprimidos e um sachê lacrado.
Embaixo do sachê, encontrei um pedaço de papel dobrado.
Abri.
Havia apenas uma sequência de números e letras.
“LAB-CENTRAL / ARQ 17-B / 02:18”
E uma frase escrita às pressas:
“Seu primeiro exame estava normal.”
Sentei na cama.
O horário me atingiu imediatamente.
02h18.
Mais de uma hora antes do laudo falso registrado às 03h40.
Meu exame original existia.
E alguém dentro daquele hospital sabia disso.
Quando Ricardo voltou no fim da tarde, eu já havia escondido o papel dentro da costura da minha camisola.
Ele entrou acompanhado de Camila.
Dessa vez, ela não carregava cesta de frutas.
Trazia uma pasta azul.
— Helena — disse ela, com uma delicadeza quase ofensiva —, eu queria pedir desculpas se minha presença ontem foi inadequada.
Olhei para sua barriga.
— Foi.
Ricardo pigarreou.
Camila apertou a pasta contra o corpo.
— Entendo.
Ela parecia nervosa.
Muito mais do que na primeira vez.
Ricardo caminhou até a janela.
— Camila trouxe alguns documentos administrativos para eu assinar.
Observei a pasta.
No canto havia uma etiqueta manuscrita.
“CPO — documentação complementar.”
Comissão de Promoções de Oficiais.
A mesma sigla que eu vira na pasta de Ricardo.
Então percebi uma coisa.
Camila não estava apenas envolvida emocionalmente com meu marido.
Ela fazia parte do mecanismo que ele estava usando para construir a própria promoção.
— Posso perguntar uma coisa? — falei.
Ricardo virou-se.
Camila também.
Olhei diretamente para ela.
— Quando seu bebê nasce?
O rosto dela perdeu a cor.
— Em... alguns meses.
— Ricardo parece muito interessado nessa criança.
Meu marido deu um passo em minha direção.
— Helena.
— Só estou tentando entender.
Camila segurou a pasta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Não há nada para entender.
Mas havia.
E pela primeira vez notei algo que não combinava com a postura de uma amante confiante prestes a assumir meu lugar.
Camila não olhava para Ricardo com amor.
Olhava para ele como alguém que estava com medo de dizer a coisa errada.
Naquela noite, ouvi a gravação mais uma vez.
“Esse bebê não é seu, Ricardo.”
“Eu já sei.”
Voltei alguns segundos.
Aumentei o volume.
Depois da frase de Ricardo havia um ruído baixo que eu antes ignorara.
Camila inspirando com dificuldade.
E então, quase inaudível, ela murmurava:
“Você prometeu que não envolveria meu pai.”
Meu coração disparou.
Ricardo respondeu:
“Seu pai é justamente o motivo de tudo isso.”
Parei a gravação.
De repente, o general Braga deixou de ser apenas o homem que Ricardo pretendia enganar.
Ele era o centro do plano.
E Camila talvez não fosse a parceira de Ricardo.
Talvez também estivesse presa dentro dele.







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