Na manhã seguinte, acordei com uma certeza desconfortável: eu estava olhando para Camila do jeito que Ricardo queria.
Como amante.
Como inimiga.
Como a mulher que havia ocupado meu lugar.
Era conveniente demais.
Fiquei observando o teto branco do quarto, tentando separar dor de lógica.
Camila estava grávida.
Ricardo queria usar aquela criança para convencer o general Braga de que existia um vínculo familiar entre os dois.
Ela trabalhava diretamente na área de Comunicação Social do comando dele.
Tinha acesso a documentos.
Sabia da mentira.
E estava com medo.
Isso não a tornava inocente.
Mas significava que eu precisava parar de enxergar o tabuleiro apenas pelas peças que Ricardo havia colocado diante de mim.
Pouco depois das sete, a primeiro-tenente Luciana entrou com minha medicação.
Dessa vez, tudo veio lacrado.
Ela não disse nada além do necessário.
Ainda assim, quando passou perto da cama, deixei cair propositalmente uma colher no chão.
Luciana se abaixou para pegá-la.
— Arquivo 17-B — murmurei.
Ela congelou por menos de um segundo.
— Não aqui.
Endireitou-se e colocou a colher sobre a bandeja.
— A senhora precisa caminhar um pouco hoje. Faz parte da recuperação.
Entendi.
Vinte minutos depois, caminhávamos lentamente pelo corredor.
Meu abdômen parecia rasgar por dentro a cada passo.
Luciana me acompanhava com uma mão próxima ao meu braço, mantendo a aparência de uma simples orientação pós-operatória.
Quando chegamos perto de uma janela no fim da ala, ela parou.
Não havia câmeras visíveis ali.
— Seu exame original foi arquivado antes da cirurgia — disse, olhando para o pátio. — Hemograma, ultrassom, marcadores e avaliação ginecológica.
— E estava normal?
— Não havia indicação para histerectomia.
Senti o estômago se contrair.
Ouvir aquilo de outra pessoa tornou tudo mais real.
— Você viu?
— Eu estava de plantão quando o laboratório liberou os resultados.
— Então por que não impediu?
A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia.
Luciana baixou a cabeça.
Por alguns segundos, vi culpa no rosto dela.
— Porque eu não sabia o que ia acontecer.
Respirou fundo.
— Disseram que a senhora teria um procedimento complementar por hemorragia. Depois, quando percebi que tinham alterado a justificativa, já estava tudo registrado.
— Quem alterou?
— Eu não sei todos os nomes.
— Mauro?
Ela não respondeu.
Não precisava.
— E Ricardo?
Luciana finalmente me encarou.
— O coronel entrou na sala de medicação naquela noite. Isso não era normal.
Meu coração acelerou.
— Você o viu?
— Sim.
— Com quem?
Ela olhou para trás.
Ninguém se aproximava.
— Com o doutor Mauro e um sargento do setor administrativo. Eles pediram que eu deixasse a sala.
— Você registrou isso?
Luciana soltou uma risada amarga.
— Registro o quê? Que um coronel me mandou sair de uma sala dentro de uma ala que ele havia mandado restringir?
Sua voz baixou.
— Eu tenho dois filhos, Helena. Meu marido também é militar. Eu sei o que acontece quando alguém enfrenta a pessoa errada sem provas.
Aquilo me atingiu.
Até então, eu havia imaginado a rede de Ricardo como um grupo de cúmplices.
Mas talvez parte dela fosse sustentada por medo.
— Por que está me ajudando agora?
Luciana demorou a responder.
— Porque vi sua assinatura no consentimento.
Meu peito apertou.
— E?
— Eu estava no quarto quando a senhora foi sedada.
Ela engoliu em seco.
— A senhora não assinou nada.
Ficamos em silêncio.
A informação parecia simples.
Mas mudava tudo.
Luciana não era apenas alguém que conhecia os exames.
Era testemunha direta de que meu consentimento fora falsificado.
— Beatriz precisa falar com você.
Ela se afastou imediatamente.
— Não.
— Luciana...
— Não use meu nome fora daqui.
O medo em sua voz era genuíno.
— Se Ricardo descobrir que falei com você, eu posso perder minha carreira antes de qualquer investigação começar.
Assenti.
Meu pai havia me ensinado que testemunhas assustadas não deveriam ser empurradas.
Deveriam ser protegidas até estarem prontas.
Voltamos ao quarto.
Ricardo já estava lá.
Sentado na poltrona.
Esperando.
Seu sorriso apareceu assim que me viu.
— Caminhando?
— O médico recomendou.
Ele olhou para Luciana.
— Obrigado, tenente.
Ela prestou continência discretamente e saiu.
Ricardo esperou a porta fechar.
— Sua alta deve sair amanhã.
— Ótimo.
— Quero levar você para casa.
Sentei devagar.
— Prefiro ficar alguns dias com minha mãe.
Pela primeira vez, ele não conseguiu esconder a reação.
— Não.
A palavra saiu rápida demais.
Ele percebeu.
Tentou corrigir.
— Quero dizer... não acho uma boa ideia. Sua mãe é idosa. Você precisa de assistência.
— Posso contratar alguém.
Ricardo se aproximou.
— Helena, nossa família já está sendo exposta demais.
A frase me chamou atenção.
— Exposta a quem?
Ele ficou imóvel.
— Ao quartel. Às pessoas que gostam de fofoca.
— Pensei que ninguém soubesse de nada.
— E não sabe.
— Então o que existe para expor?
O silêncio durou dois segundos.
Ricardo sorriu novamente.
— Você está cansada.
Era sempre assim.
Quando uma pergunta se aproximava demais da verdade, eu deixava de ser esposa e virava paciente.
Fraca.
Confusa.
Emocional.
Antes, eu aceitava.
Agora comecei a perceber o padrão.
— Talvez — respondi.
Ele tocou meu ombro.
— Descanse.
Depois que saiu, liguei para Beatriz.
Contei tudo.
O exame original.
Luciana.
A falsificação do consentimento.
A insistência de Ricardo para me levar para casa.
Beatriz ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ele quer controlar o ambiente depois da sua alta.
— Foi o que pensei.
— Então não vá para casa.
— Para onde?
— Tenho um apartamento funcional que uso quando estou em Brasília. Você vai para lá assim que sair do hospital.
— Isso não vai fazê-lo suspeitar?
— Ele já suspeita.
A resposta me gelou.
— Por quê?
— Porque alguém tentou acessar o arquivo 17-B às seis e vinte desta manhã.
Segurei o telefone com força.
— Ricardo encontrou?
— Não. O arquivo está bloqueado por auditoria interna.
Soltei o ar lentamente.
— Então ainda está seguro.
— Por enquanto.
— Quem tentou acessar?
— Uma credencial vinculada ao gabinete de Comunicação Social.
Camila.
Foi meu primeiro pensamento.
Mas Beatriz continuou:
— E aqui está o problema. A credencial usada não pertence a Camila Braga.
— A quem pertence?
Ouvi papéis sendo mexidos do outro lado.
— Ao próprio coronel Ricardo Almeida.
Fiquei imóvel.
— Ele não trabalha naquele setor.
— Exatamente.
Olhei para a porta fechada.
De repente, a pasta azul de Camila voltou à minha memória.
Os documentos de promoção.
O medo dela.
A frase sobre o pai.
Tudo começava a se encaixar de outra forma.
Ricardo não estava apenas usando pessoas.
Estava usando identidades, acessos e setores inteiros como extensões da própria autoridade.
E, se havia tentado apagar o exame original naquela manhã, significava uma coisa:
ele já sabia que alguma prova havia sobrevivido.
Quando Camila apareceu pouco depois do almoço, sozinha, entendi que aquela era minha oportunidade.
Ela entrou devagar.
— Posso falar com você?
— Depende.
Camila fechou a porta.
Seu rosto estava pálido.
— Ricardo acha que você ouviu alguma coisa naquela noite.
Meu coração bateu forte, mas não demonstrei.
— Por que ele acha isso?
Ela olhou diretamente para mim.
— Porque ele mandou revistar seu quarto ontem.
Senti o sangue sumir do rosto.
Minha bolsa.
A moeda.
O gravador.
Camila percebeu minha reação.
— Não encontraram o que estavam procurando.
Deu mais um passo.
— Mas vão procurar de novo.
— Por que está me avisando?
Os olhos dela se encheram de lágrimas, embora nenhuma caísse.
— Porque se ele descobrir que eu falei com você, ele destrói minha carreira.
— E seu pai?
Camila ficou completamente imóvel.
Agora eu sabia que havia acertado.
— O que Ricardo tem contra o general Braga?
Ela baixou a voz.
— Não é o que ele tem contra meu pai.
Seu olhar caiu sobre minha cicatriz escondida sob a camisola.
— É o que meu pai tem contra ele.
E naquele instante eu compreendi que a promoção de Ricardo não era o objetivo final.
Era uma fuga.
Ele precisava subir de posto antes que o general Braga conseguisse derrubá-lo.







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