A juíza Helena Duarte permaneceu alguns segundos olhando para a anotação no verso da folha.
Não havia indignação teatral em seu rosto. Havia algo pior para Ricardo: atenção absoluta.
— Quem escreveu isso? — perguntou.
Artur abriu outra divisória da pasta.
— Ainda estamos confirmando a autoria formalmente. Mas o documento veio do arquivo interno da clínica.
O advogado de Ricardo se levantou de novo.
— Excelência, isso não prova que meu cliente tenha cometido violência alguma. Pode significar apenas que ele tentou proteger a privacidade da esposa.
Soltei uma risada sem humor.
Todos olharam para mim.
— Proteger minha privacidade?
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Ele me fazia repetir que eu tinha caído. Que eu tinha esbarrado em portas. Que eu era desastrada. Depois pagava para que ninguém escrevesse a verdade.
Ricardo se virou para mim.
— Porque você era instável, Mariana. Eu estava tentando impedir que você destruísse a própria reputação.
A frase me atingiu com uma familiaridade nauseante.
Por anos, ele havia feito aquilo.
Pegava uma coisa que tinha feito comigo e a transformava em prova de que havia algo errado comigo.
Se eu chorava, era histérica.
Se eu ficava em silêncio, era manipuladora.
Se eu questionava dinheiro, era paranoica.
Se eu tentava ir embora, estava em surto.
Mas naquela sala havia uma diferença que Ricardo ainda não parecia compreender.
Dessa vez, tudo o que ele dizia estava sendo registrado.
Artur se levantou.
— Excelência, eu gostaria de fazer algumas perguntas à senhora Vasconcelos sobre as avaliações psicológicas apresentadas hoje.
A juíza assentiu.
— Prossiga.
Artur colocou diante de mim a cópia de um dos laudos.
— A senhora conhece o doutor Caio Nogueira?
Olhei o nome.
— Não.
Ricardo fez um movimento quase imperceptível na cadeira.
Artur continuou.
— A senhora já foi atendida por ele?
— Nunca.
— Já conversou com ele por telefone?
— Não.
— Já fez qualquer teste psicológico ou psiquiátrico conduzido por esse profissional?
— Nunca.
Um dos advogados de Ricardo começou a sussurrar algo para o colega.
Artur se aproximou da mesa da juíza.
— Esse laudo afirma que Mariana foi avaliada presencialmente em três sessões.
A juíza ergueu as sobrancelhas.
— Datas?
Artur leu.
A primeira não significou nada para mim.
A segunda fez meu corpo inteiro enrijecer.
A terceira me deixou sem ar.
— Não — murmurei.
— O que foi? — perguntou a juíza.
Olhei para Artur.
— Na segunda data eu estava em Belo Horizonte.
— Tem certeza?
— Eu estava no enterro da minha tia.
Artur assentiu.
— Temos comprovantes de passagem, hospedagem e fotografias da família.
A sala ficou imóvel.
Ele apontou para a terceira data.
— E aqui?
Meu estômago se contraiu.
— Eu estava internada.
Ricardo baixou os olhos.
A juíza percebeu.
— Internada por quê?
Demorei um pouco para responder.
— Uma infecção causada por uma lesão que eu não tratei a tempo.
Não precisei dizer quem havia causado a lesão.
Artur colocou outro documento ao lado do laudo.
— O hospital confirma internação contínua durante quarenta e oito horas, exatamente no período em que o doutor Caio afirma ter realizado uma consulta presencial no consultório dele em São Paulo.
O advogado de Ricardo fechou a pasta com força.
— Isso pode ser erro administrativo.
— Três vezes? — perguntou a juíza.
Ninguém respondeu.
Ricardo então se inclinou para a frente.
— Eu não produzi esses laudos.
Artur virou-se lentamente.
— Interessante.
— O quê?
— Ninguém disse que o senhor produziu.
Ricardo ficou calado.
Senti um arrepio percorrer meus braços.
Artur tirou outra folha.
— Os honorários do doutor Caio Nogueira foram pagos por uma empresa chamada RCV Gestão Patrimonial.
Eu conhecia aquelas iniciais.
Ricardo César Vasconcelos.
A juíza também entendeu imediatamente.
— Essa empresa pertence a quem?
— Formalmente — respondeu Artur — a um sócio administrador chamado Renato Meirelles.
Ricardo respirou fundo.
— Eu não conheço esse homem.
Dessa vez, Artur sorriu de leve.
Não havia triunfo no sorriso. Apenas confirmação.
— Curioso.
Ele retirou uma fotografia.
Era uma imagem de baixa qualidade, capturada de uma câmera de segurança.
Ricardo aparecia entrando em um prédio comercial ao lado de um homem de terno cinza.
Eu reconheci o local.
Era o edifício onde funcionava o antigo escritório de contabilidade da empresa da minha família.
— Esse é Renato Meirelles — disse Artur.
Ricardo permaneceu imóvel.
A fotografia tinha data de seis meses antes do pedido de divórcio.
Mas o detalhe que mais me perturbou não foi o encontro.
Foi o que Artur disse em seguida.
— Renato Meirelles era funcionário da empresa da família Vasconcelos até quatro anos atrás.
Olhei para ele.
— Funcionário?
— Gerente financeiro adjunto.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Eu lembrava vagamente do sobrenome.
Um homem discreto, quase invisível, que Ricardo certa vez descrevera como “competente demais para ser desperdiçado”.
— Por que eu não sabia que ele tinha saído? — perguntei.
Artur virou o rosto para mim.
— Porque, segundo os registros, a senhora assinou a rescisão dele.
Fechei os olhos por um instante.
Outra assinatura.
Outro documento que eu nunca havia visto.
Outra decisão tomada em meu nome.
Artur continuou:
— Três semanas depois, Renato abriu a RCV Gestão Patrimonial.
A juíza folheou os documentos.
— E essa empresa recebeu recursos de onde?
Artur respirou fundo.
— Da empresa da família Vasconcelos.
Ricardo empurrou a cadeira para trás.
— Isso é uma mentira.
— Foram identificadas transferências parceladas — disse Artur — justificadas como consultorias, serviços tributários e reorganização patrimonial.
Minha boca ficou seca.
— Quanto?
Artur olhou para mim antes de responder.
— Até agora, pouco mais de quatro milhões e oitocentos mil reais.
Por um instante, não ouvi mais nada.
Não era apenas o valor.
Era o tempo.
Quatro anos.
Enquanto eu tentava esconder hematomas.
Enquanto Ricardo controlava meu telefone.
Enquanto dizia que as contas estavam apertadas.
Enquanto me convencia de que eu não entendia de negócios e que deveria deixá-lo cuidar de tudo.
Ele não estava apenas roubando de mim.
Estava construindo uma estrutura paralela.
— Então era isso — murmurei.
Ricardo me encarou.
— Você não sabe do que está falando.
Olhei para ele e, pela primeira vez, não vi meu marido.
Vi um homem que precisava que eu duvidasse de mim para que todo o resto funcionasse.
Artur abriu a última folha daquele conjunto.
— Há mais uma coisa.
A juíza levantou os olhos.
— O quê?
— A RCV Gestão Patrimonial não recebeu apenas dinheiro.
Ele deslizou o documento sobre a mesa.
Era uma cópia de alteração societária.
Meu nome aparecia no topo.
Abaixo, uma cessão de participação na empresa da minha família.
Assinada por mim.
Falsamente.
Mas ao lado da assinatura havia o nome de uma testemunha.
Clara Monteiro.
O ar pareceu desaparecer da sala.
Virei lentamente a cabeça.
Clara estava branca.
Ricardo não olhava mais para mim.
Olhava para ela.
E naquele instante eu compreendi que Clara não era apenas a amante que aparecera usando o colar da minha avó.
Ela tinha participado da transferência do meu patrimônio muito antes de eu descobrir que existia alguma coisa entre os dois.







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