O logotipo ocupava apenas um canto da fotografia.
Mas eu o reconheceria em qualquer lugar.
Grupo Nobre.
Nosso maior cliente.
Responsável por quase vinte e seis por cento do faturamento anual da empresa.
O mesmo cliente que Mariana havia alertado horas antes sobre as suspeitas de fraude.
O mesmo cliente cuja diretoria Gustavo jurava que controlava “pela confiança”.
Meu pai estava preso dentro de um galpão ligado a eles.
Ou alguém queria que eu acreditasse nisso.
Paulo ampliou a imagem.
“Você reconhece o local?”
“Não.”
Mariana se aproximou.
“Eu reconheço o padrão das caixas.”
Olhei para ela.
“O quê?”
“Aquelas etiquetas.”
Ela apontou para o fundo.
Havia códigos alfanuméricos impressos em adesivos brancos.
“São etiquetas de arquivo de contratos do Grupo Nobre. Eu já vi isso em auditorias.”
Paulo pegou o telefone.
“Vou mandar uma equipe.”
“Não entre sem pensar.”
Minha voz fez com que ele parasse.
“Se meu pai conseguiu enviar localização, foto e áudio, talvez estejam deixando ele fazer isso.”
Paulo me observou.
“Armadilha?”
“Ou pressão.”
Mariana cruzou os braços.
“Para fazer Vitória reagir de forma previsível.”
Eu encarei a mensagem novamente.
Durante anos, Gustavo sempre contara com uma coisa.
Meu impulso de consertar tudo.
Quando meus pais precisavam de dinheiro, eu resolvia.
Quando a empresa entrava em crise, eu resolvia.
Quando Gustavo cometia um erro, eu escondia, renegociava, reestruturava.
Talvez esperassem que eu fizesse o mesmo agora.
“Não vou até lá.”
Paulo assentiu.
“Nem deveria.”
“Mas quero saber quem é o verdadeiro comprador.”
Mariana voltou ao arquivo.
“O áudio diz que Helena não é.”
“Então encontramos quem colocou dinheiro por trás dela.”
Ela começou a revisar a estrutura societária da Vasconcelos Capital.
No início parecia simples.
Helena detinha cinquenta e um por cento.
O restante estava dividido entre dois fundos privados.
Mas um dos fundos havia sido constituído apenas oito meses antes.
Aurora Participações Estratégicas.
Sem site.
Sem histórico operacional.
Sem funcionários registrados.
Paulo aproximou a cadeira.
“Continue.”
Mariana abriu a composição.
A Aurora era controlada por outra empresa.
Depois outra.
Depois um fundo fechado.
Levou quase meia hora até chegarmos ao beneficiário final.
Quando o nome apareceu, não reconheci.
Ricardo Nobre.
Fiquei olhando.
Paulo olhou para mim.
“Família do Grupo Nobre?”
“Filho do fundador.”
Minha boca ficou seca.
“Vice-presidente de expansão.”
Mariana abriu outra página.
Ricardo detinha participação indireta suficiente para financiar a aquisição inteira.
“Então Helena era fachada.”
“Não exatamente.”
Mariana balançou a cabeça.
“Ela parece ser a operadora. Mas o dinheiro principal vem dele.”
Meu telefone vibrou.
Outra mensagem do número desconhecido.
Uma única frase.
PERGUNTE POR QUE O GRUPO NOBRE PRECISA QUE SUA EMPRESA DESAPAREÇA.
Mostrei aos outros.
Paulo franziu a testa.
“Seu pai?”
“Talvez.”
“Ou alguém com o telefone dele.”
Mariana começou a pesquisar contratos.
Eu sabia onde procurar.
“Abra o contrato mestre do Grupo Nobre.”
Ela encontrou.
Assinado quatro anos antes.
Renovado duas vezes.
Cláusulas de confidencialidade.
Serviços de consultoria financeira.
Modelagem de riscos.
Auditoria de fornecedores.
Até chegar ao anexo de responsabilidade.
Meu coração começou a acelerar.
Eu mesma havia criado aquele sistema.
Ele analisava pagamentos suspeitos entre fornecedores relacionados.
“Procure os alertas históricos.”
Mariana abriu a pasta de auditorias.
No terceiro trimestre do ano anterior, encontrei.
ALERTA 47-B.
Pagamentos circulares entre três fornecedores do Grupo Nobre.
R$ 11,8 milhões.
Eu me lembrava vagamente.
Na época, Gustavo dissera que o cliente havia fornecido explicação suficiente.
Eu estava lidando com uma crise pessoal em casa.
Uma agressão que me deixara duas semanas sem conseguir dormir de lado.
Tinha aceitado a palavra dele.
Agora abri o parecer final.
Assinado por Gustavo.
Risco encerrado.
Sem irregularidades materiais.
“Eu nunca aprovei isso.”
Mariana procurou o fluxo de aprovação.
Meu usuário constava como revisor.
Meu estômago afundou.
“Falsificaram meu acesso.”
Paulo olhou imediatamente para mim.
“Como sabe?”
“Porque naquela data eu estava internada.”
O quarto ficou em silêncio.
Não na UTI.
Naquela vez, Gustavo havia deslocado meu ombro.
Dissera no hospital que eu tinha escorregado no banheiro.
Eu ficara quase vinte horas sob observação.
Peguei o celular.
“Tenho os registros.”
Mariana pesquisou a data.
Batia exatamente.
Enquanto eu estava no hospital...
alguém usou minhas credenciais para encerrar um alerta de quase doze milhões de reais.
Paulo soltou um palavrão baixo.
“Então sua empresa não era apenas o alvo.”
“Era a cobertura.”
Eu finalmente entendi.
Gustavo não estava vendendo a empresa porque queria dinheiro rápido.
Ele precisava vender antes que alguém descobrisse o que havia sido enterrado dentro dela.
“Se o Grupo Nobre comprasse nossa empresa...”
Mariana completou.
“Eles controlariam os arquivos.”
“E depois desmontariam tudo.”
“Contratos separados. Funcionários dispensados. Sistemas encerrados.”
Paulo assentiu.
“E a trilha de auditoria desapareceria no caos.”
Meu corpo inteiro ficou frio.
A venda por R$ 18 milhões era barata porque o objetivo não era adquirir um negócio lucrativo.
Era comprar silêncio.
“Quanto dinheiro passou pelo esquema?”
Perguntei.
Mariana começou a cruzar fornecedores.
Onze milhões no primeiro alerta.
Depois sete.
Depois mais nove.
Pagamentos repetidos.
Empresas relacionadas.
Consultorias inexistentes.
Ao final de vinte minutos, ela levantou os olhos.
“Pelo menos R$ 42 milhões.”
Minha respiração falhou.
Quarenta e dois milhões.
Gustavo receberia quase sete milhões para entregar uma empresa avaliada muito acima do preço.
Meu pai receberia comissão.
Renato cuidaria da parte médica.
E eu...
Eu seria transformada na mulher instável que havia destruído a própria carreira.
Paulo recebeu uma ligação.
Atendeu.
Seu rosto mudou.
“Encontraram o galpão.”
Meu coração disparou.
“Meu pai?”
“Vivo.”
Fechei os olhos por um instante.
Não senti alívio.
Ainda não.
“E quem estava com ele?”
Paulo ouviu.
Depois desligou.
“Ninguém.”
“Como assim ninguém?”
“O lugar estava vazio quando a equipe entrou.”
“Ele estava amarrado?”
“Não.”
Aquilo me atingiu imediatamente.
“Então a foto era encenada.”
Paulo ergueu a mão.
“Não necessariamente.”
“Ele estava ferido?”
“Sim.”
“Mas não preso?”
“Não quando chegaram.”
Meu pai tinha usado a palavra implícita de vítima sem nunca dizer que estava sequestrado.
Era típico dele.
Sempre deixando espaço para negar.
“Quero falar com ele.”
“Vai falar.”
“Agora.”
Paulo fez a chamada por vídeo.
Meu pai apareceu sentado na traseira de uma ambulância.
O rosto machucado.
Os olhos cansados.
Ele parecia vinte anos mais velho.
“Vitória.”
“Quem fez isso com você?”
Ele fechou os olhos.
“Ricardo.”
“Ele estava lá?”
“Não.”
“Então quem?”
“Dois homens.”
“Você conhece?”
“Não.”
Paulo interrompeu.
“Sr. Almeida, vamos precisar que o senhor identifique—”
“Primeiro ele responde a mim.”
Paulo me deixou continuar.
“Por que você gravou a reunião?”
Meu pai demorou.
“Porque percebi tarde demais que Gustavo pretendia me deixar como culpado.”
“Você ajudou a falsificar minha incapacidade.”
Ele baixou a cabeça.
“Sim.”
“Você aceitou dinheiro.”
“Sim.”
“Você concordou em assumir meus votos.”
Silêncio.
“Sim.”
Cada resposta doía menos do que eu esperava.
Talvez porque minha esperança já tivesse morrido na primeira ligação.
“Então por que tentou me avisar?”
Ele começou a chorar.
Não me comoveu.
“Porque ouvi uma conversa que não deveria.”
“Qual?”
“Gustavo e Ricardo.”
Meu pai respirou com dificuldade.
“Depois da venda, Gustavo não ficaria com R$ 6,8 milhões.”
Mariana se aproximou da tela.
“Quanto?”
“Doze.”
Meu coração acelerou.
“De onde viria o restante?”
“Do seguro.”
Fiquei imóvel.
“Que seguro?”
Meu pai me olhou.
E soube antes de ele responder.
“A apólice de pessoa-chave.”
Eu conhecia.
A empresa tinha seguros sobre os sócios principais.
Se um deles morresse ou ficasse permanentemente incapacitado, a empresa recebia uma indenização para cobrir perdas operacionais.
“Qual o valor?”
Minha voz mal saiu.
“Cinco milhões e meio.”
Mariana abriu imediatamente a pasta SEGUROS.
Encontrou a apólice.
Meu nome.
Segurada principal.
Beneficiária:
A empresa.
Mas uma alteração recente havia sido anexada.
Assinada eletronicamente seis semanas antes.
Em caso de incapacidade permanente, os recursos poderiam ser usados para recompra compulsória da participação do sócio afetado.
Eu nunca tinha assinado aquilo.
“Mais uma falsificação.”
Mariana parecia horrorizada.
Meu pai continuou.
“Gustavo iria receber pela venda e pela recompra.”
“E eu?”
Ele não respondeu.
“Pai.”
Seu rosto se desfez.
“Você precisava continuar viva.”
A frase deveria ter me tranquilizado.
Não tranquilizou.
“Por quê?”
“Porque morte chamaria atenção demais.”
Senti o quarto girar.
“Então o plano era me deixar permanentemente incapacitada.”
Meu pai fechou os olhos.
“Era isso que Gustavo disse.”
Paulo tomou a frente.
“Quem mais sabia?”
“Ricardo.”
“Helena?”
“Ela sabia da interdição. Não acho que sabia do resto.”
“Renato?”
Meu pai hesitou.
“Sabia.”
Mariana apertou a mesa.
“Sabia o quê exatamente?”
“Que Vitória precisava sair do hospital sem avaliação externa.”
Meu pai começou a chorar novamente.
“Eu pensei que eles só fossem mantê-la sedada por alguns dias.”
“Você pensou.”
Minha voz saiu vazia.
“E isso tornou aceitável?”
Ele não conseguiu responder.
Paulo recebeu outra mensagem da equipe.
Depois mostrou a tela para nós.
Dentro do galpão, haviam encontrado documentos queimados parcialmente.
Mas uma folha sobrevivera.
Era uma lista.
Datas.
Valores.
Nomes.
Gustavo.
Renato.
Ricardo.
Meu pai.
E mais um nome.
Mariana Chen.
Todos olharam para ela.
Mariana ficou imóvel.
“Eu nunca recebi dinheiro deles.”
Paulo ampliou a imagem.
Ao lado do nome dela havia um valor.
R$ 250 mil.
Data prevista:
Amanhã.
Não pagamento feito.
Pagamento programado.
Meu pai ergueu a cabeça na chamada.
“Mariana.”
Ela olhou para ele.
“Você sabe o que é isso?”
“Não.”
“Então pergunte a Helena.”
A ligação falhou por um segundo.
Quando voltou, meu pai estava olhando para alguma coisa fora da câmera.
“Porque ela me disse que amanhã Mariana faria Vitória assinar o último documento.”
O monitor ao meu lado começou a apitar mais rápido.
Mariana balançou a cabeça.
“Isso é mentira.”
Meu pai encarou a câmera.
“Então diga a ela o que está dentro do envelope que você trouxe para o hospital.”
Olhei lentamente para o envelope ainda sobre a mesa.
A carta de renúncia.
Mariana ficou branca.
Eu puxei o envelope para perto.
“Posso abrir?”
Ela não respondeu.
Rasguei.
A primeira folha era exatamente o que ela havia dito.
Renúncia como advogada da empresa.
A segunda não.
Era um documento societário.
Preparado na noite anterior.
Uma procuração irrevogável para negociação emergencial das minhas ações.
No espaço da assinatura...
estava meu nome.
Já digitado.
Só faltava minha assinatura manuscrita.
Levantei os olhos para Mariana.
Ela parecia aterrorizada.
“Vitória, eu posso explicar.”
Virei a última página.
No rodapé constava o destinatário.
Vasconcelos Capital Participações.
E abaixo...
uma anotação escrita à mão.
AMANHÃ, DEPOIS QUE ELA ESTIVER MEDICADA.
**Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.**







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