Anotei o endereço sem dizer nada.
Laura estava diante de mim, observando meu rosto com a mesma atenção que usava antes de uma decisão difícil em campo.
“Você pretende ir até lá.”
Não era uma pergunta.
“Pretendo.”
“Então eu vou com você.”
Olhei para o relógio. Ainda não eram nove da manhã.
O endereço ficava em Brasília, numa rua tranquila do Lago Norte. Se saíssemos imediatamente, poderíamos estar lá antes do fim da tarde.
Mas antes que eu guardasse o telefone, uma mensagem apareceu na tela.
Era do meu pai.
Precisamos conversar antes que sua mãe faça alguma coisa pior.
Mostrei a Laura.
Ela leu duas vezes.
“Ligue para ele.”
Fiz a chamada no viva-voz.
Meu pai atendeu no primeiro toque.
“João.”
Sua voz parecia envelhecida.
“O que significa ‘alguma coisa pior’?”
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
“Mariana foi até sua casa ontem?”
“Você já sabe a resposta.”
Ouvi sua respiração pesada.
“Ela pegou a carta.”
“Uma carta que deveria ter chegado às minhas mãos vinte e dois anos atrás.”
“Eu sei.”
Aquelas duas palavras fizeram a raiva voltar.
“Você sabia que Augusto estava vivo?”
Meu pai demorou a responder.
“Sabia.”
Fechei os olhos.
Laura permaneceu imóvel.
“Então vocês mentiram para mim.”
“Foi sua mãe quem disse que ele tinha morrido.”
“E você deixou.”
Ele não respondeu.
Isso bastou.
“Por quê?”
“Porque, naquela época, eu estava desesperado.”
Meu pai parecia falar com dificuldade.
“A empresa estava afundando. Eu devia dinheiro a fornecedores, funcionários, bancos. Se fechasse de repente, dezenas de pessoas ficariam sem receber.”
“Então roubou a minha conta.”
“Eu pretendia devolver.”
Soltei uma risada sem humor.
“Essa frase deve ter sido muito confortável durante vinte e dois anos.”
“João, escute.”
“Estou escutando.”
“Augusto descobriu. Disse que me denunciaria se eu não colocasse o dinheiro de volta. Sua mãe entrou em pânico. Ela tinha medo de você descobrir e nunca mais falar conosco.”
“Então decidiu esconder tudo de mim.”
“Sim.”
A voz dele falhou.
“Mas isso não é tudo.”
Laura e eu trocamos um olhar.
“Continue.”
“Augusto não se afastou porque quis.”
Minha mão se fechou em torno do telefone.
“O que vocês fizeram?”
“Eu não fiz nada contra ele.”
“Meu pai.”
A voz saiu mais baixa.
Mais perigosa.
Ele entendeu.
“Sua mãe procurou Augusto.”
“Para quê?”
“Para convencê-lo a ficar longe.”
“E?”
“Ela disse a ele que você não queria mais contato.”
Por alguns segundos, não consegui responder.
Laura apoiou a mão sobre meu braço.
Meu pai continuou:
“Ela disse que você sabia sobre o dinheiro e que tinha escolhido me perdoar. Disse que considerava Augusto um intrometido e que não queria vê-lo novamente.”
Senti algo gelado percorrer minhas costas.
“Ele acreditou?”
“Não completamente.”
“Então por que desapareceu?”
Meu pai respirou fundo.
“Porque sua mãe mostrou cartas.”
“Que cartas?”
“Cartas que pareciam ter sido escritas por você.”
A cozinha ficou silenciosa.
“Ela falsificou cartas em meu nome?”
“Sim.”
A palavra caiu como uma pedra.
Durante anos, eu tinha acreditado que Augusto desaparecera da minha vida porque estava morto.
Augusto, aparentemente, tinha acreditado que eu o tinha rejeitado.
Duas vidas separadas por uma mentira cuidadosamente construída.
“Você sabia disso também?”
“Descobri depois.”
“E fez o quê?”
Nada.
Meu pai nem precisou responder.
“Há mais alguma coisa que você queira me contar antes que eu descubra sozinho?”
Ele começou a falar, mas uma voz surgiu ao fundo.
Minha mãe.
“Com quem você está falando?”
Meu pai tentou abafá-la.
“Agora não.”
“É com o João?”
Ouvi passos.
Depois um ruído brusco.
“João”, minha mãe disse no telefone, “não acredite em tudo que seu pai está dizendo.”
“Então me diga qual parte é mentira.”
Silêncio.
“A conta existia?”
“Sim.”
“O dinheiro foi retirado?”
“Foi usado pela família.”
“Sem minha autorização.”
“Você era jovem.”
“Augusto tentou me avisar?”
Outro silêncio.
“Sim.”
“Você escondeu a carta?”
“Eu estava tentando manter nossa família unida.”
Olhei para Laura.
Ela balançou lentamente a cabeça.
“Você falsificou cartas em meu nome?”
Dessa vez, minha mãe demorou mais.
“Eu fiz o que precisava fazer.”
Foi a resposta mais próxima de uma confissão que eu receberia.
“Não”, respondi. “Você fez o que era mais conveniente para você.”
A voz dela endureceu.
“Você não entende como as coisas eram.”
“Talvez eu entenda melhor do que você pensa.”
“João…”
“Não me ligue mais hoje.”
Desliguei.
Quase imediatamente, ela tentou ligar de volta.
Recusei.
Depois outra vez.
Recusei novamente.
Laura pegou as chaves.
“Vamos.”
No caminho para Brasília, Gabriel e Sofia ficaram com uma colega de confiança de Laura. Não contamos às crianças nada sobre Augusto.
Elas já tinham sido machucadas o suficiente pelos problemas daquela família.
Durante a viagem, quase não falamos.
Eu ficava pensando nas memórias que tinha de Augusto.
Ele me ensinando a dar um nó perfeito numa corda.
Ele me mostrando como limpar cuidadosamente uma bota antes de uma cerimônia.
Ele rindo quando eu, aos dezesseis anos, declarei que um dia seria coronel.
“Primeiro aprenda a ser um homem de palavra”, ele havia respondido.
Quando chegamos ao endereço, o sol já estava baixo.
Era uma casa simples atrás de um muro claro, com árvores antigas cobrindo parte da fachada.
Um carro estava estacionado na garagem.
Meu coração acelerou.
Laura percebeu.
“Preparado?”
“Não.”
Ela quase sorriu.
“Ótimo. Pelo menos você ainda é humano.”
Apertei o interfone.
Nada.
Esperei.
Apertei novamente.
Depois de quase um minuto, ouvi passos do outro lado do portão.
Uma voz masculina perguntou:
“Quem é?”
Meu corpo inteiro ficou rígido.
A voz era mais velha.
Mais rouca.
Mas havia nela algo familiar.
“Meu nome é João Almeida.”
Silêncio.
Tão longo que achei que a pessoa tivesse ido embora.
Então ouvi o destravar do portão.
Ele se abriu lentamente.
O homem parado diante de mim devia ter mais de setenta anos.
Os cabelos estavam completamente brancos.
Uma cicatriz atravessava sua têmpora esquerda.
Mas os olhos eram os mesmos.
Augusto Farias levou uma mão à boca.
“Meu Deus.”
Nenhum de nós se moveu.
Depois de vinte e dois anos, o homem que eu havia enterrado em minha memória estava a menos de três metros de mim.
“Você está vivo”, consegui dizer.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
“E você veio.”
A frase me atingiu de forma estranha.
Não havia surpresa apenas.
Havia alívio.
Augusto nos levou para dentro.
A sala estava impecavelmente organizada.
Sobre uma estante havia fotografias antigas de unidades militares, cerimônias e homens muito mais jovens usando farda.
Em uma delas, reconheci meu pai.
Augusto colocou três copos de água sobre a mesa.
“Esperei por este dia durante muito tempo.”
“Por que nunca me procurou pessoalmente?”
Ele fechou os olhos por um momento.
“Eu procurei.”
Então caminhou até um pequeno escritório.
Voltou carregando uma caixa de madeira.
Colocou-a diante de mim.
Dentro havia dezenas de envelopes.
Todos endereçados a mim.
Alguns tinham sido devolvidos.
Outros nunca tinham sido enviados.
“Depois das cartas que recebi supostamente escritas por você, achei que talvez devesse respeitar sua decisão.”
Peguei um dos envelopes.
A data era de dezenove anos atrás.
Outro tinha dezessete.
Outro quinze.
“Mas continuei tentando”, disse Augusto. “De tempos em tempos.”
Laura analisava os envelopes.
“Por que alguns nunca foram enviados?”
Augusto sentou-se.
“Porque descobri algo que me fez acreditar que entrar em contato diretamente com João poderia criar problemas muito maiores.”
Olhei para ele.
“Que tipo de problemas?”
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois tirou uma pasta grossa do fundo da caixa.
“Quando investiguei as movimentações da conta que seu avô deixou para você, descobri que seu pai não tinha sido o único beneficiado.”
Abriu a pasta.
Havia extratos bancários.
Transferências.
Cópias de contratos.
E vários nomes que eu não reconhecia.
“Uma parte do dinheiro foi para a empresa do seu pai”, disse Augusto.
Passou o dedo por outra linha.
“Mas outra parte foi movimentada para uma segunda conta.”
“De quem?”
Augusto me encarou.
“Da sua mãe.”
Laura inclinou-se sobre os documentos.
“Quanto?”
“Mais do que havia na conta original.”
Franzi a testa.
“Isso não faz sentido.”
“Faz quando você percebe que a conta de João não foi a única usada.”
Meu estômago se apertou.
“Existiam outras?”
Augusto assentiu.
“Seu avô criou reservas para os dois netos.”
Olhei para ele.
“Mariana.”
“Sim.”
Levantei-me lentamente.
“Ela disse que não sabia de nada.”
“Provavelmente não sabe.”
Augusto fechou a pasta.
“Porque a conta dela também foi esvaziada.”
Minha mente começou a reorganizar anos inteiros de lembranças.
Mariana sempre recebendo ajuda.
Minha mãe pagando suas dívidas.
Viagens.
Carros.
Presentes.
Tudo apresentado como prova de que Mariana era a filha querida que permanecera ao lado dos pais.
“Para onde foi o dinheiro dela?”
Augusto não respondeu imediatamente.
Em vez disso, retirou uma última folha.
Era uma cópia de registro de uma empresa.
O nome me era desconhecido.
Mas o nome de uma das sócias não.
Minha mãe.
O segundo nome me fez parar de respirar por um instante.
Não era meu pai.
Não era Mariana.
Era um homem que eu tinha visto algumas horas antes.
Um dos convidados sentados à mesa naquele almoço de domingo.
Augusto tocou o documento.
“João, aquele almoço talvez não tenha sido apenas uma reunião de família.”
Levantei os olhos.
“O que você está dizendo?”
“Estou dizendo que sua mãe pode ter tido um motivo muito específico para não querer você dentro daquela casa naquele dia.”
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







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