Fiquei olhando para a fotografia no celular de Henrique até as letras no verso começarem a perder o contorno. “Natália nunca poderá saber quem é o verdadeiro pai dela.” Li uma vez. Depois outra. Na terceira, já não conseguia respirar direito. Durante trinta e sete anos, Augusto Ribeiro fora meu pai. Era o homem que me ensinara a andar de bicicleta, que fazia panquecas aos domingos e que desaparecera da minha vida em um caixão fechado quando eu tinha vinte e seis anos. Agora, em poucas horas, eu descobria que ele talvez estivesse vivo e que talvez nem sequer fosse meu pai.
— Isso pode ser falso — falei.
Henrique não respondeu imediatamente.
Rafaela respondeu por ele.
— Não é.
Virei lentamente para minha irmã.
Ela estava sentada perto da parede, os braços cruzados sobre o próprio corpo.
— Como você sabe?
— Porque eu já vi essa foto.
Senti uma pressão dolorosa no peito.
— Quando?
— Há uns quatro anos.
— E você nunca me contou?
Rafaela abaixou os olhos.
Eu quis odiá-la naquele instante. Parte de mim já odiava. Ela estivera naquela casa quando meu filho fora ferido. Dissera que Elias “teve o que mereceu”. Agora eu descobria que também conhecia um segredo sobre minha origem.
— Onde você encontrou?
— Na caixa.
Henrique se aproximou.
— Então você mentiu quando disse que não sabia exatamente o que havia nela.
— Eu estava com medo.
— Do seu pai? — perguntei.
Rafaela ergueu os olhos.
— Do Augusto.
A correção me atingiu como um soco.
Ela respirou fundo.
— Mamãe me mostrou a caixa quando eu tinha vinte e seis anos. Disse que, se alguma coisa acontecesse com ela, eu deveria destruir tudo.
— Por quê?
— Porque Augusto não morreu naquele acidente.
Embora eu já suspeitasse, ouvir aquilo em voz alta foi diferente.
Rafaela contou que, onze anos antes, Augusto havia acumulado dívidas com pessoas perigosas depois de participar de negócios ilegais. Segundo nossa mãe, o acidente fora preparado para fazê-lo desaparecer. O corpo encontrado no veículo jamais havia sido identificado por DNA. Minha mãe confirmara a identidade do morto usando objetos pessoais de Augusto.
— Então havia outra pessoa naquele carro — murmurei.
Henrique assentiu.
— É uma das questões que estamos investigando.
— Quem?
— Ainda não sabemos.
Rafaela apertou as mãos.
— Augusto voltou algumas vezes. Sempre escondido. Mamãe dava dinheiro para ele.
— E você sabia?
— Descobri por acaso.
— E continuou frequentando a casa dela?
Ela me encarou com lágrimas nos olhos.
— Você não entende como ele é.
Soltei uma risada amarga.
— Meu filho está na UTI. Acho que estou começando a entender.
Nesse instante, senti dedos pequenos apertando minha mão.
Elias estava acordado.
— Mamãe...
Aproximei meu rosto imediatamente.
— Estou aqui, meu amor.
Ele olhou para Rafaela e ficou tenso.
Minha irmã percebeu.
— Elias, eu...
— Não — interrompi.
Ela fechou a boca.
Meu filho respirou com dificuldade.
— A tia tentou ajudar.
Olhei para ele.
Depois para Rafaela.
— O quê?
Uma lágrima desceu pelo rosto dela.
Elias apontou fracamente.
— Ela falou pra ele parar.
A frase não absolvia minha irmã. Mas mudava alguma coisa.
Henrique pediu que Elias não fosse pressionado. Ainda assim, meu filho insistiu em falar. Contou em frases curtas que encontrara a caixa enquanto procurava um brinquedo debaixo da cama da avó. Augusto chegou naquela noite. Ao perceber que Elias havia mexido nos documentos, exigiu saber o que ele vira.
— Ele perguntou de uma mulher — Elias sussurrou.
Meu corpo enrijeceu.
— Que mulher?
— Da foto.
Henrique se inclinou.
— Você lembra do nome?
Elias fechou os olhos, tentando lembrar.
— Helena.
Rafaela levantou a cabeça bruscamente.
Minha reação foi diferente.
O nome não significava nada para mim.
— Quem é Helena?
Rafaela ficou branca.
— Natália...
— Quem é ela?
Minha irmã olhou para Henrique.
— Helena Duarte.
Henrique pegou o telefone.
— Conhece?
— Não. Mas mamãe conhece.
Rafaela hesitou antes de completar:
— E Augusto passou anos procurando por ela.
Henrique saiu para fazer uma ligação. Eu permaneci junto de Elias enquanto Rafaela finalmente contou a parte que nunca tivera coragem de revelar. Entre os documentos da caixa havia transferências bancárias, cópias de identidades falsas e cartas antigas enviadas por uma mulher chamada Helena Duarte. Todas eram endereçadas à minha mãe.
— O que diziam?
— Não li todas. Mas uma delas falava sobre você.
Meu coração acelerou.
— O quê?
— Dizia: “Quando Natália completar dezoito anos, a verdade precisa ser contada.”
Fechei os olhos.
Minha mãe não apenas esconderá quem era meu pai. Alguém tentara obrigá-la a me contar.
— E ela nunca contou.
Rafaela balançou a cabeça.
— Não.
Henrique voltou cerca de vinte minutos depois, acompanhado por uma mulher da equipe de investigação. Seu rosto estava sério.
— Encontramos Helena Duarte.
Levantei imediatamente.
— Onde?
Ele não respondeu de imediato.
— Henrique.
— Em um registro antigo de óbito.
Senti a esperança desaparecer.
— Ela morreu?
— Oficialmente, sim. Em 1998.
Fiz as contas.
Eu tinha nove anos.
— Como?
— Incêndio residencial.
Rafaela deixou escapar um som assustado.
Henrique continuou:
— Existe outro problema. O corpo também não foi identificado por DNA.
O silêncio tomou conta do quarto.
Augusto morto em um acidente com um corpo não identificado.
Helena morta em um incêndio com outro corpo não identificado.
Duas mortes.
Duas identificações duvidosas.
— Vocês acham que ela também está viva? — perguntei.
— Ainda não sabemos.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Número desconhecido.
Henrique sinalizou para que eu atendesse no viva-voz.
— Alô?
Durante alguns segundos, só ouvi respiração.
Então uma voz masculina falou:
— Você deveria cuidar melhor do seu filho, Natália.
Meu sangue gelou.
Rafaela tapou a boca.
Henrique começou imediatamente a sinalizar para outro policial rastrear a chamada.
— Augusto?
Uma risada baixa veio do outro lado.
— Finalmente começou a fazer as perguntas certas.
— Onde você está?
— Isso não importa.
Minha raiva explodiu.
— Você tocou no meu filho?
Silêncio.
— Elias pegou uma coisa que não pertencia a ele.
— Ele tem seis anos!
— E viu demais.
Henrique fez um gesto para que eu continuasse falando.
— O que havia naquela caixa?
— Sua vida inteira.
Meu coração disparou.
— Quem é meu pai?
Dessa vez, Augusto riu.
— Essa é a pergunta que sua mãe espera que você faça.
— Então me diga.
— Pergunte quem é sua mãe.
Fiquei imóvel.
— O quê?
A ligação terminou.
Henrique praguejou baixo enquanto o policial tentava localizar o sinal.
Eu ainda segurava o celular quando Elias começou a se agitar.
— Mamãe.
Olhei para ele.
— O que foi?
— A foto.
— Qual foto?
— A da caixa.
Ele fez esforço para falar.
— A mulher chamada Helena.
Meu coração bateu mais rápido.
— O que tem ela?
Elias olhou diretamente para mim.
— Ela parecia você.
Antes que eu pudesse responder, Henrique recebeu uma mensagem. Leu. Depois tornou a ler, como se não acreditasse.
— Conseguiram localizar o telefone?
— Não. Mas encontramos outra coisa.
Ele virou a tela para mim.
Era um registro hospitalar digitalizado de 1989, o ano em que nasci.
Li meu nome.
Natália Duarte.
Não Ribeiro.
Na linha destinada ao nome da mãe estava escrito:
Helena Duarte.
E abaixo havia uma anotação feita três dias depois do meu nascimento:
“Recém-nascida retirada da maternidade por mulher sem vínculo materno comprovado.”
A mulher registrada como responsável pela retirada chamava-se Lúcia Ribeiro.
Minha mãe.







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