Passei quase um minuto olhando para a mensagem de Helena sem conseguir decidir qual parte me assustava mais. Ela estava viva. Sabia onde eu estava. Sabia que Augusto me observava. E, por alguma razão, acreditava que Henrique não podia saber do nosso encontro. Meu primeiro impulso foi mostrar o telefone a ele. O segundo foi lembrar da frase de Elias: “O pai do tio Henrique não morreu como todo mundo pensa.” Pela primeira vez desde que chegara ao hospital, percebi que talvez eu estivesse cercada por pessoas contando versões diferentes da mesma mentira.
Não fui imediatamente ao endereço. Antes, pedi à enfermeira responsável que ninguém, além da equipe médica, entrasse no quarto de Elias sem minha autorização. Rafaela continuava sob supervisão policial, e Lúcia permanecia prestando depoimento. Elias segurou minha mão quando percebeu que eu pretendia sair.
— Você volta?
A pergunta quase me destruiu.
— Sempre.
Beijei sua testa e prometi que demoraria pouco. Não contei para onde iria.
O endereço ficava em uma pequena pensão na região da Bela Vista. Durante o trajeto, olhei tantas vezes pelo retrovisor que comecei a enxergar ameaças em cada carro. Quando cheguei, fiquei parada diante do prédio por vários minutos. Então meu telefone vibrou.
“Quarto 12.”
Subi.
Bati duas vezes.
— Entra, Natália.
Reconheci a voz sem jamais tê-la ouvido.
Abri a porta.
A mulher da fotografia estava junto à janela. Devia ter pouco mais de sessenta anos. Cabelos grisalhos presos atrás da cabeça, rosto cansado, mãos inquietas.
Quando nossos olhos se encontraram, ela começou a chorar.
— Meu Deus...
Não consegui me mover.
Helena levou a mão à boca.
— Você ficou tão parecida comigo.
— Não faça isso.
Ela parou.
— Você não tem direito de aparecer depois de trinta e sete anos e falar comigo como se tivesse me perdido ontem.
A dor no rosto dela se aprofundou.
— Eu sei.
— Você é minha mãe?
— Sou.
Uma palavra.
Trinta e sete anos destruídos por uma palavra.
— Então por que me abandonou?
Helena sentou-se lentamente.
— Porque Augusto teria matado nós duas se eu tivesse ficado.
Ela contou que conhecera Augusto enquanto trabalhava na clínica. No início, ele parecia apenas um empresário envolvido com importações. Depois ela descobriu que a clínica era usada para falsificar prontuários, certidões e documentos de pessoas que precisavam desaparecer. Quando tentou denunciar o esquema, Augusto passou a persegui-la.
— Marcelo Valença me ajudou — disse.
— Henrique acredita que Marcelo pode ser meu pai.
Helena fechou os olhos.
— Marcelo amava você antes mesmo de nascer.
Meu coração disparou.
— Isso não responde.
— Sim. Ele era seu pai.
Fiquei em silêncio.
Henrique era meu irmão.
— Então por que você disse para eu não confiar nele?
Helena levantou-se.
— Eu não disse que Henrique é ruim. Disse para não contar a ele.
— Qual é a diferença?
— Porque alguém dentro da investigação está passando informações para Augusto.
Aquilo explicava como Augusto sabia onde eu estava, como conseguira entrar na casa isolada e roubar a caixa.
— Você acha que é Henrique?
— Não sei. Mas Augusto sempre soube coisas que apenas poucas pessoas poderiam saber.
— E Marcelo?
O rosto dela mudou.
— Marcelo descobriu quem protegia Augusto.
— Quem?
— Antes que pudesse revelar, sofreu um atentado.
— Henrique disse que ele morreu.
— Henrique acredita nisso.
Senti um frio atravessar meu corpo.
— Marcelo está vivo?
Helena não respondeu imediatamente.
— Eu não sei.
— Elias ouviu Augusto dizendo que ele não morreu.
Ela me encarou.
— Então Augusto sabe mais do que eu.
Helena abriu uma bolsa e retirou um envelope grosso.
— Foi por isso que voltei.
Dentro havia cópias de documentos bancários, fotografias e uma lista de nomes. Reconheci Augusto. Reconheci Lúcia.
Outro nome estava marcado várias vezes.
Eduardo Ribeiro.
— Quem é Eduardo?
Helena ficou pálida.
— Irmão de Augusto.
Eu nunca ouvira falar dele.
— Augusto não tem irmão.
— É isso que ele queria que todos acreditassem.
Segundo Helena, Eduardo administrava parte das empresas usadas pelo esquema. Quando as investigações começaram, desapareceu. Marcelo acreditava que Eduardo era responsável por eliminar provas e testemunhas.
— Por que isso importa agora?
Helena retirou outra fotografia.
Um homem mais jovem aparecia ao lado de Augusto.
Demorei alguns segundos para perceber por que seu rosto parecia familiar.
Eu o vira no hospital.
Na manhã em que chegara.
Vestindo uniforme de segurança.
— Ele estava aqui.
Helena segurou meu braço.
— Onde?
— No hospital.
Seu rosto perdeu a cor.
Peguei o telefone imediatamente.
Liguei para a UTI.
Ninguém atendeu.
Tentei novamente.
Nada.
Corri para a porta.
— Natália, espera!
Já estava descendo as escadas.
Durante o caminho de volta, liguei para Henrique. Dessa vez não me importava com o aviso de Helena.
— Onde você está? — ele perguntou.
— Indo para o hospital. Procure um segurança chamado Eduardo Ribeiro.
Silêncio.
— Como você sabe esse nome?
— Depois eu explico.
— Natália, não vá para lá sozinha.
Desliguei.
Quando cheguei, havia policiais no saguão.
Corri até o andar de Elias.
A porta do quarto estava aberta.
A cama estava vazia.
Por um segundo, meu cérebro se recusou a entender.
Então ouvi a voz de uma enfermeira.
— Senhora Natália!
Virei.
Elias estava em uma cadeira de rodas no final do corredor, acompanhado por dois médicos e Henrique.
Corri até ele e o abracei com cuidado.
— O que aconteceu?
Henrique respondeu:
— Alguém tentou entrar no quarto usando uma credencial clonada. A equipe percebeu e transferiu Elias.
— Eduardo?
Henrique mostrou uma imagem das câmeras.
Era o homem da fotografia.
— Fugiu antes de conseguirmos pegá-lo.
Fechei os olhos, aliviada por Elias estar seguro.
Então meu filho puxou minha manga.
— Mamãe.
— O quê?
Ele apontou para o bolso do pijama.
— O homem colocou isso lá antes.
Meu sangue gelou.
Henrique colocou luvas e retirou um pedaço dobrado de papel.
Dentro havia apenas um número de telefone e uma frase:
“Helena está mentindo sobre Marcelo.”
No verso havia outra mensagem.
“Pergunte a ela quem estava no carro que queimou no lugar de Augusto.”
Voltei lentamente os olhos para Helena, que acabava de surgir no corredor escoltada por dois policiais.
Quando viu o bilhete, ela parou.
Seu rosto se transformou.
— Não — sussurrou.
Aproximei-me.
— Quem estava naquele carro?
Helena começou a chorar.
— Natália...
— Quem morreu no lugar de Augusto?
Ela olhou para Henrique.
E então disse:
— Marcelo.
Henrique ficou completamente imóvel.
Mas Helena ainda não tinha terminado.
— Pelo menos foi isso que Lúcia e eu acreditamos durante onze anos.
Henrique aproximou-se dela.
— O que significa “acreditamos”?
Helena ergueu os olhos.
— Significa que, três meses atrás, recebi uma fotografia.
Ela abriu a bolsa com mãos trêmulas e retirou uma imagem recente.
Um homem grisalho estava sentado diante de uma casa simples, segurando uma xícara.
Henrique perdeu a cor.
— Pai...
No verso da fotografia havia uma data de três meses antes e quatro palavras escritas à mão:
“Marcelo nunca saiu daqui.”







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