As iniciais M. V. ficaram projetadas na tela como se fossem uma sentença. Procurei mentalmente entre parentes, amigos antigos, fotografias de infância, nomes que ouvira nas conversas interrompidas quando eu entrava na sala. Nada. Nenhum homem com aquelas iniciais ocupava espaço algum nas minhas lembranças.
— Quem é M. V.? — perguntei.
Henrique não respondeu. Em vez disso, abriu outro arquivo do cartão. Era uma fotografia de uma folha dobrada, tirada às pressas. Havia um endereço parcialmente visível e uma data de quinze dias antes. A mesma data do envelope de Helena.
— Elias fotografou isso?
— Parece que sim.
Senti uma mistura dolorosa de orgulho e culpa. Meu filho de seis anos fizera, por instinto, aquilo que nenhum adulto naquela família tivera coragem de fazer durante décadas: preservara a verdade.
Henrique ampliou o endereço.
— Atibaia.
Rafaela, que permanecia perto da porta, ficou rígida.
Percebi.
— Você conhece esse lugar.
— Não.
— Rafaela.
Ela respirou fundo.
— Mamãe vai para Atibaia uma vez por mês.
Henrique virou-se.
— Desde quando?
— Há anos. Ela dizia que visitava uma amiga da igreja.
Minha raiva cresceu novamente.
— E você nunca achou estranho?
— Natália, naquela casa tudo era estranho. A gente aprendia a não perguntar.
Dessa vez, não respondi. Porque eu também aprendera.
Henrique acionou uma equipe para verificar o endereço. Eu queria ir, mas ele recusou. Elias ainda precisava de mim e Augusto permanecia desaparecido. Depois da ligação, a polícia considerava possível que ele estivesse acompanhando nossos movimentos.
Voltei para junto do meu filho.
Horas depois, enquanto Elias dormia, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
“Não confie em Lúcia. Mas também não confie na polícia.”
Mostrei imediatamente a Henrique.
— Não responde.
Segundos depois chegou outra.
Uma fotografia.
Era eu saindo do elevador do hospital naquela manhã.
Tirada de poucos metros de distância.
Meu sangue gelou.
— Ele está aqui.
Henrique chamou os agentes pelo rádio. Portas foram controladas, corredores verificados, câmeras de segurança analisadas. Ninguém encontrou Augusto.
Então chegou a terceira mensagem.
“Pergunte a Henrique por que ele conhece M. V.”
Olhei para o investigador.
Ele percebeu minha expressão antes que eu mostrasse o telefone.
Por alguns segundos, não disse nada.
Aquilo foi suficiente.
— Você sabe quem é.
Henrique fechou a porta.
— Sei quem pode ser.
— Desde quando?
— Desde que vi as iniciais.
— E não me contou?
— Porque uma hipótese sem confirmação poderia colocar você em perigo.
— Meu filho já quase morreu!
Minha voz saiu alta demais. Elias se mexeu na cama e imediatamente baixei o tom.
— Chega de decidir o que eu posso saber.
Henrique assentiu lentamente.
— Marcelo Valença.
O sobrenome me atingiu primeiro.
— Valença?
— Meu pai.
Fiquei olhando para ele.
— Seu pai é M. V.?
— Talvez.
— Quem era ele?
Henrique apoiou as mãos na mesa.
— Delegado da Polícia Civil. Trabalhou durante anos em uma investigação sobre uma rede de falsificação de documentos, lavagem de dinheiro e identidades clandestinas. Augusto Ribeiro era um dos nomes investigados.
Tudo começou a se encaixar de uma forma ainda mais assustadora.
— E Helena?
— Era informante.
Senti um arrepio.
— Você está dizendo que minha mãe biológica trabalhava com seu pai?
— Estou dizendo que Helena Duarte fornecia informações a ele.
— E você acha que Marcelo Valença era meu pai?
Henrique demorou.
— Meu pai morreu sem nunca falar sobre você. Mas, depois que encontramos as iniciais, pedi acesso ao arquivo pessoal dele.
— E?
Ele tirou do bolso uma fotografia antiga.
Marcelo Valença aparecia diante de uma delegacia, muito mais jovem.
Ao lado dele estava Helena.
Ela devia ter pouco mais de vinte anos.
Eu não precisei que ninguém apontasse a semelhança.
Os mesmos olhos.
Meu queixo.
Até o modo como inclinava a cabeça para a fotografia parecia familiar.
No verso, uma data: novembro de 1988.
Quatro meses antes do meu nascimento.
Minhas pernas fraquejaram e sentei.
— Então você pode ser...
Henrique interrompeu.
— Não vamos concluir nada antes de um exame.
Se Marcelo fosse meu pai, Henrique poderia ser meu meio-irmão.
Olhei para aquele homem que, desde minha chegada ao hospital, investigava a destruição da minha família.
Ele parecia tão perturbado quanto eu.
O telefone dele tocou.
Henrique atendeu.
Ouvi apenas fragmentos.
“Atibaia.”
“Tem certeza?”
“Não entrem.”
Ele desligou.
— Encontraram a casa.
Levantei.
— Helena?
— Encontraram sinais de que alguém vive lá. Comida recente, roupas, medicamentos. Mas a casa está vazia.
— Ela fugiu?
— Talvez.
— O que mais?
Henrique hesitou.
— Fotografias suas.
Meu estômago se apertou.
— Minhas?
— Desde a infância.
Não consegui falar.
— Escola, faculdade, seu casamento, gravidez... fotografias tiradas à distância.
Helena, se estivesse viva, me observara crescer.
— Por que nunca veio até mim?
Henrique não tinha resposta.
Naquela noite, Elias acordou assustado.
— Mamãe, ele vai voltar?
Sentei na cama e passei a mão por seus cabelos.
— Ninguém vai machucar você de novo.
Ele ficou quieto.
— Eu ouvi o monstro falando com a vovó.
— O que ele disse?
— Que precisava achar a mulher antes de você.
— Helena?
Elias assentiu.
— E falou do policial.
Meu coração acelerou.
— Que policial?
Meu filho apontou para a porta pela qual Henrique saíra minutos antes.
— O pai dele.
— O que ele falou?
Elias apertou meu dedo.
— Que o pai do tio Henrique não morreu como todo mundo pensa.
Fiquei sem reação.
Henrique havia acabado de me dizer que Marcelo Valença estava morto.
Antes que eu pudesse perguntar mais, meu celular vibrou.
Uma nova mensagem.
Dessa vez não era de Augusto.
Havia apenas uma fotografia de uma mulher de cabelos grisalhos diante de uma rodoviária. Na mão, ela segurava o jornal daquele mesmo dia.
Abaixo, uma frase:
“Natália, sou Helena. Não posso entrar no hospital. Augusto está observando você. Se quiser saber por que deixei você com Lúcia, venha sozinha.”
Depois vinha um endereço.
E uma última advertência:
“Não conte a Henrique. O pai dele foi o homem que começou tudo.”







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