Marcelo fechou imediatamente a cortina. Augusto apagou as luzes da sala e caminhou até a janela lateral, mantendo-se fora do campo de visão. Eu permaneci imóvel, segurando Noah contra o peito, tentando impedir que o medo chegasse às minhas mãos. A fotografia havia sido tirada segundos antes. Quem quer que estivesse enviando aquelas mensagens não estava em Portugal. Estava perto o suficiente para nos observar.
— Ninguém sai — disse Augusto. — E ninguém apaga nenhuma mensagem.
Rafael foi até a porta e conferiu a fechadura.
— Precisamos chamar a polícia.
— Engraçado ouvir isso de você — Marcelo respondeu. — Há cinco minutos descobrimos que você mentiu sobre César durante anos.
— Se fosse César lá fora, você acha que ele mandaria uma fotografia avisando?
A pergunta fez todos se calarem.
Rafael tinha razão.
Helena sentou-se devagar.
— Ele fazia isso.
— O quê? — perguntei.
— Criava medo antes de aparecer. César gostava de fazer as pessoas acreditarem que ele sabia tudo sobre elas.
Marcelo virou-se para a cunhada.
— Você nunca me contou isso.
— Eu nunca contei muitas coisas.
O telefone de Augusto já estava em sua mão. Ele registrou a ocorrência e explicou que estávamos recebendo mensagens de origem desconhecida e sendo fotografados sem consentimento. Depois pediu que ninguém tocasse nos documentos.
Enquanto esperávamos, Noah finalmente adormeceu novamente. Olhei para seu rosto e senti uma raiva profunda crescer por baixo do medo. Meu filho tinha doze dias. Eu deveria estar em casa aprendendo seus horários, descobrindo qual canção o acalmava, tentando dormir entre uma mamada e outra. Em vez disso, estava dentro de uma casa pertencente a uma sogra que oficialmente estava morta, cercada por homens que escondiam vinte anos de mentiras.
— Quero a verdade sobre meu pai — falei.
Rafael permaneceu junto à porta.
— Mariana...
— Toda.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Na noite anterior à morte de Antônio, eu fui ao escritório dele.
Marcelo se aproximou.
— Você disse que César foi.
— Os dois foram.
Meu estômago apertou.
— Você estava lá?
— Cheguei depois.
— E encontrou César?
Rafael assentiu.
Marcelo precisou apoiar a mão sobre uma cadeira.
— Depois de quatorze anos procurando meu irmão, você o viu e não me disse nada.
— Eu não devia nada a você.
— Ele era meu irmão!
— E estava ameaçando destruir minha empresa, meu casamento e a vida de Mariana.
— Como?
Rafael olhou para mim.
— César queria cinquenta por cento dos ativos que estavam protegidos pela estrutura criada por seu pai.
— E Antônio recusou.
— Sim.
— O que aconteceu depois?
— Eles discutiram. César saiu. Seu pai estava nervoso. Eu fiquei com ele por quase uma hora.
— E no dia seguinte ele morreu.
— Sim.
A resposta veio baixa.
— Você estava com ele quando passou mal?
— Não.
Helena levantou-se.
— Isso é mentira.
Rafael ficou imóvel.
— Como você sabe?
Ela desapareceu pelo corredor e voltou com uma pequena caixa metálica. Dentro havia vários cartões de memória e um antigo gravador digital.
— Antônio sabia que César poderia voltar. Depois do primeiro encontro, pediu que eu guardasse isso.
Rafael empalideceu.
Marcelo pegou o aparelho.
— O que tem aqui?
— Conversas.
— Você ouviu?
— Algumas.
Olhei para Helena.
— Durante seis anos você guardou gravações relacionadas à última noite do meu pai?
— Antônio me fez prometer.
Minha paciência acabou.
— Todo mundo parece ter feito promessas ao meu pai! E aparentemente nenhuma delas incluía contar a verdade para a filha dele!
Noah se mexeu. Fechei os olhos, respirando profundamente para me acalmar.
Helena baixou a cabeça.
— Você tem razão.
Ela pegou um dos cartões.
— Este é da última noite.
Marcelo encontrou um adaptador em uma gaveta e conectou o cartão ao notebook de Augusto. Havia três arquivos de áudio.
O primeiro começava às 19h08.
A voz de meu pai surgiu pelos alto-falantes.
Ouvi-la depois de seis anos quase me desmontou.
“Você perdeu qualquer direito de exigir alguma coisa, César.”
Outra voz respondeu:
“Você comprou por uma fração do valor.”
“Com documentos assinados por Helena.”
“Ela estava com medo.”
“De você.”
Helena começou a chorar silenciosamente.
O áudio continuou. César exigia dinheiro. Meu pai recusava. Então surgiu uma frase que fez Marcelo parar a reprodução.
“Se Mariana descobrir quem Rafael realmente é, ela mesma vai deixá-lo.”
Olhei para meu marido.
— O que isso significa?
— Continue.
Marcelo retomou.
Meu pai perguntou:
“Você tem provas?”
César respondeu:
“Tenho. Mas não entregarei de graça.”
Depois ouviu-se uma porta.
O primeiro arquivo terminou.
O segundo começava quarenta minutos depois.
Dessa vez, reconheci imediatamente a voz de Rafael.
“Ele esteve aqui?”
Meu pai respondeu:
“Esteve.”
“E o que queria?”
“Dinheiro. E destruir você.”
Houve silêncio.
Então meu pai disse algo inesperado:
“Rafael, ainda existe tempo para contar a Mariana.”
Meu marido fechou os olhos.
No áudio, Rafael respondeu:
“Se eu contar, vou perdê-la.”
“Talvez. Mas se ela descobrir sozinha, perderá muito mais.”
Meu coração parecia bater dentro da garganta.
— Contar o quê?
Rafael não respondeu.
Continuei ouvindo.
Meu pai dizia:
“Uma mentira pode proteger alguém durante um dia. Durante dez anos, ela apenas constrói uma prisão.”
O arquivo terminou.
O terceiro tinha apenas quatro minutos.
Havia barulho, como se o gravador tivesse caído.
Meu pai respirava pesadamente.
Rafael dizia:
“Antônio? Senta. Vou chamar alguém.”
Depois passos.
Uma cadeira arrastando.
Meu pai respondeu:
“Não chame Mariana.”
“Você precisa de um médico.”
“Primeiro promete.”
“Prometer o quê?”
“Proteja minha filha de César.”
Rafael começou a dizer alguma coisa.
O áudio terminou abruptamente.
Fiquei olhando para ele.
— Você estava lá quando meu pai passou mal.
Rafael assentiu.
— Liguei para a emergência. Ele foi levado ao hospital. Eu fiquei até os médicos dizerem que estava estabilizado. Você estava viajando a trabalho e Antônio insistiu para que eu não assustasse você.
Eu me lembrava daquela viagem. Belo Horizonte. Rafael me ligara naquela noite e dissera que meu pai estava dormindo.
No dia seguinte, recebi a notícia de sua morte.
— Por que mentiu?
— Porque Antônio pediu.
— Pare de usar meu pai para justificar tudo.
Ele baixou a cabeça.
Foi então que Augusto chamou nossa atenção para a tela.
— Há outro arquivo.
Marcelo franziu a testa.
— Não estava aparecendo antes.
Era um arquivo oculto.
Data: dois dias antes da morte de Antônio.
Abrimos.
Não havia áudio.
Era um vídeo.
A imagem mostrava o escritório de meu pai. Antônio estava sentado diante de César.
Mas havia uma terceira pessoa.
Amanda.
Meu sangue gelou.
Ela parecia muito mais jovem, mas era inconfundível.
— Isso foi seis anos atrás — murmurei.
Rafael se aproximou da tela.
Sua reação foi genuína.
— Eu não sabia disso.
No vídeo, meu pai colocou um documento diante de Amanda.
“Se alguma coisa acontecer comigo, você entrega isso para Mariana.”
Amanda respondeu:
“E se Rafael descobrir?”
“Principalmente se Rafael descobrir.”
O vídeo terminou.
Imediatamente liguei para Amanda.
Ela não atendeu.
Tentei novamente.
Nada.
Na terceira tentativa, uma mensagem chegou do telefone dela.
“Mariana, não confie em César. E não confie em Marcelo. A pasta que seu pai me entregou ainda existe. Rafael nunca encontrou porque ela não está em São Paulo.”
Logo depois veio outra mensagem.
Um endereço.
Campinas.
Marcelo leu por cima do meu ombro.
Seu rosto mudou.
— Eu conheço esse lugar.
— O que é?
Ele demorou demais para responder.
— Era a casa de César.
Antes que eu pudesse perguntar mais, chegou uma terceira mensagem de Amanda.
Desta vez, apenas uma fotografia.
Era a imagem de um cofre aberto.
Dentro dele havia documentos, um pen drive vermelho e uma certidão.
Ampliei a fotografia.
No alto da certidão consegui ler meu próprio nome.
Mariana Almeida Carvalho.
Abaixo dele, uma frase:
“Declaração de Beneficiário Final.”
E na linha seguinte havia outro nome.
Noah Carvalho.
A data do documento era de seis anos atrás.
Seis anos antes de meu filho nascer.







No comments yet