Rafael continuou olhando para minha mãe, depois para o advogado, como se esperasse que algum dos dois revelasse que tudo aquilo era uma brincadeira de mau gosto.
“Quem me denunciou?”, perguntou.
Ninguém respondeu imediatamente.
O silêncio pareceu irritá-lo ainda mais.
“Eu fiz uma pergunta.”
O advogado fechou a pasta com calma.
“Antes de falarmos sobre a denúncia, acho que o senhor deveria entender a gravidade da situação.”
Rafael apontou para ele.
“Você não trabalha para mim.”
“Não”, respondeu o advogado. “Eu represento sua esposa.”
Aquelas palavras mudaram alguma coisa no rosto dele.
Até aquele momento, Rafael ainda parecia acreditar que aquela reunião era apenas uma tentativa minha de assustá-lo.
Mas ouvir alguém dizer formalmente que estava ali para me representar fez a situação parecer real.
“Representar ela em quê?”
“Na proteção dos interesses financeiros dela e dos filhos.”
Rafael virou-se para mim.
“Você ficou maluca?”
Helena levantou-se imediatamente.
“Não fale assim com ela.”
“Isso é entre mim e minha esposa.”
“Quando minha filha precisa dormir em intervalos de quarenta minutos enquanto você usa dinheiro da empresa para brincar de solteiro na praia, deixou de ser apenas entre vocês dois.”
Rafael cerrou a mandíbula.
Eu conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que ele fazia quando percebia que estava perdendo uma discussão e começava a procurar alguma coisa que pudesse usar para me machucar.
“Foi você, então?”, ele perguntou a Helena. “Foi você quem ligou para minha empresa?”
“Eu já disse que não.”
“Então quem foi?”
O advogado tirou outra folha da pasta.
“Seu superior entrou em contato com você durante a viagem?”
Rafael hesitou.
Foi rápido.
Talvez outra pessoa não tivesse percebido.
Eu percebi.
“Não.”
O advogado apenas assentiu.
“Tem certeza?”
“Sim.”
Meu estômago apertou.
Porque aquela era uma mentira.
Na noite anterior, enquanto eu dava mamadeira para um dos bebês, vi uma notificação aparecer no tablet que Rafael havia deixado em casa.
O aparelho estava conectado ao celular dele.
A mensagem tinha apenas algumas palavras visíveis na tela.
**Precisamos conversar assim que você retornar. Não use mais o cartão.**
Eu não tinha aberto a conversa.
Nem precisava.
“Seu chefe mandou mensagem para você ontem”, falei.
Rafael virou a cabeça lentamente para mim.
“Você mexeu nas minhas coisas?”
“Não precisei. A notificação apareceu no tablet.”
“Então agora você está me espionando?”
Eu quase ri.
Era impressionante como Rafael conseguia transformar qualquer situação para que ele parecesse a vítima.
“Você está sendo investigado por despesas corporativas e sua preocupação é uma notificação que apareceu na tela?”
Ele passou a mão pelos cabelos.
“Vocês não entendem como minha empresa funciona. Às vezes usamos o cartão e depois fazemos o reembolso.”
O advogado inclinou ligeiramente a cabeça.
“Então o senhor reembolsou a viagem?”
Rafael abriu a boca.
Nenhuma resposta saiu.
Helena cruzou os braços.
“Foi o que imaginei.”
“Eu ia fazer isso.”
“Quando?”
“Na próxima semana.”
“Depois que a investigação começou?”
Ele bateu a palma da mão na mesa.
Uma das trigêmeas se assustou no moisés e começou a chorar.
Meu corpo reagiu antes mesmo de eu pensar.
Peguei-a no colo e comecei a balançá-la delicadamente.
Rafael olhou para a bebê por alguns segundos.
Não se aproximou.
Não perguntou se ela estava bem.
Apenas voltou sua atenção para nós.
E foi naquele instante que alguma coisa dentro de mim se tornou ainda mais clara.
Mesmo cercado pelas consequências das próprias escolhas, Rafael continuava pensando apenas em Rafael.
“Eu preciso saber quem fez a denúncia”, repetiu.
O advogado colocou a folha diante dele.
Dessa vez, Rafael pegou o documento.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Seus olhos começaram a correr rapidamente pelo restante da página.
A expressão em seu rosto mudou.
Primeiro confusão.
Depois incredulidade.
Por fim, raiva.
“Não.”
Olhei para Helena.
Ela também estava observando Rafael atentamente.
“Isso não pode estar certo.”
Ele leu de novo.
“Quem foi?”, perguntei.
Rafael apertou o papel entre os dedos.
“Isso é ridículo.”
O advogado respondeu por ele.
“A denúncia inicial foi apresentada por alguém que participou da viagem.”
Meu coração acelerou.
Um dos amigos dele.
Rafael levantou os olhos.
“Ele está tentando me destruir.”
“Quem?”, insisti.
Mas Rafael ignorou minha pergunta.
Começou a andar pela cozinha.
“Ele está fazendo isso porque está com raiva. É vingança. Isso não prova nada.”
O advogado permaneceu sentado.
“Uma denúncia sozinha talvez não provasse. O problema é que ela veio acompanhada de recibos, fotografias e registros de despesas.”
Rafael parou.
“Fotografias?”
“Sim.”
“Que fotografias?”
O advogado não respondeu.
Meu olhar foi para o papel amassado na mão de Rafael.
Então vi o nome.
**Marcelo Duarte.**
Eu conhecia Marcelo.
Ele trabalhava com Rafael havia quase sete anos.
Frequentava nossa casa.
Tinha comparecido ao nosso casamento.
Quando os trigêmeos nasceram, apareceu no hospital com três pequenos cobertores azuis e ficou emocionado ao segurá-los.
E ele tinha viajado para a praia com Rafael.
“Marcelo denunciou você?”
Rafael soltou uma risada seca.
“Marcelo é um traidor.”
Mas alguma coisa naquela reação me incomodou.
Não parecia apenas raiva.
Parecia medo.
“Por quê?”, perguntei.
“Por que ele faria isso?”
“Porque ele é um idiota.”
“Essa não é uma resposta.”
Rafael se virou para mim.
“Você não sabe nada sobre meu trabalho.”
“Então me explique.”
Ele ficou em silêncio.
O advogado abriu novamente a pasta.
“Talvez o senhor queira explicar também estas despesas.”
Ele colocou três cópias de recibos sobre a mesa.
Restaurante.
Hotel.
Combustível.
Todos pagos com o cartão corporativo.
Mas havia outro detalhe.
As datas não eram daquela semana.
Uma era de quatro meses atrás.
Outra, de quase oito meses.
A terceira era do ano anterior.
Muito antes do nascimento dos bebês.
Senti um frio percorrer meu corpo.
“Quantas vezes você fez isso?”
“Não é o que parece.”
“Quantas?”
“Eu já disse que essas despesas podem ser reembolsadas.”
O advogado apontou para um dos comprovantes.
“Este hotel fica a menos de quarenta minutos daqui.”
Rafael ficou imóvel.
Olhei para o recibo.
Uma noite.
Quarto para duas pessoas.
Serviço de quarto.
Champanhe.
Meu peito apertou.
Helena também percebeu.
“Rafael…”
“Não comecem.”
“Você disse que estava viajando a trabalho naquela semana”, falei.
Ele não respondeu.
Eu me lembrava daquela noite.
Os bebês ainda nem tinham nascido.
Eu estava grávida, enorme, exausta e enjoada.
Rafael me mandou uma mensagem dizendo que precisaria dormir fora porque teria uma reunião muito cedo em outra cidade.
Mas aquele hotel não ficava em outra cidade.
Ficava praticamente ao lado de casa.
“Com quem você estava?”
Rafael pegou sua mala do chão.
“Eu não vou ficar aqui sendo interrogado.”
“Com quem você estava?”
Ele caminhou em direção ao corredor.
Helena se colocou à frente dele.
“Responda à sua esposa.”
“Saia da minha frente.”
O advogado se levantou.
“Senhor Rafael, recomendo que mantenha a calma.”
Rafael olhou para todos nós.
Então soltou uma frase que fez meu sangue gelar.
“Vocês estão olhando para a pessoa errada.”
Fiquei em silêncio.
Ele apontou para o nome de Marcelo no documento.
“Se vocês realmente querem saber o que aconteceu, perguntem a ele por que estava tão desesperado para impedir que eu voltasse daquela viagem.”
E, pela primeira vez desde que Rafael tinha entrado naquela cozinha, percebi que a denúncia talvez fosse apenas o começo.
Porque Marcelo não havia entregado apenas recibos.
Ele havia enviado uma mensagem diretamente para o advogado naquela manhã.
E nela havia escrito apenas uma frase:
**“Não deixe Rafael ficar sozinho com os documentos da empresa.”**
Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.







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