Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Rafael continuava segurando o papel amassado, respirando rápido demais, enquanto a frase de Marcelo parecia pairar sobre a cozinha.
**Não deixe Rafael ficar sozinho com os documentos da empresa.**
“Que documentos?”, perguntei.
Rafael olhou para mim.
“Não existe documento nenhum.”
O advogado se levantou devagar.
“Curioso. Marcelo parecia bastante específico.”
“Marcelo está tentando salvar a própria pele.”
“De quê?”
Rafael apertou os lábios.
Outra vez, silêncio.
Eu estava começando a perceber um padrão.
Sempre que a pergunta chegava perto demais de alguma coisa importante, ele parava de responder.
O advogado pegou o celular.
“Marcelo me procurou porque recebeu meu contato através do departamento jurídico da empresa. Ele soube que sua esposa havia contratado representação depois que o nome dela apareceu ligado às contas conjuntas analisadas internamente.”
Meu coração deu um salto.
“Minhas contas?”
“Não significa que você esteja sendo investigada”, explicou ele imediatamente. “Significa apenas que algumas despesas feitas por Rafael passaram por contas ou cartões vinculados ao patrimônio do casal.”
Virei-me para Rafael.
“Você usou nossas contas para cobrir gastos da empresa?”
“Não.”
A resposta veio rápido demais.
“Então por que meu nome apareceu?”
“Porque seu nome está em tudo, lembra? Foi você mesma quem acabou de dizer.”
O tom dele voltou a ser agressivo.
Mas dessa vez não me encolhi.
“Meu nome estar nas contas não autoriza você a esconder movimentações de mim.”
Helena colocou a mão sobre meu braço.
“Tem mais”, disse o advogado.
Rafael virou-se imediatamente.
“Você não tem direito de mostrar nada.”
O advogado nem piscou.
“Tudo o que vou mostrar foi entregue voluntariamente por uma pessoa autorizada a fornecê-lo.”
Ele abriu no celular uma mensagem enviada por Marcelo.
Não havia fotografias secretas.
Não havia gravações.
Havia apenas uma lista.
Datas.
Valores.
Nomes de estabelecimentos.
E códigos curtos escritos ao lado de algumas despesas.
PRAIA.
CLIENTE.
EVENTO.
TRANSPORTE.
Ao lado de várias delas, aparecia a mesma observação:
**Sem finalidade comercial identificada.**
“Isso é uma planilha de auditoria”, Rafael murmurou.
O advogado assentiu.
“Uma cópia parcial.”
Rafael empalideceu.
“Marcelo não deveria ter acesso a isso.”
“Mas tinha?”
Rafael não respondeu.
Observei as datas.
Havia despesas de dois anos diferentes.
Algumas pequenas.
Outras muito maiores.
Nada que, sozinho, parecesse suficiente para destruir alguém.
Mas juntas formavam outra história.
Uma história que Rafael nunca havia contado em casa.
Durante meses, ele reclamara do preço das fraldas.
Questionara cada compra do supermercado.
Perguntara por que eu precisava de um novo sutiã de amamentação quando “o antigo ainda servia”.
Uma vez, recusara-se a contratar ajuda doméstica duas vezes por semana porque, segundo ele, “não fazia sentido jogar dinheiro fora em algo que eu mesma podia fazer”.
Enquanto isso, havia refeições caras, hotéis e viagens que eu jamais soubera que existiam.
Senti uma mistura estranha de raiva e vergonha.
Não porque eu tivesse feito algo errado.
Mas porque comecei a lembrar de todas as vezes em que pedi desculpas por gastar dinheiro que também era meu.
“Quanto?”, perguntei.
Rafael franziu a testa.
“Quanto o quê?”
“Quanto dinheiro você gastou sem me contar?”
“Isso não tem nada a ver com você.”
A frase saiu de sua boca quase automaticamente.
Helena fechou os olhos por um instante.
O advogado, porém, ficou imóvel.
Eu também.
Talvez Rafael tenha percebido tarde demais o que acabara de dizer.
“Não tem nada a ver comigo?”
Minha voz estava calma.
Isso pareceu deixá-lo mais desconfortável do que se eu tivesse gritado.
“Você passa meses dizendo que eu não tenho dinheiro porque não recebo salário. Controla quanto eu gasto. Me diz que não mereço férias. E agora existem milhares de reais circulando sem que eu saiba, mas isso não tem nada a ver comigo?”
“Você está distorcendo tudo.”
“Estou?”
Um dos bebês começou a resmungar no outro cômodo.
Levantei-me.
Rafael fez um gesto impaciente.
“Vai começar isso agora?”
Parei.
“Isso o quê?”
“Os bebês. Toda vez que precisamos conversar, um deles chora e você desaparece.”
Olhei para ele sem acreditar.
“Eles têm seis meses.”
“Eu sei quantos meses meus filhos têm.”
“Então talvez você pudesse agir como pai deles.”
Rafael desviou o olhar.
Fui até a sala, peguei nosso filho e voltei com ele nos braços.
Quando retornei, o advogado estava guardando os papéis.
“Por que está fechando tudo?”, perguntou Rafael.
“Porque esta conversa terminou por hoje.”
Rafael soltou uma risada nervosa.
“Ótimo.”
“Não disse que o problema terminou.”
O advogado entregou a Rafael uma folha.
“Até que a origem das despesas seja esclarecida, minha cliente foi orientada a documentar qualquer movimentação incomum nas contas conjuntas. Também recomendamos que nenhuma quantia relevante seja transferida sem registro.”
Rafael olhou para mim.
“Você vai congelar meu dinheiro?”
“Nosso dinheiro”, corrigi.
Seu rosto endureceu.
“Você não sabe administrar nada disso.”
Aquilo quase me fez rir.
Antes de abandonar minha carreira, eu administrava minha própria renda, meus investimentos e minhas economias.
Eu havia colocado quase quatrocentos mil reais naquela casa.
Mas seis meses dependendo financeiramente dele tinham sido suficientes para Rafael começar a agir como se eu nunca tivesse existido antes do casamento.
O celular do advogado vibrou.
Ele olhou a tela.
Sua expressão mudou.
“É Marcelo.”
Rafael avançou um passo.
“Não atenda.”
O advogado levantou os olhos.
“Por quê?”
“Porque ele está mentindo.”
“Então ouvir o que ele tem a dizer não deveria preocupar o senhor.”
O advogado atendeu e colocou no viva-voz.
“Marcelo?”
Do outro lado, ouvi uma respiração pesada.
Depois uma voz masculina conhecida.
“Rafael está aí?”
Ninguém respondeu.
Marcelo entendeu.
“Então escutem com atenção. Eu não posso falar por muito tempo.”
Rafael balançou a cabeça.
“Desliga isso.”
Marcelo continuou.
“Eu denunciei o cartão porque descobri as despesas. Mas essa não é a razão pela qual estou tentando falar com vocês.”
Meu coração começou a bater mais rápido.
“Então qual é?”, perguntei.
Houve uma pausa.
“Na última noite da viagem, Rafael descobriu que a auditoria já tinha começado.”
Olhei para meu marido.
Ele ficou completamente imóvel.
Marcelo respirou fundo.
“E depois disso ele me pediu uma coisa.”
“Não”, Rafael murmurou.
A voz de Marcelo ficou mais baixa.
“Ele queria que eu alterasse a descrição de algumas despesas antigas antes que os auditores acessassem o arquivo definitivo.”
Helena levou a mão à boca.
Rafael explodiu.
“MENTIRA!”
Nosso filho se assustou em meus braços.
O advogado imediatamente tirou o telefone do viva-voz.
Mas eu já tinha ouvido o suficiente.
Rafael não estava apenas preocupado com uma viagem paga indevidamente.
Ele estava com medo do que aquela auditoria poderia encontrar.
E, pela primeira vez, comecei a me perguntar quantas das decisões financeiras que ele havia tomado em nosso casamento realmente tinham sido feitas apenas por ele.
Antes de encerrar a ligação, o advogado ouviu Marcelo por mais alguns segundos.
Então seu rosto ficou sério.
Muito sério.
“Entendi”, respondeu.
Ele desligou.
“Que foi?”, perguntei.
Rafael já parecia saber.
O advogado olhou diretamente para mim.
“Marcelo disse que há uma conta que precisamos verificar imediatamente.”
Meu estômago apertou.
“Que conta?”
Ele fez uma breve pausa.
“A conta conjunta que você e Rafael abriram quando começaram os tratamentos de fertilidade.”
Rafael fechou os olhos.
E naquele instante eu soube que aquilo não tinha absolutamente nada a ver com uma simples viagem à praia.
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







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