“Que noite?”, perguntei novamente.
Rafael olhou para a mensagem de Marcelo e depois para mim.
“Não foi nada.”
Eu quase não acreditei.
“Marcelo acabou de dizer que você precisa contar o que aconteceu.”
“Marcelo está tentando me colocar contra a parede.”
O advogado apontou para o telefone corporativo.
“Então amanhã o senhor poderá esclarecer tudo durante a investigação.”
Rafael ficou inquieto.
“Preciso pegar meu computador.”
Ele começou a andar em direção ao corredor.
“Rafael”, disse o advogado, “eu não aconselharia apagar, alterar ou transferir absolutamente nada desses aparelhos.”
Ele parou.
“Você está me acusando de destruir provas?”
“Estou dizendo que sua empresa acabou de exigir a entrega dos dispositivos corporativos. Qualquer alteração feita agora poderá ser registrada.”
Pela primeira vez, Rafael pareceu realmente compreender que aquela situação havia saído completamente de seu controle.
Eu coloquei uma das bebês no moisés.
“Agora me diga o que aconteceu naquela noite.”
Ele passou alguns segundos olhando para o chão.
“Você está pensando besteira por causa daquele recibo de hotel.”
“Então não havia outra mulher?”
Seu rosto se contraiu.
“Não.”
“Você mentiu dizendo que estava viajando a trabalho.”
“Porque eu estava resolvendo um problema do trabalho.”
“A quarenta minutos da nossa casa?”
Ele respirou fundo.
“Marcelo estava lá.”
A informação me surpreendeu.
“O quê?”
“Marcelo estava no hotel.”
O advogado se inclinou para a frente.
“Mais alguém?”
Rafael demorou.
“Uma representante de um fornecedor.”
Olhei para o nome da empresa que havia recebido os trinta e dois mil reais de nossa conta.
“Daquele fornecedor?”
Ele assentiu.
Minha mãe se sentou novamente.
“Então explique.”
Rafael apoiou as mãos no balcão.
“Meses antes, eu tinha aprovado algumas despesas que não deveriam ter passado daquele jeito.”
“Despesas pessoais?”, perguntou o advogado.
“Algumas.”
“Suas?”
Silêncio.
“Rafael?”
“Sim.”
Meu estômago apertou.
Ele continuou.
“No começo eram valores pequenos. Almoços. Transporte. Algumas hospedagens. Eu pretendia acertar depois.”
“Mas não acertou”, falei.
“Eu achei que conseguiria compensar.”
“Com o dinheiro da nossa família?”
“Eu entrei em pânico.”
Aquela foi a primeira frase daquela tarde que pareceu minimamente sincera.
Rafael passou as mãos pelo rosto.
“Quando percebi que algumas despesas poderiam ser revisadas, procurei o fornecedor. Eu precisava que certas cobranças fossem reclassificadas.”
O advogado ficou sério.
“Reclassificadas como quê?”
“Serviços.”
“Serviços que realmente foram prestados?”
Rafael não respondeu.
Minha mãe soltou o ar lentamente.
“Meu Deus.”
“Eu não roubei milhões!”, Rafael disparou. “Vocês estão agindo como se eu fosse algum criminoso.”
“Não estamos falando de milhões”, respondi. “Estamos falando de dinheiro que você escondia enquanto dizia que eu não podia gastar nada.”
Ele ignorou.
“O fornecedor aceitou corrigir alguns documentos. Mas depois houve uma diferença que precisava ser coberta.”
Olhei novamente para a transferência.
“Trinta e dois mil.”
Rafael assentiu.
“Foi por isso que você tirou esse valor da conta dos tratamentos?”
“Eu precisava resolver rápido.”
“Você roubou a reserva dos seus próprios filhos para esconder problemas no trabalho.”
“Eu ia devolver!”
Sua voz ecoou pela cozinha.
Dessa vez, nenhum bebê chorou.
Talvez porque Helena já estivesse embalando um deles no colo e eu segurasse outro contra o peito.
Olhei para Rafael.
“E o hotel?”
Ele fechou os olhos por um instante.
“Foi onde nos encontramos para acertar os documentos.”
“Você, Marcelo e a representante?”
“Sim.”
“Então por que Marcelo está falando daquela noite como se tivesse acontecido algo muito pior?”
Rafael não respondeu.
Seu telefone vibrou novamente.
Dessa vez ele nem tentou pegá-lo.
O advogado olhou para mim.
“Se Marcelo tem informações relevantes, talvez seja melhor falar diretamente com ele.”
Rafael ergueu a cabeça.
“Não.”
A velocidade daquela resposta fez todos nós olharmos para ele.
“Por que não?”
“Porque ele vai distorcer tudo.”
“Então conte antes dele.”
Rafael ficou em silêncio.
Peguei meu próprio celular.
Eu ainda tinha o número de Marcelo salvo desde o nascimento dos trigêmeos.
Liguei.
Rafael avançou um passo.
“Não faça isso.”
Helena ficou entre nós novamente.
Marcelo atendeu no terceiro toque.
“Alô?”
“Marcelo, sou eu.”
Houve silêncio do outro lado.
“Ele está aí?”
“Está.”
Ouvi Marcelo respirar fundo.
“Então eu acho que chegou a hora.”
Rafael fechou os olhos.
“Marcelo, não.”
A voz do outro lado ficou firme.
“Você já teve meses para contar a verdade.”
Olhei para Rafael.
“Que verdade?”
Marcelo demorou alguns segundos.
“Naquela noite do hotel, Rafael queria que eu confirmasse uma versão falsa das despesas.”
“Isso ele já contou.”
“Ele contou que queria reclassificar alguns gastos?”
“Sim.”
“Então não contou tudo.”
Senti um arrepio.
“O que falta?”
“Um dos documentos precisava da aprovação de outra pessoa.”
O advogado pegou uma caneta.
“Quem?”
Marcelo respondeu:
“Rafael usou o acesso de um colega para aprovar uma despesa que o próprio Rafael não poderia autorizar.”
Rafael começou a andar pela cozinha.
“Isso é mentira.”
Marcelo continuou.
“Quando eu percebi, disse que não participaria.”
“Você participou de tudo!”, Rafael gritou.
“Eu participei da reunião. Não usei a senha de ninguém.”
O advogado interrompeu.
“Você tem prova disso?”
“Tenho.”
Rafael parou.
Marcelo falou mais baixo.
“Eu tirei fotos da tela naquela noite porque percebi que alguma coisa estava errada.”
Meu coração acelerou.
“E foi por isso que você denunciou?”
“Não imediatamente.”
“Por quê?”
Houve uma pausa longa demais.
“Porque Rafael me pediu vinte e quatro horas para corrigir tudo sozinho.”
Olhei para meu marido.
“E você acreditou nele?”
“Eu queria acreditar.”
“Então o que mudou?”
A voz de Marcelo ficou pesada.
“Na manhã seguinte, descobri que ele não estava corrigindo nada.”
Rafael balançou a cabeça.
“Marcelo…”
“Ele estava tentando fazer parecer que a autorização tinha sido feita por outra pessoa.”
O advogado ficou imóvel.
“De quem era o acesso?”
Marcelo disse o nome.
Eu nunca tinha ouvido falar daquela pessoa.
Mas Rafael sim.
Seu rosto perdeu ainda mais a cor.
“É o gerente financeiro da divisão”, explicou Marcelo. “E ele já está sendo chamado para prestar esclarecimentos.”
Rafael se sentou lentamente.
Eu achei que aquela fosse a pior parte.
Não era.
Marcelo continuou.
“Existe outra coisa que você precisa saber.”
“Sobre Rafael?”
“Sobre os trinta e dois mil reais.”
Olhei para a transferência aberta no meu celular.
“O que tem?”
“Esse não foi o primeiro pagamento particular feito para aquele fornecedor.”
Meu peito apertou.
“Existem outros?”
“Sim.”
“Quanto?”
Marcelo hesitou.
“Eu ainda não sei o total.”
“De onde saiu o dinheiro?”
“É exatamente isso que vocês precisam descobrir.”
Rafael levantou a cabeça.
“Chega.”
Marcelo ignorou.
“Verifiquem não apenas a conta dos tratamentos.”
Olhei para o advogado.
“Então qual?”
A resposta veio imediatamente.
“A linha de crédito vinculada à casa.”
Fiquei completamente imóvel.
“Nós não temos uma linha de crédito vinculada à casa.”
Do outro lado da cozinha, Rafael fechou os olhos.
E naquele instante percebi que ele sabia perfeitamente do que Marcelo estava falando.
**Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.**







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