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Minha Sobrinha Foi Expulsa De Casa Com O Bebê Nos Braços — Mas A Mensagem Do Marido Revelou Um Plano Que Começou Anos Antes

Na manhã seguinte, Mariana acordou antes das seis.

Eu soube porque estava sentado numa poltrona perto da janela do quarto, tomando café frio e revisando pela terceira vez as fotografias que dona Sônia havia enviado durante a madrugada. Sacos de lixo no meio-fio. Uma caixa de fraldas aberta pela chuva fina. O retrato dos pais de Mariana virado para baixo. Duas malas. Um moisés desmontado. E, numa das imagens, quase fora do enquadramento, um homem usando jaqueta preta segurava uma pasta azul.

Eu ampliei a foto.

Não reconheci o rosto.

Mariana se mexeu na cama.

— O senhor dormiu?

— O suficiente.

Ela olhou para Miguel, que ainda dormia enrolado na manta azul que eu levara para conhecê-lo no hospital.

— Eu não dormi.

Sentei-me ao lado da cama.


— Pensando nos vídeos?

Ela assentiu.

— Diego gostava de me filmar.

Aquilo chamou minha atenção.

— Como assim?

— No começo parecia brincadeira. Quando eu estava cansada, quando derrubava alguma coisa, quando esquecia onde tinha colocado as chaves. Ele dizia que era engraçado.

— E depois?

Mariana passou a mão pelo cabelo.

— Depois ele começou a filmar quando discutíamos.

— Só quando você estava alterada?


Ela me encarou.

— Eu nunca tinha pensado nisso dessa maneira.

Não precisei perguntar mais.

Pouco depois das oito, Almeida chegou acompanhado de uma advogada de família chamada Renata Pires, colega dele havia muitos anos. Ela não tentou tranquilizar Mariana com frases vazias. Apenas se sentou, abriu um bloco e começou a perguntar.

— Diego já chamou ambulância por causa de você?

— Não.

— Já levou você a algum psiquiatra?

— Não.

— Já disse a terceiros que você era instável?

Mariana ficou alguns segundos em silêncio.


— À irmã dele.

— Nome?

— Paula.

— Mais alguém?

— Talvez no trabalho.

Renata fez outra anotação.

— Precisamos descobrir se existe relatório médico.

Mariana ergueu os olhos.

— Mas como poderia existir? Eu nunca fui examinada por nenhum médico por causa disso.

Almeida colocou uma folha sobre a mesa.


— Ontem à noite pedi uma busca documental relacionada à tentativa de transferência do imóvel. O cartório anexou cópia de um documento complementar apresentado junto com o pedido.

Meu corpo ficou rígido.

— O documento do médico.

— Provavelmente.

Almeida virou a folha.

No topo havia o nome de uma clínica particular de São Paulo.

**Instituto Horizonte de Saúde Integrada.**

Abaixo, um parecer com data de onze dias antes do parto.

Segundo o texto, Mariana apresentava “episódios de desorganização emocional, comportamento impulsivo, confusão recorrente e dificuldade de julgamento”, condições que supostamente poderiam comprometer “decisões patrimoniais e cuidados maternos sem supervisão”.

Mariana leu duas vezes.


Depois empurrou a folha para longe.

— Eu nunca estive nessa clínica.

Renata apontou para a assinatura no final.

— Conhece este médico?

Mariana balançou a cabeça.

O nome era doutor Sérgio Valença.

Eu memorizei.

— Isso é falso? — perguntei.

Almeida respondeu com cautela.

— Ainda não sabemos se a assinatura do médico é autêntica, se o relatório foi fabricado ou se alguém forneceu informações falsas para que ele o emitisse. Mas há algo pior.


Ele puxou outra página.

Era uma ficha de atendimento.

Paciente: Mariana Ribeiro Lopes.

Data de nascimento correta.

CPF correto.

Endereço correto.

Contato de emergência: Diego Ferraz.

No campo “acompanhante”, também Diego.

Mariana ficou imóvel.

— Eu nunca fui lá.


Renata perguntou:

— Você já deu sua carteira de identidade e cartão do convênio para Diego?

— Claro. Somos casados.

Ou éramos.

Ela não disse isso, mas todos pensamos.

Renata fechou o bloco.

— Então alguém pode ter criado um atendimento em seu nome.

Meu telefone vibrou.

Era dona Sônia.

Ela havia encontrado algo entre os objetos de Mariana que ainda estavam sob a marquise do prédio.


Uma caixa pequena.

Dentro dela havia três cartelas de comprimidos sem embalagem externa.

Almeida e Renata vieram comigo.

Mariana permaneceu no hotel com Miguel e uma funcionária de confiança indicada por Renata. Antes de eu sair, ela segurou meu pulso.

— Não confronte Diego.

Olhei para ela.

— Não vou.

— Promete?

— Prometo.

Dessa vez eu pretendia cumprir.


Quando chegamos ao prédio, dona Sônia nos esperava na portaria. Tinha pouco mais de sessenta anos, cabelos curtos e uma indignação que mal cabia nela.

— Eu devia ter chamado a polícia naquela hora — disse.

— A senhora ajudou Mariana quando ninguém mais ajudou.

Ela me conduziu até as caixas.

Os comprimidos estavam misturados entre itens de higiene e vitaminas pré-natais.

Renata fotografou tudo sem tocar.

Almeida chamou a polícia para recolhimento adequado.

Enquanto esperávamos, perguntei sobre o homem da pasta azul.

Sônia reconheceu a fotografia.

— Esse não era chaveiro.


— Quem era?

— Não sei. Mas ele chegou no carro da dona Lídia.

— E os dois homens que trocaram as fechaduras?

— Um era chaveiro. O outro ficou carregando as coisas.

Ela pensou por um momento.

— Aquele da pasta entrou no apartamento e ficou quase uma hora lá dentro.

— Sozinho?

— Com dona Lídia.

Então Sônia se lembrou de outra coisa.

— Diego apareceu à noite no dia anterior.

— Mariana já estava no hospital.

— Sim.

— Quanto tempo ele ficou?

— Talvez quarenta minutos.

Almeida olhou para mim.

A cronologia começou a se encaixar.

Diego levara Mariana para dar à luz.

Depois retornara sozinho ao apartamento.

No dia seguinte, Lídia aparecera com homens, documentos e um plano já preparado.

Quando a polícia terminou de recolher os medicamentos, voltamos ao hotel.

Encontramos Mariana sentada junto à janela, amamentando Miguel.

Contei tudo sem esconder.

Ela ouviu em silêncio.

Quando mencionei que Diego estivera no apartamento na noite anterior à expulsão, seu rosto mudou.

— Tio...

— O quê?

— Naquela noite ele voltou ao hospital depois da meia-noite.

— E?

— Trouxe meu carregador, uma bolsa e uma garrafa de água.

Ela engoliu em seco.

— Disse que eu precisava descansar e me deu um comprimido.

Renata se inclinou para frente.

— Você tomou?

— Tomei.

— O que aconteceu depois?

Mariana apertou Miguel contra o peito.

— Eu dormi quase doze horas. As enfermeiras tiveram dificuldade para me acordar.

O silêncio no quarto ficou pesado.

Então o celular de Mariana vibrou sobre a mesa.

Uma mensagem de número desconhecido.

Ela abriu.

Havia apenas uma fotografia.

Era Mariana numa cama de hospital, olhos semicerrados, cabelo desarrumado, tentando segurar Miguel enquanto uma enfermeira estendia os braços para receber o bebê.

Abaixo, uma frase:

**“Você deveria ter aceitado ficar longe dele.”**

Renata pegou o telefone.

Eu olhei para Mariana.

E naquele instante entendemos exatamente que tipo de vídeos Diego pretendia apresentar.

Ele não estava apenas filmando os piores momentos dela.

Talvez estivesse criando esses momentos primeiro.

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