Fiquei olhando para a fotografia por vários segundos, tentando separar a mulher traída da oficial que havia sido treinada para analisar informações sem permitir que emoções contaminassem uma avaliação.
Rafael estava sentado em uma mesa de canto de um restaurante em Brasília.
Eu reconheci imediatamente a camisa azul-marinho que ele costumava usar quando dizia que precisava ficar até mais tarde na concessionária.
À sua frente estava Viktor Sokolov, representante comercial de uma empresa estrangeira que fornecia componentes eletrônicos para sistemas de defesa.
Eu conhecia aquele rosto.
Na semana anterior, durante a preparação para assumir meu novo comando, eu havia lido três relatórios sobre ele.
— Quando essa fotografia foi tirada? — perguntei.
O general Almeida fechou a porta da sala antes de responder.
— Há doze dias.
Doze dias.
Naquela noite, Rafael tinha chegado em casa quase às duas da manhã.
Dissera que um cliente importante havia aparecido pouco antes do fechamento da concessionária.
Lembrei-me de Helena reclamando porque o jantar tinha esfriado.
Lembrei-me de Rafael beijando minha testa e dizendo que estava exausto.
Tudo aquilo agora parecia uma encenação.
— Por que ele estava sendo monitorado? — perguntei.
— Não estava.
Almeida apontou para Sokolov.
— O alvo era o homem sentado com ele. Seu marido apareceu durante a vigilância.
Senti o sangue pulsar nas pequenas feridas do meu couro cabeludo.
— O que eles trocaram?
— Ainda não sabemos.
— Houve outros encontros?
O general hesitou.
Essa hesitação me respondeu antes mesmo das palavras.
— Pelo menos três que conseguimos confirmar.
Virei a fotografia.
No verso havia datas e horários.
Todos coincidiam com noites em que Rafael dizia estar trabalhando.
Uma delas, porém, chamou minha atenção.
Era a noite da cerimônia interna em que eu havia recebido a confirmação preliminar de que seria promovida.
Naquela ocasião, eu ainda não podia contar a ninguém fora de um círculo extremamente restrito.
Mas contei a Rafael.
Era meu marido.
Ou pelo menos eu ainda acreditava que fosse.
— Quem sabia da minha nomeação naquela data?
Almeida me encarou.
— Oficialmente, menos de dez pessoas.
— E Rafael soube por mim.
O silêncio ficou pesado.
A partir daquele momento, aquilo deixou de ser apenas uma traição conjugal.
— Senhor, preciso me afastar da investigação.
— Concordo.
A resposta veio sem hesitação.
— Qualquer informação envolvendo seu marido será tratada por outra equipe. A senhora não terá acesso operacional ao caso enquanto houver possibilidade de conflito de interesse.
Assenti.
Era exatamente o procedimento que eu teria exigido se estivesse sentada do outro lado daquela mesa.
Mesmo assim, doeu.
Eu havia trabalhado vinte e dois anos para assumir aquele comando.
No primeiro dia, antes mesmo de ocupar oficialmente minha sala, meu próprio marido aparecia dentro de uma investigação de contrainteligência.
— Minha promoção está comprometida? — perguntei.
Almeida apoiou as mãos sobre a pasta.
— Sua carreira não será julgada pelos crimes que outra pessoa possa ter cometido sem seu conhecimento.
Ele fez uma pausa.
— Mas precisamos determinar se Rafael teve acesso a qualquer material restrito por meio da senhora.
Pensei imediatamente em casa.
No meu escritório.
Nos meus hábitos.
Eu nunca levava documentos classificados para a residência.
Essa regra era absoluta.
Mas havia agendas, convites, nomes de colegas, horários de reuniões e conversas aparentemente banais.
Informações isoladas podiam parecer inúteis.
Juntas, podiam formar um mapa.
— Ele usava meu computador pessoal às vezes — admiti.
— Senha compartilhada?
— Não.
— Seu celular?
— Nunca autorizado.
Então me lembrei de algo.
Meu estômago gelou.
— Há cerca de dois meses, meu telefone desapareceu durante quase uma hora.
Almeida ficou imóvel.
— Explique.
— Eu estava em casa. Deixei o aparelho carregando na cozinha. Quando fui buscar, tinha sumido. Rafael disse que Helena provavelmente havia mudado de lugar. Depois ele apareceu em cima da cômoda do quarto.
— A senhora verificou atividade?
— Na época, não.
Pela primeira vez naquela manhã, senti vergonha.
Não por ter sido enganada.
Por não ter percebido.
Eu analisava ameaças profissionais todos os dias, mas dentro da minha própria casa havia interpretado sinais como simples problemas familiares.
Almeida pareceu compreender o que eu estava pensando.
— Coronel, pessoas próximas têm acesso que nenhum adversário externo consegue comprar facilmente. É exatamente por isso que esse tipo de situação funciona.
Às nove e cinco, entreguei meu celular antigo, meu notebook pessoal e uma lista completa dos dispositivos existentes na residência para análise técnica.
Pouco depois, uma investigadora da Polícia Civil chamada Camila Nogueira entrou na sala.
Ela colocou sobre a mesa uma cópia do contrato de refinanciamento.
— Encontramos algo interessante — disse.
Apontou para o reconhecimento digital da assinatura.
— O procedimento foi iniciado com documentos enviados de um endereço eletrônico criado há quatro meses.
— Em nome de quem?
— Seu.
Nunca tive aquele endereço.
Camila deslizou outra folha na minha direção.
O e-mail usava meu nome completo, minha data de nascimento e uma combinação de números que parecia profissional.
— Rafael criou isso?
— Ainda não podemos afirmar. Mas os acessos mais recentes vieram de um endereço de internet associado à sua residência.
Helena estava dentro daquela casa praticamente todos os dias.
Rafael também.
Qualquer um dos dois podia ter feito aquilo.
Ou ambos.
— E a mulher da casa em Goiânia?
Camila abriu outra pasta.
— Patrícia Menezes. Trinta e quatro anos. Trabalha como corretora de imóveis.
Meu peito apertou.
— Qual é a relação dela com Rafael?
— Estamos verificando.
Ela respirou antes de continuar.
— Mas o imóvel foi comprado oito dias depois da liberação do empréstimo.
— Com quanto?
— Cerca de setecentos e vinte mil reais pagos à vista.
Quase todo o dinheiro roubado de mim.
— E o restante?
— Parte foi transferida para duas empresas. Ainda estamos seguindo o caminho.
O telefone da investigadora vibrou.
Ela olhou para a tela e levantou os olhos.
— Seu marido está tentando entrar no quartel-general.
Eu me levantei.
— Como?
— Chegou ao portão principal dizendo que precisa falar urgentemente com a esposa.
Almeida chamou a segurança.
— Ele não entra.
Minutos depois, Rafael começou a enviar mensagens.
Primeiro vieram as acusações.
“Você enlouqueceu.”
Depois as ameaças disfarçadas.
“Se continuar fazendo isso, vai destruir nossa família.”
Então:
“Minha mãe está passando mal por sua culpa.”
Não respondi.
A última mensagem foi diferente.
“Precisamos conversar antes que você cometa um erro que não pode desfazer.”
Mostrei a Camila.
Ela fotografou a tela.
— Não responda ainda.
Às nove e quarenta e três, Helena também tentou ligar.
Quando percebeu que eu não atenderia, enviou um áudio.
Camila colocou o telefone sobre a mesa e apertou o play.
A voz da minha sogra saiu alta e indignada.
— Você acha que pode cortar nosso dinheiro e simplesmente desaparecer? Rafael é seu marido. Tudo que é seu também pertence a ele. Volte para casa, peça desculpas e talvez ainda possamos resolver isso sem envolver gente de fora.
Camila interrompeu o áudio.
— “Sem envolver gente de fora” é uma escolha interessante de palavras.
Eu também tinha percebido.
Mas antes que pudéssemos continuar, um capitão da equipe técnica apareceu à porta.
Seu rosto estava sério.
— General, precisamos conversar.
Almeida permitiu que ele entrasse.
O capitão colocou meu notebook pessoal sobre a mesa dentro de uma embalagem de evidências.
— Encontramos um programa de acesso remoto instalado há aproximadamente sete meses.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Alguém conseguia ver meus arquivos?
— Potencialmente, sim.
— E controlar a máquina?
— Sim.
— De onde?
Ele abriu um relatório preliminar.
— Ainda estamos rastreando todos os acessos, mas há registros frequentes originados da rede da residência da senhora.
Rafael.
Helena.
Talvez ambos.
Eu fechei os olhos por apenas um segundo.
Então fiz a pergunta que realmente importava.
— Alguma informação militar protegida foi comprometida?
— Até agora, não encontramos documentos classificados no equipamento.
Soltei o ar lentamente.
— Mas há outra coisa — continuou o capitão.
Almeida levantou a cabeça.
— O quê?
— Alguém usou esse acesso remoto para procurar repetidamente informações sobre a agenda da coronel.
Minha agenda.
Meus horários.
Meus deslocamentos.
Meus compromissos.
— Que tipo de pesquisa? — perguntei.
O capitão virou o computador para nós.
Na tela estava uma lista de termos registrados pelo programa.
“reunião comando”
“viagem oficial”
“promoção coronel”
“unidade inteligência”
E então uma busca feita apenas três dias antes.
“primeiro dia novo comando horário saída”
A sala ficou completamente silenciosa.
Eu havia passado a madrugada acreditando que Helena tinha raspado meu cabelo para me humilhar.
Agora comecei a considerar outra possibilidade.
Talvez aquela agressão não tivesse acontecido apenas porque eles queriam me obrigar a abandonar minha carreira.
Talvez alguém estivesse desesperado para impedir que eu chegasse justamente ao cargo que poderia colocar Rafael sob investigação.
E, naquele momento, pela primeira vez, percebi que minha promoção talvez não tivesse provocado o ataque.
Talvez tivesse provocado pânico.
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