A possibilidade mudou tudo.
Até aquele momento, eu enxergava a agressão daquela madrugada como o ápice de anos de desprezo, controle financeiro e ressentimento contra minha carreira.
Agora havia uma segunda hipótese.
Rafael talvez não quisesse apenas que eu deixasse o Exército.
Talvez precisasse que eu não assumisse aquele comando.
— Quero uma linha do tempo completa — disse o general Almeida.
O capitão da equipe técnica assentiu.
— Já estamos montando.
— Incluam todos os acessos ao computador, pesquisas, contatos conhecidos de Rafael e qualquer coincidência com reuniões da coronel.
Olhei para Almeida.
— Senhor, se eles monitoravam minha agenda há sete meses, então isso começou muito antes de confirmarem minha promoção.
— Exatamente.
Ele fechou a pasta.
— Por isso ninguém vai tirar conclusões antes de termos provas.
A investigadora Camila recebeu uma ligação e se afastou alguns passos.
Enquanto ela falava, pensei nos últimos meses.
Rafael perguntando casualmente a que horas eu voltaria.
Helena querendo saber em quais dias eu viajaria.
As duas vezes em que cheguei em casa e encontrei a porta do meu escritório entreaberta.
As reclamações de Rafael sempre que eu mudava uma senha.
Na época, tudo parecia parte do mesmo conflito doméstico.
Agora cada lembrança adquiria outro peso.
Camila encerrou a chamada.
— A instituição financeira bloqueou qualquer nova movimentação relacionada ao refinanciamento.
— E a casa?
— O jurídico pediu medida urgente para impedir venda ou nova transferência até a investigação avançar.
Pela primeira vez naquela manhã, senti uma pequena sensação de controle retornando.
— E Patrícia Menezes?
— Encontramos mais informações.
Ela colocou o celular sobre a mesa.
— Patrícia conheceu Rafael há pelo menos dois anos.
Dois anos.
A palavra me atingiu com uma força que eu não esperava.
Eu havia me preparado mentalmente para descobrir uma amante.
Não para descobrir uma segunda vida construída enquanto eu sustentava a primeira.
— Eles aparecem juntos? — perguntei.
— Em fotografias públicas antigas, sim. Nada recente nas redes sociais.
Camila ampliou uma imagem.
Rafael estava sorrindo em um churrasco.
Ao lado dele, Patrícia.
No canto inferior havia a data.
Dezoito meses antes.
Naquela semana, eu estava em uma missão de cooperação internacional no exterior.
— Ele dizia quem ela era?
— Em algumas publicações antigas, aparecia como amiga de um grupo da concessionária.
Olhei para a imagem sem dizer nada.
Depois empurrei o telefone de volta.
— Isso pode esperar. O contato estrangeiro é mais importante.
Almeida me observou por alguns segundos.
Talvez esperasse ver a esposa ferida.
Mas eu já havia feito uma escolha.
Aquela parte da dor ficaria para depois.
Às dez e vinte, recebi autorização para ocupar temporariamente uma sala separada da área operacional da unidade.
Eu continuaria assumindo minhas funções administrativas de comando, mas ficaria formalmente afastada de qualquer decisão ligada ao caso Rafael.
Era constrangedor.
Também era correto.
Quando entrei na sala, encontrei sobre a mesa uma caixa pequena enviada pela segurança.
Dentro estavam meus objetos pessoais recolhidos do armário temporário que eu utilizara durante as semanas anteriores.
Um caderno.
Uma caneta.
Um carregador.
E uma fotografia minha com Rafael tirada seis anos antes.
Ficamos sorrindo diante do Lago Paranoá.
Por alguns segundos, observei aquela mulher.
Ela ainda acreditava que esforço, paciência e lealdade poderiam salvar qualquer casamento.
Guardei a fotografia numa gaveta.
Meu telefone tocou.
Era minha advogada.
— Tenho outra atualização.
— Pode falar.
— Rafael tentou entrar em contato com o banco diretamente.
— Para quê?
— Disse que você estava emocionalmente instável e que havia tomado decisões financeiras impulsivas depois de uma discussão familiar.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— Ele está tentando me declarar incapaz?
— Ainda não. Mas está construindo uma narrativa.
Minha advogada fez uma pausa.
— Também afirmou que você autorizou o refinanciamento verbalmente.
— Minha assinatura foi falsificada.
— Eu sei. E há perícia para isso. Mas quero que você documente qualquer mensagem em que ele questione sua estabilidade emocional.
Abri a conversa.
Já havia várias.
“Você não está pensando direito.”
“Todo mundo percebeu que sua promoção subiu à sua cabeça.”
“Você precisa de ajuda.”
Então chegou outra.
“Se o Exército descobrir como você está agindo, talvez repensem essa promoção.”
Meu maxilar se contraiu.
— Acabou de mandar mais uma.
Encaminhei para minha advogada e para Camila.
Poucos minutos depois, Rafael mudou de estratégia.
“Amor, por favor. Vamos conversar.”
Depois:
“Minha mãe exagerou. Eu sei.”
E então:
“Eu deveria ter impedido.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Ele estava começando a perceber que negar completamente a agressão talvez fosse impossível.
Mas ainda não assumia responsabilidade.
Não dizia que tinha participado.
Não dizia que sabia que Helena entraria no quarto com uma máquina de cortar cabelo.
Apenas admitia que “deveria ter impedido”.
Salvei tudo.
Às onze e quinze, Camila retornou.
— Conseguimos as imagens de uma câmera externa da sua rua.
Meu coração acelerou.
— Da noite passada?
— Sim.
Ela abriu o vídeo.
Às 23h47, Rafael apareceu saindo da garagem.
Entrou na caminhonete.
Saiu.
— Eu já estava dormindo nesse horário — falei.
O vídeo avançou.
Rafael voltou às 00h31.
Carregava uma sacola pequena.
Entrou em casa.
À 00h44, outra câmera registrou Helena chegando de carro.
— Ela disse que já estava em casa quando acordei — murmurei.
Camila assentiu.
— Então os dois mentiram sobre a sequência da noite.
À 1h03, Helena apareceu junto à janela lateral da residência.
Depois desapareceu do campo de visão.
— Que horas você acordou?
— Pouco depois das duas.
Camila anotou.
— Precisamos descobrir o que Rafael comprou.
A resposta veio mais rápido do que esperávamos.
Às onze e quarenta e dois, um investigador encontrou a nota fiscal vinculada ao cartão de Rafael.
Uma farmácia vinte e quatro horas.
Entre os itens comprados havia uma máquina de cortar cabelo.
Não consegui falar por alguns segundos.
Helena havia segurado a máquina.
Mas Rafael a havia comprado naquela mesma noite.
Ele não tinha apenas acordado e encontrado o resultado.
Tinha preparado o instrumento.
— Isso muda bastante a investigação da agressão — disse Camila.
Olhei novamente para a nota.
00h02.
Enquanto eu dormia, meu marido havia saído de casa para comprar a máquina que seria usada contra mim.
A frase “Mãe, você não precisava ter cortado tanto” voltou à minha memória.
Na hora, parecera covardia.
Agora soava como participação.
Talvez ele esperasse que Helena apenas raspasse parte do meu cabelo.
Talvez quisesse me humilhar antes de uma manhã importante.
Talvez quisesse algo mais.
— Há câmeras dentro da farmácia? — perguntei.
— Já solicitamos.
Antes que Camila pudesse continuar, Almeida apareceu na porta.
Dessa vez ele estava acompanhado de dois oficiais da equipe de contrainteligência.
Um deles colocou uma pasta sobre a mesa.
— Recebemos o primeiro cruzamento dos acessos remotos ao notebook.
Abriu a pasta.
Havia horários, endereços digitais e datas.
— Em três ocasiões, alguém acessou seu computador poucos minutos depois de Rafael se encontrar com Sokolov.
Meu peito apertou.
— O que foi aberto?
— Principalmente agenda, e-mails pessoais e arquivos de rotina.
— Nada classificado?
— Nada classificado.
O oficial virou a página.
— Mas há um documento que chamou nossa atenção.
Era uma planilha pessoal que eu usava para organizar compromissos públicos, viagens institucionais e cerimônias.
Nada secreto.
Nada que violasse qualquer protocolo.
Mas ao lado de três datas havia nomes de oficiais superiores que participariam de reuniões comigo.
— Essa planilha foi copiada? — perguntei.
— Sim.
— Quando?
Ele apontou.
Duas horas antes de um dos encontros entre Rafael e Sokolov.
A sala ficou em silêncio.
Almeida falou primeiro.
— Isso ainda não prova que Rafael entregou informação alguma.
— Não — respondi.
— Mas prova que alguém dentro da sua casa estava coletando material relacionado ao seu trabalho.
Assenti.
Então o celular de Camila vibrou.
Ela leu a mensagem e sua expressão mudou.
— Encontraram Rafael.
— Onde?
— Ele saiu do portão do quartel e foi diretamente para um estacionamento de um shopping.
Ela virou a tela para nós.
— A equipe que o acompanhava acabou de enviar uma fotografia.
Olhei.
Rafael estava ao lado da caminhonete.
E diante dele estava Patrícia Menezes.
A mulher da casa em Goiânia.
Os dois discutiam.
Patrícia segurava uma pasta preta.
Na imagem seguinte, Rafael tentou arrancá-la das mãos dela.
Na terceira, Patrícia recuou.
Na quarta, abriu a pasta.
Mesmo através da fotografia, consegui ver documentos e um pequeno dispositivo eletrônico no interior.
Camila ampliou a imagem.
Meu coração começou a bater mais forte.
No canto de uma das folhas havia o símbolo de uma empresa que eu reconhecia imediatamente.
Era a empresa representada por Viktor Sokolov.
E naquele instante ficou claro que Patrícia talvez não fosse apenas a outra mulher na vida do meu marido.
Ela podia ser a primeira pessoa capaz de explicar o que Rafael realmente vinha fazendo.
Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.







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