Renata não desviou os olhos de mim.
Por alguns segundos, todo o resto desapareceu: os convidados, os agentes, Ricardo parado no palco, Lucas com o microfone ainda nas mãos.
Só existiam aquela mulher e eu.
Ela tinha o rosto marcado por linhas profundas e segurava a alça da bolsa com tanta força que os dedos estavam brancos.
Então caminhou até nós.
Ricardo foi o primeiro a reagir.
“Renata, não faça isso.”
A voz dele não tinha mais nada do homem confiante que, minutos antes, ria diante de quase trezentas pessoas.
Ela finalmente olhou para ele.
“Você perdeu o direito de me dizer o que fazer há dezoito anos.”
Um dos agentes da Polícia Federal ergueu a mão.
“Senhor Ricardo Almeida, permaneça onde está.”
Ricardo abriu os braços.
“Vocês estão transformando uma questão familiar em um espetáculo.”
Lucas soltou uma risada curta, amarga.
“Foi você quem pegou o microfone.”
Ricardo olhou para ele como se tivesse levado um tapa.
Renata parou diante de mim.
Eu queria fazer mil perguntas, mas nenhuma parecia conseguir atravessar minha garganta.
Foi ela quem falou primeiro.
“Eu precisava ver você pessoalmente.”
“Por quê?”
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
“Porque durante meses eu odiei você.”
Lucas prendeu a respiração.
Eu não recuei.
“Entendo.”
“Não, você não entende.”
Ela abriu a bolsa e retirou um envelope plástico transparente.
Dentro havia algumas fotografias antigas.
“Quando descobri que meu filho estava vivo, a primeira coisa que encontrei foi uma foto sua com ele.”
Ela me entregou uma das imagens.
Lucas devia ter uns seis anos. Estava sentado nos meus ombros durante uma festa da escola, segurando um troféu de plástico e sorrindo com dois dentes faltando.
Eu lembrava daquele dia.
Ricardo havia prometido comparecer e cancelara na última hora por causa de uma reunião.
Renata continuou.
“Eu olhei para aquela foto e pensei: essa mulher ficou com tudo o que era meu.”
Meus dedos começaram a tremer.
“Renata...”
“Depois encontrei outras.”
Ela colocou mais fotografias na minha mão.
Eu e Lucas em um hospital.
Eu e Lucas diante de um bolo de aniversário.
Eu ajoelhada ao lado dele, amarrando suas chuteiras.
“E percebi que você não roubou nada de mim.”
Sua voz falhou.
“Roubaram de nós duas.”
Lucas desceu do palco.
Quando chegou perto, Renata o encarou como se ainda tivesse medo de tocá-lo.
Ele foi quem deu o primeiro passo.
Abraçou-a.
Renata fechou os olhos e começou a chorar silenciosamente contra o ombro dele.
Eu virei o rosto.
Aquela cena deveria ter me causado ciúme.
Em vez disso, senti apenas uma dor impossível de explicar.
Dezoito anos.
Dezoito aniversários.
Dezoito Natais.
Dezoito anos durante os quais uma mãe acreditou que seu filho estava enterrado em algum lugar.
E eu passei todos aqueles anos acreditando que estava ajudando um viúvo a criar um bebê órfão.
Atrás de nós, Ricardo começou a discutir com os agentes.
“Eu quero meu advogado.”
“Terá direito a um”, respondeu um deles.
“Então não vou dizer mais nada.”
Renata se soltou lentamente de Lucas.
“Você já disse demais durante dezoito anos.”
Um dos agentes se aproximou de mim.
“Coronel Carvalho?”
Assenti.
“Precisamos conversar com a senhora em particular. Principalmente sobre o envelope enviado à sua residência.”
“Eu ainda não o abri.”
“Sabemos.”
Aquilo me fez franzir a testa.
“Como vocês sabem?”
Ele lançou um olhar rápido para Lucas.
Meu filho baixou os olhos.
Foi quando entendi.
“Você sabia do envelope.”
Lucas assentiu.
“Eu pedi para mandarem.”
Fiquei imóvel.
“Você colocou provas dentro da nossa casa sem me avisar?”
“Mãe, eu precisava que aquilo chegasse até você antes que o pai descobrisse.”
“Ricardo não é seu pai.”
A frase saiu de minha boca antes que eu pudesse impedir.
Lucas ficou pálido.
Meu peito apertou imediatamente.
“Desculpa.”
Ele balançou a cabeça.
“Não. Você tem razão.”
“Eu não quis dizer dessa forma.”
Ele olhou para Ricardo.
“Eu passei oito meses descobrindo quem ele realmente era. Ainda não sei como chamar aquele homem.”
Renata tocou o braço dele.
“Você não precisa decidir isso hoje.”
O agente tornou a falar.
“O material do envelope é apenas parte do que estamos investigando.”
Olhei para ele.
“Parte?”
Ricardo parou de discutir.
Foi quase imperceptível.
Mas eu vi.
Os ombros dele ficaram tensos.
O agente percebeu também.
“Há movimentações financeiras associadas a empresas ligadas ao senhor Almeida nos meses que antecederam o nascimento de Lucas.”
Renata apertou os lábios.
“O meu marido encontrou irregularidades.”
Olhei para ela.
“Seu marido?”
“Henrique Moreira.”
Lucas já havia mencionado que Ricardo usara o bebê para obrigá-lo a transferir imóveis.
Mas ouvir o nome tornou tudo mais real.
Renata respirou fundo.
“Henrique e Ricardo eram sócios. Henrique começou a perceber que dinheiro estava desaparecendo das empresas. Quando ameaçou procurar a polícia, eu estava grávida.”
Ricardo gritou do outro lado do palco.
“Cale a boca, Renata!”
O salão inteiro silenciou novamente.
O agente deu um passo na direção dele.
“Senhor Almeida.”
Ricardo apontou para Renata.
“Ela está mentindo.”
Renata sequer olhou para ele.
“Três semanas depois do nascimento de Lucas, Henrique assinou a transferência de quatro propriedades para Ricardo.”
“Por quê?”, perguntei.
Ela me encarou.
“Porque Ricardo disse que, se Henrique não assinasse, nós nunca descobriríamos onde nosso filho estava enterrado.”
Senti o estômago revirar.
“Então Henrique acreditava que Lucas estava morto também?”
“Sim.”
“E ele nunca tentou investigar?”
Renata fechou os olhos.
“Tentou.”
Aquela única palavra mudou o ar ao nosso redor.
“Por quase dois anos.”
“E depois?”
Ela demorou para responder.
Lucas apertou a mão dela.
Renata olhou para Ricardo.
“Depois Henrique morreu.”
Ninguém falou.
Eu senti algo frio correr pela minha coluna.
“Como?”
“Acidente de carro.”
Ricardo riu nervosamente.
“Vocês estão vendo? Agora vão tentar colocar uma morte nas minhas costas também?”
Renata virou-se para ele.
“Eu não disse que você matou Henrique.”
Ricardo fechou a boca.
O agente observou aquela reação com atenção.
Renata voltou a olhar para mim.
“Mas Henrique me deixou uma coisa antes de morrer.”
“Que coisa?”
“Um cofre.”
Ricardo empalideceu.
Dessa vez, não havia como esconder.
Renata continuou.
“Durante anos eu não soube a senha. Henrique nunca me contou porque dizia que, se algo acontecesse com ele, eu só deveria tentar abri-lo quando estivesse pronta para descobrir por que ele tinha tanto medo de Ricardo.”
Lucas olhou para ela.
“Você conseguiu abrir?”
“Há três semanas.”
Ricardo avançou um passo.
Os agentes imediatamente bloquearam seu caminho.
Renata colocou a mão dentro da bolsa mais uma vez.
Tirou uma pequena chave antiga.
“E foi dentro daquele cofre que encontrei algo que nenhum de nós esperava.”
Olhei para ela.
“O quê?”
Seus olhos voltaram para mim.
“Seu nome, Bianca.”
Meu coração pareceu parar.
“Meu nome?”
Ela assentiu lentamente.
“Henrique sabia quem você era antes mesmo de você conhecer Ricardo.”
Dessa vez, até Lucas ficou em silêncio.
Renata fechou os dedos em torno da chave.
“E existe uma razão para Ricardo ter escolhido justamente você para se tornar mãe de Lucas.”
Olhei para meu marido.
Ele já não parecia preocupado com os convidados.
Nem com a humilhação.
Nem mesmo com a prisão.
Ele estava olhando apenas para Renata.
E, pela primeira vez naquela noite, vi algo muito pior do que medo no rosto dele.
Vi pânico.
**Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.**







No comments yet