A cidade era Campinas.
Fiquei olhando para o nome na tela do agente como se aquelas letras pudessem confirmar tudo sozinhas.
Durante anos, Ricardo viajara para Campinas pelo menos duas ou três vezes por ano.
Nunca me convidava.
Nunca levava Lucas.
Sempre dizia que precisava resolver problemas com um investidor difícil.
“Quando foi a última viagem dele para lá?”, perguntou o agente.
Fechei os olhos por alguns segundos.
“Quatro meses atrás.”
Lucas me encarou.
“Ele ficou dois dias fora.”
Assenti.
“Disse que estava negociando a venda de um prédio comercial.”
O agente guardou o telefone.
“Vamos verificar todos os endereços ligados à conta.”
“Eu vou junto.”
“Bianca...”
“Não estou pedindo para participar de uma operação.”
Minha voz saiu mais firme do que eu sentia.
“Estou dizendo que, se encontrarem essa mulher, quero estar presente quando for possível.”
Ele me observou por alguns segundos.
“Vou informar a equipe.”
Aquela noite terminou sem que eu voltasse ao salão de formatura.
Nem teria conseguido.
Lucas permaneceu comigo.
Renata foi para um hotel próximo, apesar de eu ter oferecido o quarto de hóspedes.
“Hoje já foi demais para todos nós”, disse ela.
Entendi.
Antes de sair, aproximou-se de mim.
“Bianca.”
“Sim?”
Ela hesitou.
“Eu sei que Lucas é seu filho.”
A frase me atingiu de um jeito que eu não esperava.
“E também é seu.”
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
“Não sei como fazer isso.”
“Nem eu.”
Por alguns segundos, apenas ficamos ali.
Duas mulheres que haviam perdido dezoito anos para a mesma mentira.
“Então talvez a gente descubra juntas”, falei.
Renata assentiu.
Depois foi embora.
Naquela madrugada, não dormi.
Sentei-me no chão do meu escritório cercada por papéis antigos.
Pela primeira vez, revisei meu casamento como se fosse uma operação mal planejada que precisasse ser reconstruída minuto a minuto.
Datas.
Viagens.
Telefonemas.
Empresas.
Compras de imóveis.
Discussões que eu havia considerado comuns.
Cada memória parecia adquirir um significado diferente.
Às três e vinte da manhã, encontrei uma coisa.
Um comprovante de estacionamento de nove anos antes.
Campinas.
A data era exatamente dois dias depois da última retirada conhecida da conta ligada a Sônia.
Meu coração acelerou.
Ricardo havia dito naquela semana que estava em Brasília.
Fui até o quarto.
Lucas estava acordado, sentado na cama.
“Você também não conseguiu dormir?”
Ele balançou a cabeça.
Mostrei o comprovante.
Ele leu.
“Isso prova que ele esteve lá.”
“Prova que o carro dele esteve.”
“Era o carro que ele usava naquela época?”
“Sim.”
Lucas passou a mão pelo rosto.
“Mãe, eu fico pensando em quantas vezes ele sentou à mesa com a gente depois de fazer alguma coisa dessas.”
Eu me sentei ao lado dele.
“Eu também.”
“Você acha que ele alguma vez gostou de nós?”
A pergunta me doeu mais do que qualquer documento.
“De você, eu não sei da forma que um pai deveria gostar.”
Lucas baixou os olhos.
“E de você?”
Demorei para responder.
“Hoje eu não sei se Ricardo amava pessoas. Acho que ele amava o que cada pessoa podia fazer por ele.”
Lucas respirou fundo.
“Eu devia ter contado tudo quando descobri.”
“Por que não contou?”
“Porque eu queria ter certeza.”
Ele me encarou.
“E porque fiquei com medo de perder você.”
Segurei sua mão.
“Lucas, olhe para mim.”
Ele levantou os olhos.
“Nenhum exame, certidão ou mulher que entre por aquela porta muda quem eu sou para você.”
Sua boca tremeu.
“Você é minha mãe.”
“Então não temos mais nada para discutir.”
Ele me abraçou.
Dessa vez, fui eu quem precisou fechar os olhos para não chorar.
Na manhã seguinte, a Polícia Federal voltou.
O agente que estivera conosco na formatura colocou uma pasta sobre a mesa.
“Temos novidades.”
Renata chegou poucos minutos depois.
“Encontraram Sônia?”, perguntou antes mesmo de se sentar.
“Talvez.”
Meu estômago se contraiu.
Ele abriu a pasta.
“O endereço ligado à retirada bancária pertenceu a uma pequena pensão. A proprietária confirmou que uma mulher chamada Sônia morou lá por quase seis anos.”
“E depois?”, perguntei.
“Sumiu novamente.”
Lucas bateu a mão na mesa.
“Então estamos no mesmo lugar.”
“Não exatamente.”
O agente retirou uma fotografia recente.
Era a mulher do supermercado.
Mais velha.
Mas era ela.
“Essa imagem foi registrada por uma câmera de segurança há quatro meses.”
“Quatro meses?”, repeti.
“Na mesma semana em que Ricardo esteve em Campinas”, disse Lucas.
O agente assentiu.
Renata levou a mão à boca.
“Ela está viva.”
“Tudo indica que sim.”
“E Ricardo encontrou com ela?”
“Estamos tentando confirmar.”
Ele virou outra folha.
“Mas encontramos algo mais importante.”
Era um registro de ligação.
Ricardo havia feito três chamadas para um número pré-pago durante aquela viagem.
O telefone fora ativado usando documentos falsos.
“Isso não prova que era Sônia”, falei.
“Não.”
O agente virou a página.
“Mas o aparelho foi localizado ontem.”
Meu coração acelerou.
“Onde?”
“São Paulo.”
Lucas ficou rígido.
“O telefone dela está aqui?”
“Estava.”
“Estava?”
“Foi desligado poucas horas depois da prisão de Ricardo.”
Ninguém precisou explicar o que aquilo significava.
Alguém avisara Sônia.
Ou Sônia soubera da prisão.
Renata fechou os olhos.
“Ela vai fugir.”
“Talvez.”
Olhei para o agente.
“Ou talvez esteja com medo.”
Ele assentiu.
“Essa também é uma possibilidade.”
Foi então que meu celular vibrou sobre a mesa.
Número desconhecido.
Todos olharam para a tela.
Atendi no viva-voz.
“Alô?”
Silêncio.
Depois, uma respiração fraca.
“Coronel Bianca Carvalho?”
Reconheci aquela voz antes mesmo de saber de onde.
Velha.
Baixa.
A mesma mulher do supermercado.
Meu corpo inteiro gelou.
“Quem está falando?”
Mais alguns segundos.
Então ela respondeu:
“Meu nome é Sônia Ferreira.”
Renata começou a chorar sem perceber.
Lucas se levantou.
O agente fez sinal para que ninguém falasse.
“Sônia, onde a senhora está?”
“Não posso dizer.”
“Estamos tentando encontrar você.”
“Eu sei.”
Sua respiração ficou mais rápida.
“Ricardo sempre disse que, se eu contasse a verdade, ele destruiria todo mundo que eu amava.”
“Ricardo está detido.”
Uma risada nervosa veio do outro lado.
“Isso nunca impediu Ricardo de mandar outras pessoas fazerem o trabalho por ele.”
Olhei para o agente.
Ele começou imediatamente a escrever uma mensagem no telefone.
“Sônia, preciso que a senhora escute. Podemos protegê-la.”
“Não foi para isso que liguei.”
“Então por quê?”
Silêncio.
Depois ela disse:
“Porque ouvi o que aconteceu na formatura.”
Meu coração martelava.
“Eu precisava dizer à senhora que nunca falsifiquei a morte de Lucas.”
Renata ergueu a cabeça.
“Então quem fez?”
Sônia ouviu a voz dela.
“Renata?”
Renata aproximou-se do aparelho.
“Sou eu.”
Sônia começou a chorar.
“Me perdoe.”
Renata apertou os olhos.
“Diga quem fez aquilo.”
A mulher respirou profundamente.
“Ricardo me pagou para alterar o prontuário depois. Mas, quando cheguei ao plantão naquela noite, os documentos já tinham sido trocados.”
O agente parou de escrever.
“Por quem?”, perguntei.
Sônia hesitou.
“Por alguém que trabalhava com Ricardo.”
Meu peito apertou.
“Quem?”
“Eu só descobri anos depois.”
“Sônia, diga o nome.”
A voz dela tornou-se quase um sussurro.
“Henrique Moreira.”
Renata ficou completamente imóvel.
Lucas olhou para ela.
Eu senti o ar desaparecer dos meus pulmões.
“Isso é impossível”, Renata disse.
“Meu marido passou anos procurando nosso filho.”
Sônia chorava do outro lado.
“Eu sei.”
“Então por que ele faria isso?”
“Porque no começo Henrique fazia parte do plano.”
Renata cambaleou para trás.
Segurei seu braço.
Sônia continuou:
“Depois ele se arrependeu. E foi esse arrependimento que fez Ricardo começar a ter medo dele.”
A ligação caiu.
Ficamos todos olhando para o telefone.
A investigação acabara de mudar completamente.
Não porque Ricardo fosse menos culpado.
Mas porque agora sabíamos que o homem que deixara o cofre, as provas e os avisos talvez também tivesse ajudado a iniciar tudo aquilo.
E Renata acabara de descobrir que o marido que passou anos lamentando o filho desaparecido podia ter sido uma das primeiras pessoas a entregá-lo.
**Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.**







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