A verdadeira Sônia Ferreira.
O nome ficou ecoando na minha cabeça enquanto eu observava as portas pelas quais Ricardo havia desaparecido.
Dezessete anos desaparecida.
Uma testemunha capaz de explicar o que realmente acontecera no hospital quando Lucas nasceu.
E, de repente, lembrei-me do envelope amarelo.
“Quero abrir aquilo agora.”
Lucas ergueu os olhos.
“Mãe...”
“Agora.”
O agente da Polícia Federal assentiu.
“Vamos acompanhá-la.”
Menos de uma hora depois, estávamos diante da minha casa.
Eu havia entrado ali milhares de vezes durante dezoito anos, mas naquela noite tudo parecia pertencer à vida de outra pessoa.
As fotografias da família ainda estavam sobre os móveis.
Ricardo sorria em quase todas.
Passei por elas sem parar.
O envelope amarelo continuava exatamente onde eu o havia deixado, embaixo dos convites da formatura.
Coloquei-o sobre a mesa.
Renata permaneceu alguns passos atrás, enquanto Lucas se sentava ao meu lado.
Um dos agentes começou a registrar tudo.
Rompi o envelope.
Dentro havia dezenas de páginas.
Transferências bancárias.
Cópias de documentos de adoção.
Registros hospitalares.
Fotografias.
E uma declaração assinada com o nome de Sônia Ferreira.
Peguei a última folha.
“Esta é a mulher que se apresentou como Sônia?”
O agente confirmou.
“Sim. Lucas chegou até ela por meio de um intermediário. Depois que recebemos o material, verificamos a identidade.”
“E descobriram que não era ela.”
“Exatamente.”
Observei a fotografia presa ao depoimento.
A mulher parecia ter pouco mais de cinquenta anos.
Não a reconheci.
Lucas passou a mão pelos cabelos.
“Ela sabia detalhes que só alguém envolvido poderia saber.”
“Ou alguém que recebeu esses detalhes de outra pessoa”, respondeu o agente.
Continuei examinando o conteúdo.
Foi então que encontrei uma fotografia antiga.
Era uma imagem de funcionários diante de uma maternidade.
No verso havia uma data de dezoito anos antes e vários nomes escritos à mão.
Meu olhar parou em um deles.
Sônia Ferreira.
Virei a foto.
Havia sete mulheres.
Observei cada rosto lentamente.
Na terceira fileira, à esquerda, estava uma enfermeira de cabelos escuros.
Mais jovem.
Mais magra.
Mas aqueles olhos...
Meu coração acelerou.
“Eu conheço essa mulher.”
Lucas se levantou.
“De onde?”
Não consegui responder imediatamente.
Uma lembrança voltou inteira.
Um supermercado.
Lucas ainda criança ao meu lado.
Uma senhora idosa olhando para ele como se tivesse visto um fantasma.
“Ele é seu?”
“Sim. É meu filho.”
Ela parecera prestes a dizer alguma coisa.
Até Ricardo aparecer.
Então ficara em silêncio.
Minhas mãos começaram a tremer.
“A mulher do supermercado.”
Lucas franziu a testa.
“Que mulher?”
“Você era pequeno. Talvez sete ou oito anos.”
Olhei novamente para a fotografia.
“Uma senhora ficou encarando você. Perguntou se era meu filho. Quando Ricardo se aproximou, ela mudou completamente.”
Renata levou a mão à boca.
“O que Ricardo disse?”
“Que nunca a tinha visto.”
O agente pegou cuidadosamente a fotografia.
“A senhora tem certeza?”
“Não posso jurar depois de tantos anos.”
Fechei os olhos e reconstruí aquele momento.
O medo no rosto dela.
A rapidez com que desviara os olhos.
Ricardo me conduzindo para longe.
Sua irritação durante o caminho de volta.
Na época, eu atribuíra tudo ao cansaço.
Abri os olhos.
“Mas Ricardo a reconheceu.”
Lucas me encarou.
“Como você sabe?”
“Porque ele nunca perguntou quem ela era.”
O silêncio caiu sobre a mesa.
“Se um desconhecido aborda seu filho e começa a fazer perguntas estranhas, você pergunta alguma coisa. Ricardo simplesmente disse que não a conhecia e insistiu para irmos embora.”
O agente anotou rapidamente.
“Em qual supermercado?”
Eu disse o bairro.
“Lembra o ano?”
“Consigo descobrir. Lucas estava usando uma tipoia naquele período. Foi depois de quebrar o braço.”
Lucas me olhou surpreso.
“Eu tinha oito anos.”
“Então sabemos aproximadamente quando aconteceu.”
Renata sentou-se devagar.
“Ela estava viva.”
“Naquele momento, sim”, respondi.
Lucas pegou novamente os documentos.
“Então por que desapareceu?”
Ninguém respondeu.
Continuei procurando.
No fundo do envelope havia uma cópia de transferência bancária feita poucas semanas depois do nascimento de Lucas.
O beneficiário era uma empresa que eu não reconhecia.
Mas a assinatura no campo de autorização me fez prender a respiração.
Parecia a minha.
“Isso é impossível.”
O agente aproximou-se.
“O que foi?”
Apontei.
“Essa assinatura.”
Lucas inclinou-se sobre a mesa.
“É sua?”
“Parece.”
Renata ficou pálida.
Observei a data.
Eu nem conhecia Ricardo naquela época.
“Isso foi feito meses antes de eu conhecê-lo.”
O agente pegou o documento usando luvas.
“Então temos mais um possível documento falsificado.”
Mas algo me incomodava.
Eu havia visto aquele nome empresarial antes.
Não sabia onde.
Levantei-me e fui até meu escritório.
Ricardo sempre chamara aquele cômodo de “quartel-general da Bianca” e raramente entrava ali.
Abri um armário onde guardava documentos antigos da minha carreira.
Depois de alguns minutos, encontrei uma pasta com cópias de processos administrativos daquela época.
Voltei para a mesa.
“Essa empresa.”
Folheei rapidamente.
Então encontrei.
O mesmo nome.
Ela aparecia em um dos documentos relacionados ao imóvel da Rua Joaquim Nabuco.
Meu peito apertou.
“Ricardo não falsificou minha assinatura apenas para movimentar dinheiro.”
Todos olharam para mim.
“Ele tentou criar um vínculo entre mim e uma empresa investigada antes mesmo de me conhecer oficialmente.”
O agente ficou sério.
“Uma proteção para ele.”
“Não.”
Balancei a cabeça.
“Um seguro.”
Lucas franziu a testa.
Expliquei:
“Se algum dia eu descobrisse o que ele fazia e tentasse denunciá-lo, Ricardo poderia mostrar documentos que me colocavam dentro do mesmo esquema.”
Renata fechou os olhos.
“Ele preparou você antes de se casar.”
A verdade doeu mais do que eu esperava.
Meu casamento não havia começado com uma mentira.
Havia começado com um plano.
Mas, naquele instante, alguma coisa dentro de mim mudou.
Até ali, eu estava reagindo ao que Ricardo fizera.
Isso terminava naquela mesa.
“Quero encontrar Sônia.”
O agente me observou.
“Se ela ainda estiver viva, podemos tentar localizá-la.”
“Não quero tentar.”
Minha voz saiu firme.
“Quero encontrar cada registro, cada endereço e cada ligação possível entre ela e Ricardo.”
Lucas se aproximou.
“Eu vou com você.”
Olhei para ele.
“Não precisa.”
“Preciso, sim.”
Renata também se levantou.
“Eu também.”
Antes que eu respondesse, o telefone do agente vibrou.
Ele leu a mensagem.
Seu rosto mudou.
“O que aconteceu?”, perguntei.
Ele ergueu os olhos.
“Acabamos de obter acesso a uma antiga conta bancária usada por Sônia Ferreira depois do desaparecimento.”
Meu coração disparou.
“Há movimentações recentes?”
“Não.”
Ele fez uma pausa.
“Mas existe um endereço associado à última retirada feita pessoalmente.”
“Quando?”
“Há nove anos.”
“E onde?”
O agente mostrou a tela.
Reconheci imediatamente o nome da cidade.
Não porque tivesse servido ali.
Mas porque Ricardo viajara para aquele lugar várias vezes durante nosso casamento, sempre dizendo a mesma coisa.
“Cliente complicado.”
Olhei para Lucas.
Depois para Renata.
Finalmente compreendi.
Talvez Sônia nunca tivesse desaparecido de Ricardo.
Talvez ele soubesse exatamente onde ela estava o tempo inteiro.
**Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.**







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