O ônibus mal tinha virado a esquina quando ouvi novamente a voz do meu pai pelo telefone, mais fria do que eu jamais tinha escutado.
“Adriana, continue sentada. Minha equipe já está a caminho.”
Olhei para Leonardo. Sua boquinha estava relaxada enquanto dormia, completamente alheio ao fato de que o próprio pai tinha acabado de escolher um almoço em vez dele.
Minha incisão latejava a cada solavanco do ônibus, mas, estranhamente, meu coração estava firme.
Durante dois anos, inventei desculpas para Diego.
Ele estava estressado.
Estava construindo uma empresa.
A mãe dele exercia influência demais sobre ele.
Mas nenhum marido que amasse de verdade a esposa deixaria ela e o filho recém-nascido voltarem para casa de ônibus apenas cinco dias depois de uma cirurgia.
Vinte minutos depois, o ônibus parou perto do prédio onde ficava o apartamento que Diego adorava exibir para os investidores.
Antes que eu conseguisse fazer força para me levantar, dois homens de terno preto entraram no ônibus.
Um deles tirou os óculos escuros.
“Senhora Viana? O senhor Brandão nos enviou.”
O motorista ficou olhando.
Todos os passageiros também.
Assenti, e o homem pegou cuidadosamente minha bolsa do hospital enquanto o outro ficou ao meu lado, protegendo meu espaço enquanto eu me levantava devagar com Leonardo nos braços.
Lá fora, três carros pretos esperavam junto à calçada.
Meu pai estava ao lado do veículo do meio.
Carlos Brandão nunca parecia abalado, mas, quando viu meu rosto pálido e a pulseira do hospital ainda no meu pulso, alguma coisa em sua expressão se desfez.
Ele se aproximou e tocou a manta de Leonardo com os dedos trêmulos.
“Meu neto voltou para casa de ônibus?”, perguntou em voz baixa.
Engoli em seco.
“O Diego disse que eu estava fazendo drama.”
Os olhos do meu pai se ergueram para a torre do condomínio.
“Então vamos mostrar a ele o que é fazer drama.”
Dentro do apartamento, a equipe de segurança do meu pai começou a trabalhar com uma eficiência assustadora.
Eles separaram as coisas de Leonardo, meus documentos, minhas joias e todos os arquivos relacionados à empresa de Diego.
Fiquei observando enquanto tiravam da parede a fotografia emoldurada do nosso casamento e deixavam apenas o pequeno prego exposto.
Foi exatamente naquele momento que Diego ligou.
Atendi e coloquei no viva-voz.
“Onde você está?”, disparou ele. “Minha mãe disse que você está fazendo a família passar vergonha porque não voltou para casa.”
Meu pai pegou o celular da minha mão.
“Diego”, disse ele calmamente, “aqui é Carlos Brandão. Seu escritório, seus investidores e seu banco vão entrar em contato com você dentro de uma hora.”
Houve silêncio.
Então Diego murmurou:
“Senhor Brandão?”
Meu pai olhou para mim.
“Ele não sabia?”
Balancei a cabeça.
E foi exatamente nesse momento que as portas do elevador se abriram atrás de nós.
Diego estava parado ali com a família inteira.
Os sorrisos que eles tinham levado para o almoço haviam desaparecido.







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