Diego não respondeu. Permanecia parado perto da porta, com o rosto tenso e os olhos fixos em Adriana. Durante alguns segundos, ninguém falou. Até Leonardo se mexer dentro da manta, soltando um pequeno gemido que quebrou o silêncio.
“Você conhece essa pessoa?”, Adriana repetiu.
“Não.”
A resposta veio rápido demais.
Carlos percebeu.
“Diego, pense muito bem antes de mentir novamente dentro da minha casa.”
“Eu não estou mentindo.”
“Então por que ficou pálido?”
Diego passou a mão pelo rosto.
“Porque tudo isso está acontecendo de uma vez. Minha empresa está sendo ameaçada, minha conta foi bloqueada e agora aparece alguém dizendo que sabe por que eu me casei com Adriana. É claro que eu estou assustado.”
Adriana observou o marido em silêncio. Havia algo errado. Não era apenas medo. Ela conhecia Diego havia dois anos e aprendera a reconhecer quando ele estava irritado, quando estava nervoso e quando estava tentando esconder alguma coisa. Naquele momento, ele estava fazendo a terceira coisa.
“Meu pai”, disse ela, “eu quero saber quem colocou meu nome naquele contrato.”
Carlos fechou a pasta.
“Vou descobrir.”
“Não. Eu quero descobrir.”
Ele encarou a filha.
“Adriana, você acabou de sair de uma cesárea.”
“E alguém usou meu nome para controlar uma empresa que eu nunca autorizei. Isso deixou de ser apenas um problema do meu casamento.”
Carlos respirou fundo.
“Está bem.”
Ele tirou o celular do bolso e fez uma ligação.
“Quero uma auditoria completa de todos os documentos relacionados aos investimentos da Viana Tecnologia nos últimos três anos. Contratos, procurações, transferências, assinaturas digitais, tudo. E descubram quem teve acesso aos dados pessoais da Adriana.”
Desligou.
Diego deu um passo à frente.
“Isso é uma invasão.”
Carlos virou-se para ele.
“Não. Invasão foi alguém usar a identidade da minha filha.”
“Eu não sabia de nada.”
“Então você não terá nada a temer.”
Diego ficou calado.
Adriana percebeu que Vitória estava observando tudo com uma expressão estranha. A mulher, que até minutos antes defendia o filho, parecia cada vez mais desconfortável.
“Vitória”, Adriana chamou.
A sogra levantou os olhos.
“Você sabia que meu nome estava envolvido nos contratos?”
“Claro que não.”
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Adriana ficou olhando para ela.
“Então por que você nunca perguntou de onde vinha o dinheiro que sustentava a empresa do seu filho?”
Vitória abriu a boca.
“Diego sempre disse que eram investidores.”
“E você nunca achou estranho?”
“Não.”
“Mesmo quando começaram a aparecer reuniões com pessoas do Grupo Brandão?”
Vitória ficou imóvel.
Adriana percebeu.
“Como você sabe desse nome?”
A sogra desviou o olhar.
“Eu... ouvi falar.”
“Quando?”
“Não lembro.”
Carlos observava Vitória atentamente.
“Eu lembro”, disse ele. “Há oito meses, uma mulher chamada Helena Duarte esteve em uma reunião com meu conselho administrativo. Ela mencionou a família Viana.”
Vitória ficou branca.
Diego olhou para a mãe.
“Mãe?”
“Não sei do que ele está falando.”
Carlos caminhou até a mesa e abriu outra pasta.
“Helena Duarte era consultora financeira de um fundo que tentou comprar uma participação na empresa do seu marido.”
Diego franziu a testa.
“Helena?”
“Você a conhece?”
“Não.”
Carlos retirou uma fotografia.
Adriana olhou para a imagem.
Uma mulher elegante, de cabelos escuros, estava entrando em um prédio empresarial.
No verso havia uma data.
Oito meses antes.
“Essa mulher esteve na nossa casa”, Vitória disse de repente.
Todos olharam para ela.
Diego ficou furioso.
“Como assim?”
Vitória percebeu que havia falado demais.
“Ela veio uma vez.”
“Por quê?”, perguntou Adriana.
“Ela queria falar comigo.”
“Sobre o quê?”
Vitória hesitou.
“Sobre você.”
O coração de Adriana acelerou.
“Sobre mim?”
“Ela perguntou se você sabia de algumas coisas.”
“Que coisas?”
Vitória apertou os dedos.
“Eu não contei nada.”
Carlos aproximou-se.
“Vitória, o que exatamente ela perguntou?”
“Ela queria saber se Adriana pretendia continuar casada com Diego.”
Diego soltou uma risada nervosa.
“Isso é absurdo.”
Mas Vitória não olhou para o filho.
“Ela também perguntou se Adriana havia contado à família que estava pensando em deixar o casamento.”
Adriana sentiu um frio percorrer a coluna.
“Eu nunca falei isso para ela.”
“Eu sei.”
“Então como ela sabia?”
Ninguém respondeu.
Nesse momento, o telefone de Carlos tocou.
Ele atendeu.
Seu rosto mudou lentamente.
“Repita.”
Ouviu por alguns segundos.
“Tem certeza?”
Mais alguns segundos.
“Não mexam em nada. Estou indo para aí.”
Desligou.
Adriana percebeu imediatamente.
“O que aconteceu?”
Carlos olhou para ela.
“Encontraram uma transferência.”
“De quanto?”
“Quatro milhões e oitocentos mil reais.”
Diego arregalou os olhos.
“Para onde?”
Carlos respondeu sem tirar os olhos da filha.
“Para uma conta aberta em nome de Adriana Brandão.”
O apartamento ficou em silêncio.
Adriana sentiu o sangue desaparecer do rosto.
“Eu nunca tive essa conta.”
“Eu sei.”
Diego recuou um passo.
“Então alguém está usando o nome dela.”
Carlos assentiu.
“E essa conta recebeu dinheiro exatamente dois dias antes de você assinar o contrato principal com seus investidores.”
Diego imediatamente respondeu:
“Eu não assinei nada relacionado a isso.”
Carlos virou-se para ele.
“Tem certeza?”
“Sim.”
“Então vamos descobrir quem assinou.”
Ele colocou a pasta sobre a mesa.
“Porque a assinatura que aparece no documento não é a de Adriana.”
Adriana respirou fundo.
“De quem é?”
Carlos abriu uma página ampliada do contrato.
“É uma assinatura digital.”
Ele apontou para o registro de autenticação.
“E foi feita usando um dispositivo que estava dentro deste apartamento.”
Diego ficou imóvel.
Vitória também.
Adriana sentiu um aperto no peito.
“Qual dispositivo?”
Carlos olhou diretamente para Diego.
“O celular que estava conectado à rede desta casa naquela noite.”
Diego tirou lentamente o próprio telefone do bolso.
“Isso não prova nada.”
Carlos estendeu a mão.
“Então você não vai se importar de entregá-lo.”
Diego não se moveu.
“Diego”, disse Adriana, quase num sussurro, “entrega o telefone.”
Ele olhou para ela.
Durante alguns segundos, parecia decidir se obedeceria.
Então o celular vibrou.
Uma nova mensagem apareceu na tela.
Diego tentou escondê-la, mas Adriana conseguiu enxergar apenas algumas palavras antes que ele bloqueasse o aparelho.
**“Ela já sabe sobre Helena. Tire Vitória daí antes que seja tarde.”**
Adriana levantou-se de repente, sentindo a dor da cirurgia, mas sem conseguir pensar nela.
“Quem mandou essa mensagem?”
Diego apertou o telefone contra o peito.
“Não é o que você está pensando.”
Carlos aproximou-se dele.
“Então explique.”
Diego olhou para a mãe.
Vitória estava chorando.
E, pela primeira vez, Adriana percebeu que sua sogra não parecia surpresa com aquela mensagem.
Parecia apavorada.
“Vitória”, Adriana disse lentamente, “o que você fez?”
A mulher cobriu o rosto com as mãos.
E depois de alguns segundos, respondeu com a voz quebrada:
“Eu só queria proteger meu filho.”
Adriana sentiu o coração afundar.
“Proteger de quê?”
Vitória levantou os olhos.
“Do seu pai.”
Carlos ficou completamente imóvel.
“Vitória”, disse ele em voz baixa, “escolha muito bem as próximas palavras.”
Ela respirou fundo.
“Porque há dois anos, antes de Diego se casar com você... alguém me procurou.”
Adriana sentiu um arrepio.
“Quem?”
Vitória olhou para Diego.
E ele fechou os olhos.
“Foi o homem que financiou o primeiro investimento da empresa.”
Ela fez uma pausa.
“E ele não queria que Diego se casasse com você.”
Adriana ficou sem voz.
Carlos estreitou os olhos.
“Por quê?”
Vitória começou a chorar.
“Porque ele sabia exatamente quem Adriana era.”
E então, antes que alguém pudesse perguntar mais alguma coisa, todas as luzes do apartamento se apagaram ao mesmo tempo.







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