As luzes se apagaram por completo, e durante alguns segundos o apartamento mergulhou em uma escuridão absoluta. Leonardo começou a chorar, assustado pelo silêncio repentino, e Adriana imediatamente o apertou contra o peito. Carlos reagiu antes de qualquer outra pessoa.
“Não se mexam.”
As palavras foram baixas, mas firmes. Do corredor veio o som de passos rápidos. Um dos seguranças apareceu quase imediatamente com uma lanterna, enquanto outro verificava a porta de entrada.
“Senhor Brandão, o sistema principal caiu.”
“Só aqui?”
“Não. Todo o andar.”
Carlos olhou para Adriana.
“Fique atrás de mim.”
“Meu filho está comigo.”
“Justamente.”
Diego permanecia perto da janela, imóvel. Vitória continuava sentada no sofá, tremendo.
Adriana tentou acalmar Leonardo enquanto sentia o próprio coração disparar. Aquela coincidência era assustadora demais. Poucos segundos depois de Vitória revelar que alguém havia tentado impedir seu casamento, o prédio inteiro ficava sem energia.
“Pai”, Adriana sussurrou, “isso foi provocado?”
Carlos não respondeu.
Um dos seguranças voltou.
“Elevadores desligados. As câmeras também.”
Carlos imediatamente pegou o telefone.
“Quero uma equipe na garagem. Agora.”
Foi quando um barulho metálico ecoou no corredor.
Todos se calaram.
Depois outro.
Como se alguém estivesse tentando abrir uma porta.
Diego deu um passo para trás.
“Talvez seja algum funcionário.”
Carlos levantou a mão.
“Não existe funcionário autorizado neste andar.”
Os seguranças avançaram em direção à porta.
Adriana sentiu Leonardo se mexer contra seu peito. A cicatriz da cesárea latejava, mas ela permaneceu de pé.
Então ouviu uma voz do outro lado.
“Senhora Brandão?”
Ela congelou.
Era a mesma voz do telefonema.
“Quem é você?”, perguntou.
“Abra a porta.”
Carlos imediatamente respondeu:
“Identifique-se.”
Houve uma pausa.
“Meu nome é Marcelo Farias. Trabalho para Helena Duarte.”
Diego fechou os olhos.
Adriana percebeu.
“Você conhece esse homem.”
“Não.”
“Diego.”
“Eu disse que não.”
A porta continuava fechada.
Carlos fez um sinal para os seguranças.
Um deles abriu apenas alguns centímetros.
Um homem de aproximadamente cinquenta anos apareceu no corredor, segurando uma pasta de couro.
Ele não parecia ameaçador.
Parecia exausto.
“Preciso falar com Adriana.”
Carlos bloqueou a passagem.
“Você terá que falar comigo primeiro.”
Marcelo olhou para ele.
“Senhor Brandão, Helena me mandou aqui porque descobriu que alguém pretende destruir todas as provas antes que vocês tenham acesso a elas.”
“Quais provas?”
Marcelo olhou para Diego.
“Os documentos que mostram quem realmente criou a empresa do seu genro.”
Diego ficou pálido.
Adriana sentiu o corpo gelar.
“Do que você está falando?”
Marcelo abriu a pasta.
“Seu marido não criou a Viana Tecnologia sozinho.”
Diego finalmente explodiu.
“Chega! Você não sabe do que está falando.”
Marcelo não recuou.
“Eu sei exatamente.”
Carlos estendeu a mão.
“Entre.”
Marcelo entrou.
A porta foi trancada novamente.
“Dois anos atrás”, começou ele, “Diego estava prestes a perder a empresa. Ele tinha dívidas, poucos clientes e nenhuma estrutura para conseguir investimentos grandes. Foi quando Helena apareceu.”
Adriana olhou para Diego.
“Você me disse que tinha conseguido os investidores sozinho.”
“Eu estava tentando construir alguma coisa.”
“Não foi isso que eu perguntei.”
Diego permaneceu em silêncio.
Marcelo colocou um documento sobre a mesa.
“Helena representava um grupo de investidores privados. Eles ofereceram dinheiro, contatos e tecnologia. Mas havia uma condição.”
Carlos cruzou os braços.
“Qual?”
“Diego precisava se casar com Adriana.”
O silêncio foi tão profundo que Adriana ouviu o próprio coração.
“Não”, ela sussurrou.
Diego imediatamente respondeu:
“Isso é mentira.”
Marcelo continuou.
“O grupo acreditava que, depois do casamento, Adriana poderia ser usada como ponte para conseguir acesso indireto aos negócios da família Brandão.”
Carlos ficou imóvel.
Adriana olhou para o marido.
“Você sabia?”
“Não.”
“Diego, olhe para mim.”
Ele levantou os olhos.
“Você sabia?”
“Eu sabia que havia interesse na sua família. Não sabia que era por causa disso.”
A resposta foi pior do que uma negação.
Adriana sentiu as pernas enfraquecerem.
“Então você sabia que eles tinham interesse em mim.”
“Mas eu não me casei com você por dinheiro.”
“Quando descobriu quem eu era?”
Diego não respondeu.
“Quando?”
“Poucos meses depois.”
Adriana fechou os olhos.
Durante meses, ele soube.
E mesmo assim continuou escondendo.
Marcelo abriu outra página.
“Existe mais.”
Carlos pegou o documento.
“Esse contrato foi assinado antes do casamento.”
Adriana se aproximou.
No documento havia uma cláusula sobre controle indireto de ativos familiares.
Seu nome aparecia novamente.
“Essa assinatura não é minha.”
“Não”, disse Marcelo. “Foi criada a partir de dados pessoais que alguém conseguiu obter.”
Carlos ficou sério.
“Quem tinha acesso a esses dados?”
Marcelo olhou para Vitória.
A mulher começou a chorar novamente.
“Não”, disse ela.
Adriana virou-se para a sogra.
“Foi você?”
Vitória balançou a cabeça.
“Eu não sabia que seria usado dessa maneira.”
“Mas você entregou meus documentos?”
“Eu entreguei uma cópia do seu documento de identidade.”
Adriana ficou sem respirar.
“Quando?”
“Antes do casamento.”
“Para quem?”
Vitória começou a soluçar.
“Para Helena.”
Diego passou a mão pelo rosto.
“Eu não sabia disso.”
Adriana olhou para ele.
“Mas sabia que Helena estava investigando minha família.”
“Sim.”
“E mesmo assim casou comigo.”
“Eu me apaixonei por você.”
“Talvez.”
A palavra saiu fria.
“Mas você também viu uma oportunidade.”
Diego se aproximou.
“Adriana, no começo eu realmente queria apenas ficar com você. Depois as coisas ficaram complicadas.”
“Complicadas?”
Ela riu sem humor.
“Você me deixou voltar de ônibus cinco dias depois de uma cesárea porque sua mãe queria almoçar em um restaurante caro.”
Diego abaixou a cabeça.
“Eu estava errado.”
“Você estava errado há muito tempo.”
Marcelo então tirou um pequeno pen drive da pasta.
“Isso contém uma gravação.”
Carlos perguntou:
“De quê?”
“De uma reunião realizada três semanas antes do casamento.”
Diego empalideceu.
“Você não pode ter isso.”
Marcelo encarou-o.
“Tenho.”
Adriana estendeu a mão.
“Quero ouvir.”
Marcelo conectou o dispositivo ao computador.
A gravação começou com vozes distantes.
Primeiro, Helena.
Depois, Vitória.
E então a voz de Diego.
Adriana reconheceu imediatamente.
Na gravação, Diego dizia:
“Se ela nunca descobrir que eu sabia quem ela era, tudo vai ficar bem.”
Adriana ficou imóvel.
A gravação continuou.
Helena perguntou:
“E se o pai dela descobrir?”
Diego respondeu:
“Quando ele descobrir, já será tarde.”
A gravação terminou.
Ninguém respirava.
Adriana olhou para Diego.
“Você disse isso três semanas antes do nosso casamento.”
Ele tentou se aproximar.
“Adriana...”
Ela levantou a mão.
“Não.”
Carlos pegou o pen drive.
“Isso muda tudo.”
Marcelo assentiu.
“E existe uma segunda gravação.”
Carlos franziu a testa.
“Que gravação?”
Marcelo olhou para Adriana.
“Uma conversa registrada há apenas quatro dias.”
“Entre quem?”
Marcelo respirou fundo.
“Entre Helena e uma pessoa que vocês ainda não sabem que está envolvida.”
Antes que pudesse continuar, o telefone de Marcelo começou a tocar.
Ele olhou para a tela.
Seu rosto mudou.
“É Helena.”
Atendeu.
“Helena?”
Do outro lado, uma voz feminina falava desesperadamente.
Marcelo empalideceu.
“Não... quando?”
Ele se afastou alguns passos.
“Você tem certeza?”
Desligou.
Adriana percebeu o medo em seus olhos.
“O que aconteceu?”
Marcelo olhou para Carlos.
“Helena desapareceu.”
Carlos ficou imóvel.
“Quando?”
“Há aproximadamente uma hora.”
Adriana sentiu um frio percorrer o corpo.
Marcelo apertou a pasta contra o peito.
“E antes de desaparecer, ela enviou uma única mensagem para mim.”
“O que dizia?”, perguntou Carlos.
Marcelo olhou diretamente para Adriana.
“‘Se alguma coisa acontecer comigo, diga à Adriana que a pessoa que ela mais confia dentro da própria família está mentindo.’”
Adriana sentiu o coração disparar.
Ela olhou para o pai.
Depois para Diego.
Depois para Vitória.
Mas, antes que pudesse perguntar qualquer coisa, ouviu três batidas lentas na porta.
Todos se viraram.
Uma voz feminina veio do outro lado.
“Adriana?”
Ela reconheceu aquela voz imediatamente.
Era Helena.







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