A primeira coisa que tirei da pasta não foi uma fotografia, nem um recibo de hotel. Foi um relatório financeiro de vinte e três páginas, preso por um clipe metálico. Coloquei-o sobre a mesa e deslizei na direção do auditor. Rafael arqueou uma sobrancelha, tentando manter o mesmo ar de desprezo, mas percebi o instante exato em que seus dedos pararam de bater sobre a madeira.
— O que é isso? — perguntou.
Não respondi a ele.
O auditor, senhor Álvaro Mendes, ajustou os óculos e abriu o documento. Ao lado dele, o representante do conselho, Eduardo Sampaio, inclinou-se para enxergar melhor. Meu advogado, doutor Augusto Nogueira, permaneceu de pé, com as mãos apoiadas no encosto da cadeira, esperando.
Noah se mexeu contra meu peito. Baixei os olhos por alguns segundos, sentindo o calor pequeno de seu rosto junto à minha pele. Eu tinha passado quase todas as noites desde o nascimento dele acordada, alimentando-o, sentindo dores, tentando entender como minha vida havia mudado tão depressa. Ainda assim, naquele momento, o cansaço parecia distante. Eu havia esperado doze dias para chegar até aquela mesa.
Álvaro passou duas páginas.
Depois três.
Seu semblante mudou.
— Rafael — disse ele lentamente. — Você pode explicar essas transferências?
Rafael nem olhou para o papel.
— Transferências de quê?
Álvaro virou o relatório e apontou para uma sequência de valores.
— Cento e oitenta mil reais para a BRS Consultoria. Depois mais duzentos e quarenta mil. Depois noventa e cinco mil. Tudo nos últimos oito meses.
Amanda descruzou as pernas.
Foi um movimento quase imperceptível, mas eu vi.
Rafael finalmente pegou o relatório.
— Despesas comerciais.
— Com qual finalidade? — perguntou Eduardo.
— Expansão. Consultoria estratégica. Isso tudo foi aprovado.
— Por quem?
O silêncio durou dois segundos.
Rafael olhou rapidamente para mim.
Eu conhecia aquele olhar. Durante sete anos de casamento, ele o usara sempre que precisava ganhar tempo.
— Pelo financeiro, obviamente.
Álvaro fechou a pasta de documentos que tinha diante dele.
— Eu sou o diretor responsável pela auditoria das contas da empresa há seis anos. Nunca aprovei pagamentos nesse valor para a BRS Consultoria.
Amanda tentou sorrir.
— Deve haver algum erro administrativo.
Então retirei o segundo documento.
Era o contrato social da BRS Consultoria.
Coloquei-o diante dela.
— Talvez você consiga explicar melhor.
Amanda não tocou no papel.
Rafael, porém, tomou-o rapidamente e começou a ler. Quanto mais avançava, mais seu rosto perdia cor.
BRS Consultoria Ltda.
Sócia-administradora: Amanda Barros.
O silêncio que caiu na sala foi diferente de todos os anteriores. Não era constrangimento. Era atenção.
Eduardo se virou para Rafael.
— Você transferiu dinheiro da Carvalho Desenvolvimento para uma empresa pertencente à sua… consultora?
Amanda interrompeu antes que ele terminasse.
— Prestamos serviços reais.
— Então haverá relatórios, contratos de prestação, notas fiscais detalhadas e registros das entregas — respondeu Álvaro.
— Claro que há.
Eu puxei outra folha.
— Eu também pensei isso.
Rafael ergueu a cabeça de imediato.
Naquela página havia uma relação de onze notas fiscais emitidas pela empresa de Amanda. Todas apresentavam descrições genéricas: “assessoria estratégica”, “planejamento corporativo”, “consultoria executiva”.
Mas havia algo pior.
Em quatro das datas indicadas, Amanda estava viajando com Rafael.
Eu sabia porque os recibos estavam na pasta.
Hotel Fasano, Rio de Janeiro.
Resort em Angra dos Reis.
Uma pousada em Campos do Jordão.
E uma suíte em Buenos Aires que Rafael havia me dito ser parte de uma “reunião com investidores”.
Coloquei as reservas sobre a mesa, uma após a outra.
— Parece que algumas reuniões estratégicas exigiam apenas uma cama king-size e serviço de quarto.
Amanda ficou vermelha.
— Isso é invasão de privacidade.
Olhei para ela pela primeira vez desde que a reunião começara.
— Não fui eu quem tirou essas informações da sua vida privada. Foram lançadas como despesas da empresa.
Eduardo fechou os olhos por um instante.
Rafael levantou-se bruscamente.
— Chega.
Noah se assustou com o som da cadeira arrastando no chão. Seu pequeno rosto se contraiu e ele começou a resmungar. Automaticamente, passei a mão por suas costas.
Rafael olhou para o próprio filho por menos de um segundo.
Depois voltou a olhar para mim.
Aquilo doeu mais do que eu gostaria de admitir.
— Você está tentando destruir minha carreira porque nosso casamento acabou — disse ele.
— Nosso casamento não acabou porque você quis outra mulher.
Minha voz saiu mais baixa do que esperava.
— Acabou porque você mentiu para mim enquanto eu estava grávida, desviou dinheiro da empresa e me deixou entrar sozinha em uma sala de cirurgia enquanto brindava em um hotel.
Amanda desviou o rosto.
Rafael apertou a mandíbula.
— Você não pode provar onde eu estava naquele dia.
Foi então que senti algo dentro de mim mudar.
Por doze dias, aquela frase havia ficado presa na minha cabeça.
“Apareceu uma coisa importante. Não transforme isso em drama.”
Eu havia lido tantas vezes que conseguia enxergar cada palavra mesmo de olhos fechados.
Abri o bolso interno da pasta.
— Posso.
Coloquei sobre a mesa a fotografia recebida na manhã seguinte ao nascimento de Noah.
Duas taças.
A suíte.
O relógio.
Amanda refletida no espelho.
Rafael pegou a imagem e soltou uma risada curta, quase desesperada.
— Isso não prova a data.
— A original possui metadados.
Doutor Augusto abriu a segunda pilha de documentos.
— E o hotel confirmou o horário de entrada do senhor Rafael Carvalho às 18h42 do dia anterior ao nascimento de Noah e a saída às 10h17 da manhã seguinte.
Rafael ficou imóvel.
Amanda se inclinou para ele.
— Você disse que isso não poderia ser rastreado.
A frase escapou antes que ela percebesse.
Todos ouviram.
Rafael virou-se lentamente.
— Cala a boca, Amanda.
Ela empalideceu.
Eu também fiquei em silêncio, porque aquilo era novo até para mim.
“Não poderia ser rastreado.”
Não parecia uma frase relacionada apenas a uma traição.
Eduardo fechou os documentos e encarou Rafael.
— Considerando essas evidências, estou solicitando uma suspensão imediata das suas autorizações financeiras até que uma auditoria independente seja concluída.
— Você não pode fazer isso — Rafael disse.
— O conselho pode.
— Eu sou o diretor executivo.
Eduardo sustentou seu olhar.
— Por enquanto.
Pela primeira vez, vi medo verdadeiro no rosto do homem com quem fui casada.
Mas ainda não era aquilo que me preocupava.
Enquanto todos discutiam, Amanda puxou discretamente o celular de dentro da bolsa. Seus dedos tremiam enquanto digitava uma mensagem. Ela acreditou que ninguém havia percebido.
Eu percebi.
Poucos segundos depois, meu próprio celular vibrou.
Número desconhecido.
Abri a mensagem por baixo da mesa.
“Você encontrou os pagamentos para Amanda. Ótimo. Mas esses não são os valores que deveriam assustar você.”
Meu coração acelerou.
Logo abaixo havia um arquivo anexado.
Uma planilha.
Na primeira linha, reconheci o nome da empresa de Rafael.
Na segunda, uma conta bancária que eu nunca havia visto.
E na terceira coluna havia uma transferência realizada apenas quatro dias antes do nascimento de Noah.
R$ 3.800.000.
Ergui os olhos lentamente.
Rafael estava olhando diretamente para meu celular.
E, pela primeira vez naquela manhã, ele não parecia irritado.
Parecia apavorado.







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