A escuridão engoliu a cozinha de forma tão completa que a risada de Helena morreu na garganta.
Tiago ficou imóvel, com o pedaço de madeira ainda erguido sobre mim.
“O que aconteceu?”
Um clique metálico respondeu do lado de fora.
Depois outro.
A fechadura da porta dos fundos tinha sido destravada.
Ricardo praguejou e tentou pegar o celular, mas estava sem sinal. A transmissão ao vivo de Natália caiu, e a tela dela ficou preta. Pela primeira vez naquela manhã, o medo substituiu a arrogância estampada no rosto deles.
“Tiago”, Helena sussurrou, “tem alguém dentro da casa.”
Ele apertou com mais força o pedaço de madeira.
“Ninguém passa por mim.”
Um feixe vermelho cortou a escuridão e parou sobre o peito dele.
“Larga isso”, ordenou uma voz calma.
Meu coração quase parou.
Alexandre.
Tiago se virou bruscamente em direção ao corredor, me puxou pelos cabelos e encostou o pedaço de madeira no meu pescoço.
“Dá mais um passo e ela perde o bebê.”
O ponto vermelho não se moveu.
Alexandre também não.
“Você cometeu o pior erro da sua vida”, disse meu irmão. “Achou que eu tinha vindo sozinho.”
O vidro da frente da casa se estilhaçou. O som pesado de botas atravessou a sala. Natália gritou quando duas pessoas a arrancaram da entrada. Ricardo tentou correr, mas alguém o prensou contra a bancada.
Helena berrou:
“Isso é sequestro!”
“Não”, respondeu outra voz. “Isso é um resgate.”
Tiago apertou ainda mais o braço ao meu redor. A respiração dele queimava perto do meu ouvido, irregular e desesperada. Ele me arrastou para trás, na direção do fogão, onde o óleo chiava na frigideira.
“Manda eles irem embora”, sussurrou. “Ou eu juro que...”
O bebê chutou com força.
Enterrei o cotovelo nas costelas dele.
O pedaço de madeira escapou.
Um disparo rasgou a escuridão, seguido pelo grito de Tiago, enquanto a arma caía de sua mão.
As luzes de emergência piscaram e se acenderam.
Alexandre atravessou a cozinha, me segurou antes que eu caísse e pressionou a própria jaqueta contra minha coxa ensanguentada.
“Agora você está segura”, disse ele.
Mas o rosto dele dizia que eu não estava.
Ele olhou em direção à escada, onde um dos homens do resgate havia encontrado uma porta de aço trancada, escondida atrás de um painel na parede.
“Alexandre”, chamou o homem, com a voz trêmula. “Você precisa ver o que tem aqui dentro.”
Então, uma criança começou a chorar atrás da porta.
**Continua — clique na Parte 3 para continuar lendo.**







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