Fiquei olhando para a fotografia até as letras no verso começarem a se embaralhar diante dos meus olhos.
Tiago, Camila e Luísa — nossa família.
Meu corpo inteiro ficou frio.
Durante todos os anos em que vivi com Tiago, nunca ouvi o nome Camila.
Nunca vi aquela menina.
Nunca encontrei uma única fotografia escondida numa gaveta, uma certidão esquecida, um comentário interrompido no meio de uma conversa.
Nada.
Era como se duas pessoas tivessem sido apagadas da existência.
“Quem é Camila?”, perguntei.
Alexandre puxou uma cadeira para perto da cama.
“A polícia ainda está verificando.”
“Ele teve outra mulher?”
“Parece que sim.”
“E Luísa é filha dele?”
“Tudo indica isso, mas ainda precisam confirmar oficialmente.”
Levei a mão à barriga.
Meu bebê se mexeu outra vez, mais fraco do que de costume, mas o suficiente para me lembrar de que eu precisava manter a calma.
“Por que ele manteria a própria filha presa naquela sala?”
Alexandre demorou a responder.
“Essa é a pergunta errada.”
Olhei para ele.
“Qual é a certa?”
“Por que uma família inteira ajudaria Tiago a esconder a própria filha?”
A frase me atingiu com mais força do que qualquer coisa que eu tivesse ouvido naquela manhã.
Helena sabia.
Ricardo sabia.
Natália provavelmente sabia.
Aquela porta ficava dentro da casa em que todos circulavam livremente.
Ninguém podia alegar que nunca tinha percebido.
“Eles fizeram alguma coisa com Camila”, sussurrei.
Alexandre não confirmou.
Também não negou.
Antes que eu pudesse continuar, alguém bateu à porta.
Era uma investigadora chamada Daniela Moura.
Tinha cerca de quarenta anos, cabelos presos e uma expressão cansada de quem já havia aprendido a não demonstrar surpresa facilmente.
Ela se apresentou e pediu autorização para conversar comigo.
Alexandre permaneceu ao lado da janela.
“Senhora”, começou Daniela, “preciso fazer algumas perguntas sobre a casa.”
Assenti.
“Há quanto tempo você mora lá?”
“Quatro anos.”
“Você sabia da existência do cômodo escondido?”
“Não.”
“Já ouviu sons atrás daquela parede?”
Tentei me lembrar.
Então alguma coisa veio à minha cabeça.
Não um grito.
Não uma voz.
Um ruído.
Às vezes, durante a madrugada, eu ouvia pequenas batidas.
Tiago dizia que eram canos antigos.
Helena dizia que ratos entravam pelas paredes.
Eu acreditava.
Meu estômago virou.
“Eu ouvi batidas.”
Daniela anotou.
“Com que frequência?”
“Não sei. Algumas vezes por mês.”
Alexandre fechou os olhos por um instante.
Eu senti vergonha.
Uma criança podia estar pedindo ajuda do outro lado de uma parede, e eu tinha continuado dormindo.
Daniela percebeu minha expressão.
“Você não sabia o que estava acontecendo.”
“Mas eu estava lá.”
“E você também era uma vítima.”
A palavra ficou suspensa entre nós.
Vítima.
Eu ainda não tinha me acostumado a ouvi-la aplicada a mim.
Daniela colocou uma pasta fina sobre a mesa.
“Encontramos vários dispositivos de armazenamento no escritório de Ricardo.”
“Que tipo de coisa?”
“Vídeos.”
Meu peito apertou.
“De mim?”
“Alguns.”
Engoli em seco.
“Alguns?”
Ela respirou lentamente.
“Também existem gravações de Luísa.”
Alexandre se afastou da janela.
“Que gravações?”
“Não posso entrar em detalhes agora.”
“Então por que veio aqui?”, ele perguntou.
Daniela virou o rosto para mim.
“Porque encontramos uma gravação feita três meses atrás. Nela, Helena conversa com Tiago na cozinha.”
Meu coração começou a bater mais rápido.
“Sobre o quê?”
Daniela abriu a pasta e leu algumas linhas transcritas.
“Helena diz: ‘Quando o bebê nascer, teremos o que precisamos. Depois fazemos com ela o mesmo que fizemos com Camila.’”
Por alguns segundos, não entendi.
Meu cérebro recusou a frase.
“Ela... falou de mim?”
Daniela assentiu.
“Você é mencionada pelo nome segundos antes.”
O monitor ao meu lado começou a apitar mais rápido.
Alexandre se aproximou da cama.
“Respira devagar.”
Ignorei.
“E o que significa ‘quando o bebê nascer’?”
Daniela fechou a pasta.
“Ainda estamos tentando descobrir.”
“Não.”
Minha voz saiu mais forte.
“Não diga isso. Eles estavam esperando meu filho nascer por algum motivo.”
A investigadora não respondeu.
E o silêncio dela disse tudo.
Havia uma razão.
Uma razão planejada.
Talvez havia meses.
Talvez havia anos.
Daniela continuou.
“Também encontramos documentos com informações sobre sua gravidez. Consultas médicas. Exames. Datas previstas.”
“Tiago tinha acesso a tudo isso.”
“Não apenas Tiago.”
Ela colocou uma cópia sobre a mesa.
Era uma planilha.
Na primeira coluna estavam datas das minhas consultas.
Na segunda, resultados resumidos dos exames.
Na terceira, havia uma palavra repetida várias vezes.
Apto.
Apto.
Apto.
Até chegar à última linha.
**Nascimento previsto — dezembro.**
Ao lado, escrito em letras maiúsculas:
**TRANSFERÊNCIA.**
Meu estômago se contraiu.
“O que significa isso?”
Daniela respondeu:
“Estamos tentando descobrir para quem seria essa transferência.”
Um gelo percorreu minha coluna.
“Meu bebê?”
Ela não respondeu diretamente.
Mas Alexandre olhou para a folha como se quisesse rasgá-la ao meio.
Foi então que uma enfermeira entrou correndo.
“Investigadora, precisamos interromper.”
“Por quê?”
“Acabamos de receber uma solicitação de acesso ao prontuário da paciente.”
A enfermeira olhou para mim.
“Alguém tentou autorizar a transferência dela para outra unidade.”
Alexandre ficou imediatamente de pé.
“Quem?”
A enfermeira segurava um tablet.
“O pedido foi feito usando credenciais hospitalares válidas.”
Daniela pegou o aparelho.
“Nome?”
A enfermeira hesitou.
“Doutor Ricardo Nogueira.”
Meu sangue gelou.
“Meu sogro se chama Ricardo.”
A investigadora levantou os olhos.
“Qual é o sobrenome dele?”
Minha boca ficou seca.
“Nogueira.”
Alexandre atravessou o quarto e trancou a porta.
Daniela já estava falando pelo rádio.
Ricardo não era apenas o homem que assistira enquanto Tiago me espancava.
Ele tinha acesso ao hospital.
E, mesmo estando sob custódia, alguém estava tentando usar suas credenciais para me tirar dali.
Meu celular provisório, deixado sobre a mesa por Alexandre, vibrou.
Número desconhecido.
Uma mensagem.
Abri.
Havia apenas uma fotografia.
Camila.
A mesma mulher da foto antiga.
Mas naquela imagem ela estava deitada numa cama de hospital.
Grávida.
Abaixo da fotografia, uma única frase:
**Ela também chegou viva ao hospital.**
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







No comments yet