Por um segundo, ninguém respirou.
Nem eu.
Nem Alexandre.
Nem Daniela.
Apenas aquela voz fraca atravessava o viva-voz, acompanhada por uma respiração curta e irregular.
“Camila?”, repeti.
“Sim.”
Minha mão apertou o lençol.
“Você está viva?”
Do outro lado, ouvi um som que parecia um soluço sufocado.
“Por enquanto.”
Daniela se aproximou imediatamente.
“Camila, meu nome é Daniela Moura. Sou investigadora. Precisamos saber onde você está.”
“Não posso dizer.”
“Podemos proteger você.”
“Foi isso que disseram da última vez.”
A ligação ficou em silêncio por alguns segundos.
Então ela continuou:
“Eles têm gente em hospitais. Clínicas. Cartórios. Empresas de transporte. Ricardo construiu tudo para parecer legal por fora.”
Alexandre olhou para Daniela.
“Tudo o quê?”
A voz de Camila respondeu antes dela.
“Eles pegam bebês.”
Meu corpo inteiro congelou.
“Como assim?”
“Não é adoção. Nunca foi.”
Senti meu bebê se mover sob minha mão.
Camila começou a falar mais rápido, como se tivesse medo de que a ligação pudesse cair a qualquer momento.
“Ricardo começou há anos. Mulheres vulneráveis, grávidas, sem família próxima ou com relacionamentos abusivos. Eles acompanhavam as gestações. Esperavam o nascimento. Depois falsificavam prontuários e documentos.”
Daniela gravava tudo.
“Para quem entregavam as crianças?”
“Havia compradores.”
Fechei os olhos.
O quarto pareceu girar.
Alexandre segurou meu ombro.
“Continue”, disse Daniela.
“Eu descobri tarde demais.”
A voz de Camila falhou.
“Quando conheci Tiago, achei que ele era diferente. Ele era gentil. Protetor. Dizia que a família dele era complicada, mas que queria distância deles.”
Engoli em seco.
Eu conhecia aquela versão.
Era exatamente o homem que Tiago fingira ser comigo.
“Quando engravidei, Helena apareceu de repente”, continuou Camila. “Começou a controlar consultas, alimentação, exames. Ricardo insistia para eu ser atendida na Santa Augusta.”
“E você foi?”
“Tiago disse que seria melhor para o bebê.”
A respiração dela tremeu.
“Eu acordei depois do parto sem minha filha.”
Olhei para Daniela.
“Luísa.”
“Sim.”
A palavra saiu quebrada.
“Disseram que ela tinha morrido.”
Meu peito doeu.
“Mas ela não morreu.”
“Eu descobri meses depois.”
“Como?”
“Havia uma enfermeira.”
Camila parou.
“Ela me procurou escondido. Disse que meu bebê tinha saído vivo da clínica e que Ricardo havia alterado os registros.”
“Nome da enfermeira?”, perguntou Daniela.
“Márcia Lopes.”
A investigadora anotou imediatamente.
“Você denunciou?”
“Eu tentei.”
A voz de Camila tornou-se quase inaudível.
“Na mesma noite, Tiago me levou de volta para casa.”
Meu estômago se contraiu.
“E?”
“Foi quando eu entendi quem ele realmente era.”
Não havia necessidade de perguntar.
Eu sabia.
Camila continuou:
“Ele me bateu até eu perder a consciência. Quando acordei, estava no quarto atrás da parede.”
Olhei para Alexandre.
A mesma cela.
“Quanto tempo você ficou lá?”
“Quase quatro meses.”
Minha garganta fechou.
“E Luísa?”
“Eu nunca soube que estava na casa.”
A dor naquela frase era pior do que qualquer grito.
“Eu fugi quando Ricardo deixou uma chave na porta. Corri sem olhar para trás. Pensei que minha filha estivesse morta.”
Camila começou a chorar.
“Passei oito anos acreditando nisso.”
Meus olhos também se encheram.
“Ela está viva.”
Do outro lado, não houve resposta.
Apenas um soluço longo.
“Ela está viva, Camila.”
“Eu sei.”
“Como?”
“Vi a notícia da invasão.”
Daniela levantou os olhos.
Camila prosseguiu:
“Uma imagem vazou. Eu reconheci a casa. Depois vi a menina sendo retirada.”
Ela respirou fundo.
“Reconheci os olhos.”
Meu coração apertou.
Daniela perguntou:
“Por que você nunca voltou?”
“Porque eles tentaram me matar.”
Alexandre ficou imóvel.
“Quem?”
“Ricardo.”
A voz dela endureceu.
“Depois que fugi, encontrei Márcia. Ela tinha cópias de registros e nomes. Marcamos de entregar tudo a um promotor.”
“E conseguiram?”
“Não.”
Silêncio.
“O carro dela explodiu antes da reunião.”
Daniela parou de escrever.
“Márcia morreu?”
“Sim.”
Meu sangue gelou.
“Eu percebi que alguém sabia cada passo nosso.”
“Então desapareceu”, disse Alexandre.
“Sim.”
“E por que voltou agora?”
Camila demorou.
“Porque ela está grávida.”
Eu sabia que falava de mim.
“Eles repetiram o mesmo processo comigo.”
“Não exatamente.”
Franzi a testa.
“O que quer dizer?”
“A sua gravidez é diferente.”
Daniela aproximou-se ainda mais do telefone.
“Explique.”
“Na minha época, os bebês eram vendidos logo após o nascimento.”
“E agora?”
“Agora Ricardo tinha um comprador específico.”
Minha mão foi direto à barriga.
“Quem?”
Camila respirou fundo.
“Eu não sei o nome.”
“Mas sabe alguma coisa.”
“Só ouvi Tiago falando uma vez. Disse que desta vez o pagamento seria suficiente para todos desaparecerem.”
Alexandre encarou Daniela.
“Quanto?”
“Dois milhões.”
Meu estômago revirou.
Para eles, meu filho tinha preço.
Daniela perguntou:
“Camila, você tem provas?”
“Havia um arquivo.”
“Onde?”
“Na Santa Augusta.”
A resposta veio imediatamente.
“Quarto 12.”
O mesmo número da mensagem.
“Dentro da parede, atrás do armário de medicamentos. Ricardo mantinha cópias porque não confiava em ninguém.”
O rádio de Daniela chiou.
Uma voz entrou, urgente:
“Equipe Santa Augusta para investigadora Moura. Entramos no quarto 12.”
Daniela pegou o rádio.
“Encontraram alguma coisa?”
“Tem uma parede falsa.”
Camila soltou um gemido baixo.
“É lá.”
O policial continuou:
“Encontramos caixas de documentos. Fotografias. Certidões. Muitos nomes.”
Daniela fechou os olhos por um instante.
“Quantos?”
“Dezenas.”
Meu corpo perdeu força.
Não éramos duas.
Eu e Camila éramos apenas parte de alguma coisa muito maior.
Então a voz do rádio mudou.
“Investigadora... há outra coisa.”
“O quê?”
“Encontramos um berço preparado.”
Olhei imediatamente para minha barriga.
“Um berço?”
“E uma pulseira hospitalar.”
Daniela ficou pálida.
“Nome?”
O silêncio do outro lado pareceu infinito.
Então veio a resposta:
“O nome da paciente que está internada com você.”
Meu nome.
Eles já haviam preparado o lugar onde meu bebê seria levado.
Camila começou a falar depressa.
“Daniela, escute. Se encontraram isso, vocês precisam sair da clínica agora.”
“Por quê?”
“Porque Ricardo nunca guardaria aqueles documentos sem uma forma de destruí-los.”
O rádio explodiu em ruído.
Depois ouvi alguém gritar:
“Fogo!”
A ligação com a equipe caiu.
Ao mesmo tempo, a chamada de Camila começou a falhar.
“Camila!”, gritei.
Antes de desaparecer, ela conseguiu dizer apenas uma frase:
“Se quiserem salvar Luísa e seu bebê, encontrem o homem da pulseira azul.”
A ligação morreu.
Olhei para Alexandre.
“Que homem?”
Ele não respondeu.
Seu olhar estava fixo no corredor, através do pequeno vidro da porta.
Um homem de jaleco branco caminhava lentamente em nossa direção.
E preso ao pulso dele havia uma pulseira azul.
**Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.**







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