Nathan não conseguiu responder. Durante trinta e oito anos, acreditara conhecer cada rachadura da própria família. Seu pai, Roberto Vasconcelos, morto quando Nathan tinha vinte e seis anos. Sua mãe, Margarida. O avô Gabriel, cuja disciplina severa havia moldado boa parte de sua infância. Não havia irmão em fotografias, aniversários ou histórias familiares. Ainda assim, aquela anotação permanecia diante dele como uma porta aberta para uma parte da própria vida que alguém deliberadamente escondera.
— Quem é ele?
Margarida se sentou lentamente.
— Rafael.
O nome pareceu despertar uma lembrança distante. Nathan o ouvira quando criança, talvez numa discussão entre os pais. Rafael. Na manhã seguinte perguntara à mãe quem era, e Margarida respondera que devia ter sonhado.
— Rafael Vasconcelos?
— Rafael Vieira.
— Onde ele está?
— Não sei.
Nathan percebeu a mentira imediatamente.
— Depois de tudo que acabou de admitir, ainda vai mentir para mim?
Margarida apertou as mãos.
— Rafael nasceu dois anos antes de você. Seu pai teve um relacionamento antes do nosso casamento.
Nathan sentiu uma mistura desconfortável de alívio e raiva.
— Então ele é filho do meu pai.
Margarida demorou demais para responder.
— Biologicamente, sim.
— E por que comparar o DNA dele com o dos meus filhos?
Margarida levantou-se abruptamente.
— Porque a pessoa que acompanhava Carolina informou que Rafael havia aparecido em Brasília.
Nathan congelou.
— Perto dela?
— Sim.
O pensamento surgiu antes que pudesse evitá-lo. Carolina. Rafael. Os meninos. O teste. A velha desconfiança tentou ocupar novamente o lugar da razão. Mas Nathan a reconheceu dessa vez. Era exatamente o mesmo veneno que destruíra seu casamento.
— O teste confirmou que eles são meus — disse ele.
— Confirmou.
— Então Rafael não tem relação com a paternidade deles.
— Não.
— Por que o advogado queria a comparação?
Margarida permaneceu em silêncio.
Nathan percebeu que ainda havia algo maior escondido ali.
— Eu vou descobrir sozinho.
Ele saiu levando a cópia do exame.
Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, Carolina tentava agir como se aquela tarde fosse comum. Na casa ampla e discreta onde morava no Lago Norte, Gabriel construía uma torre de blocos no tapete, Lucas discutia com Miguel por causa de um carrinho e Marcelo preparava sanduíches na cozinha. Carolina observava os três, mas sua mente continuava no aeroporto.
Ela sabia que Nathan procuraria Margarida.
O que não sabia era quanto Margarida estaria disposta a revelar.
Seu celular vibrou.
Número desconhecido.
“Ele encontrou você?”
Carolina sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
Apagou a tela imediatamente.
Cinco minutos depois, outra mensagem apareceu.
“Precisamos conversar antes que Margarida conte a versão dela.”
Carolina saiu para a varanda e ligou para o número.
— Rafael?
Houve silêncio.
— Faz muito tempo, Carolina.
Ela fechou os olhos.
— Você prometeu que não entraria mais em contato.
— Eu prometi enquanto Nathan estivesse longe dos meninos.
— Ele não está mais.
— Eu sei.
Carolina olhou através da porta de vidro para os filhos.
— O que você quer?
— Impedir que a mesma mentira destrua outra geração.
— Não fale por enigmas.
Rafael respirou fundo.
— Margarida sabe que Nathan vai descobrir quem eu sou. Quando isso acontecer, ela fará de tudo para controlar o que ele descobrir depois.
— Depois?
— Sobre a empresa.
Carolina sentiu o coração acelerar.
— O que a Vasconcelos Energia tem a ver com você?
— Mais do que Nathan imagina.
Antes que pudesse perguntar, Gabriel apareceu junto à porta.
— Mãe?
Carolina desligou rapidamente.
— O que aconteceu, meu amor?
— Tem um homem lá fora.
Ela olhou para a entrada.
Um carro preto estava parado diante do portão.
Nathan.
Carolina sentiu irritação imediata. Ele havia descoberto onde morava em menos de duas horas. Claro que havia. Homens como Nathan estavam acostumados a encontrar qualquer pessoa quando decidiam procurar.
Ela pediu a Marcelo que ficasse com os meninos e saiu.
Nathan aguardava junto ao portão, sem motorista, sem paletó e sem aquela postura arrogante do aeroporto.
— Você falou com ela — disse Carolina.
— Falei.
— Então sabe do teste.
— Sei.
Ela cruzou os braços.
— E?
Nathan demorou alguns segundos.
— Eu sinto muito.
Carolina esperara cinco anos por alguma coisa parecida. Imaginara aquele pedido de desculpas centenas de vezes. Mas ouvi-lo agora não trouxe alívio. Apenas revelou o tamanho do tempo perdido.
— Isso não devolve quatro aniversários.
— Eu sei.
— Nem as noites em que eles ficaram doentes.
— Eu sei.
— Nem a primeira palavra deles.
Nathan abaixou os olhos.
— Eu sei.
Carolina percebeu que ele realmente estava sofrendo, e isso tornou tudo mais difícil.
— O que você quer?
— Conhecê-los.
— Não hoje.
— Carolina...
— Eles acabaram de conhecer um estranho no aeroporto e viram a mãe ficar nervosa perto dele. Não vou transformar a vida deles porque você descobriu uma verdade que sua própria família escondeu.
Nathan assentiu lentamente.
— Então me diga como fazer isso direito.
A pergunta a surpreendeu.
Antes que respondesse, Gabriel apareceu atrás dela. Tinha escapado da supervisão de Marcelo e agora observava Nathan através das grades.
— É o homem do aeroporto.
Nathan se ajoelhou instintivamente para ficar na altura dele, embora o portão ainda os separasse.
— Oi, Gabriel.
— Como você sabe meu nome?
Nathan engoliu em seco.
— Sua mãe falou.
Gabriel estudou seu rosto.
— Você conhece minha mãe?
Nathan olhou para Carolina.
Ela percebeu a pergunta silenciosa. Não lhe concedeu permissão para contar, mas também não o mandou embora.
— Conheço há muito tempo — respondeu Nathan.
Gabriel aproximou o rosto das grades.
— Você parece comigo.
O ar pareceu desaparecer.
Nathan sorriu, mas os olhos ficaram úmidos.
— Também achei.
Carolina tocou o ombro do filho.
— Entre, Gabriel.
O menino obedeceu, mas antes de desaparecer perguntou:
— Você vai voltar?
Nathan olhou para Carolina novamente.
— Só se sua mãe deixar.
Quando Gabriel entrou, Carolina abriu o portão apenas o suficiente para sair.
— Uma visita. Amanhã. Uma hora. Sem imprensa, advogados ou sua mãe.
— Eu estarei aqui.
— E Nathan?
— Sim?
— Se você tentar tirar meus filhos de mim, nunca mais haverá conversa entre nós.
O rosto dele endureceu.
— Eu não faria isso.
Carolina queria acreditar.
Então o celular de Nathan tocou.
Era seu advogado, Eduardo Salles.
Nathan atendeu.
— Agora não, Eduardo.
A resposta do outro lado mudou imediatamente sua expressão.
— Repita.
Carolina observou o rosto dele perder a cor.
— Quem entrou com o pedido?
Silêncio.
— Não autorizei absolutamente nada.
Nathan desligou e ficou olhando para a tela.
— O que aconteceu? — perguntou Carolina.
Ele levantou os olhos.
— Minha mãe entrou com uma ação emergencial em nome da família.
Carolina sentiu o peito apertar.
— Que ação?
Nathan parecia quase envergonhado ao responder.
— Ela está pedindo ao tribunal uma investigação sobre a guarda das crianças.
Carolina ficou imóvel.
Então seu próprio telefone vibrou.
Uma mensagem de Rafael.
Desta vez havia uma fotografia anexada.
Carolina abriu.
Era um documento antigo da Vasconcelos Energia, datado de cinco anos antes. No rodapé apareciam duas assinaturas: Roberto Vasconcelos e Rafael Vieira.
Abaixo da imagem havia apenas uma frase:
“Se Margarida levar isso ao tribunal, você precisa saber por que ela realmente quer os meninos.”
Carolina ampliou o documento.
No centro da página, uma cláusula estava destacada.
Em caso de existência de descendentes biológicos diretos de Nathan Vasconcelos, 31% das ações de controle da Vasconcelos Energia seriam transferidas irrevogavelmente para um fundo em nome deles.
Carolina levantou os olhos para Nathan.
Naquele instante, compreendeu.
Margarida não estava tentando tirar seus filhos dela para proteger Nathan.
Estava tentando controlar os três herdeiros que poderiam tirar dela o controle de um império.







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