Carolina não tocou imediatamente na terceira página. Ficou olhando para a assinatura de Margarida como se aquele nome pudesse mudar se esperasse alguns segundos. Não mudou. Nathan tomou o documento das mãos de Rafael e começou a examiná-lo linha por linha. O registro datava de uma época em que a Vasconcelos Energia ainda funcionava numa sala emprestada em Campinas, quando Carolina passava madrugadas diante de cálculos e protótipos enquanto Nathan procurava investidores. Ela se lembrava perfeitamente de ter preparado os documentos das primeiras patentes. Três dias antes do protocolo oficial, porém, alguém já havia registrado uma versão quase idêntica.
— De onde você tirou isso? — Nathan perguntou.
— Do arquivo particular do nosso pai.
— Por que você tinha acesso ao arquivo dele?
Rafael sustentou seu olhar.
— Porque Roberto me procurou seis meses antes de morrer.
Nathan ficou em silêncio.
Rafael abriu a pasta novamente.
— Ele descobriu o que Margarida havia feito. Não apenas com as patentes. Comigo também. Durante anos, ela fez você acreditar que eu não existia e me fez acreditar que Roberto não queria me reconhecer. Quando ele descobriu, tentou corrigir algumas coisas.
— E decidiu fazer isso escondido?
— Ele tinha medo dela.
Nathan soltou uma risada incrédula.
— Meu pai não tinha medo de ninguém.
— Essa é a versão dele que você conheceu.
Carolina observou os dois. A semelhança era pequena, mas impossível de ignorar agora. Certos gestos, a maneira de apertar a mandíbula quando irritados, até a pausa antes de responder.
— O que isso tem a ver com meus filhos? — perguntou Carolina.
Rafael voltou-se para ela.
— Tudo. A cláusula dos 31% não foi criada para enriquecer os descendentes de Nathan. Foi criada para impedir Margarida de controlar permanentemente a empresa.
Nathan franziu o cenho.
— Explique.
— Roberto descobriu que Margarida havia transferido direitos tecnológicos e participações através de empresas ligadas a pessoas de confiança dela. Se ele simplesmente anulasse tudo, haveria uma guerra judicial. Então criou um mecanismo sucessório. Quando você tivesse filhos biológicos, parte suficiente das ações seria automaticamente colocada num fundo independente.
— Trinta e um por cento — disse Carolina.
— Exatamente. Somados à participação direta de Nathan, esses 31% retirariam de Margarida e dos aliados dela qualquer possibilidade de controle.
Nathan caminhou até a janela.
— Então minha mãe soube dos meninos e ficou em silêncio porque, enquanto eu não reconhecesse oficialmente a paternidade...
— A cláusula poderia permanecer adormecida — completou Rafael.
Carolina sentiu náusea.
Durante anos imaginara que Margarida escondera os netos por preconceito ou obsessão pela reputação da família. A realidade era ainda pior.
— E agora que Nathan descobriu?
— Agora ela precisa controlar quem representa legalmente as crianças — respondeu Rafael.
Nathan virou-se imediatamente.
— A guarda.
Rafael assentiu.
— Se conseguir colocar em dúvida a capacidade de Carolina ou provocar uma disputa prolongada, ela ganha tempo para atacar o fundo antes que a transferência seja concluída.
Carolina apertou os braços contra o corpo.
— Ela está usando meus filhos para proteger ações.
— Sim.
— Então vamos à polícia.
— Com o quê? — Rafael perguntou. — Documentos antigos, uma cláusula societária e suspeitas? Precisamos provar que a ação de guarda faz parte do plano.
Nathan ergueu o exame de DNA.
— Ela admitiu que mandou fazer isso clandestinamente.
— Para você?
— Sim.
— Gravou?
Nathan ficou imóvel.
Não.
Carolina quase perdeu a paciência, mas Rafael continuou:
— Margarida não improvisa. Se entrou com a ação, já preparou alguma coisa.
A lembrança da lista de testemunhas voltou imediatamente.
— André.
Carolina mostrou a Rafael o documento judicial.
Ele leu o nome e sua expressão mudou.
— Você disse que ele morreu.
— Há três anos.
Rafael aproximou a folha.
— Então alguém espera que o tribunal aceite uma declaração anterior dele.
Nathan ligou para Eduardo novamente e exigiu todos os anexos apresentados pela equipe de Margarida. Quinze minutos depois, os documentos chegaram por e-mail. Os três se reuniram à mesa enquanto as crianças brincavam no jardim com Marcelo. Havia relatórios financeiros, fotografias da casa, registros de viagens de Carolina e, finalmente, uma declaração assinada pelo Dr. André Collins cinco anos antes.
Carolina começou a ler.
Na terceira linha, suas mãos começaram a tremer.
Segundo a declaração, André afirmava que Carolina demonstrara “incerteza quanto à identidade paterna” durante o acompanhamento da gravidez.
— Isso é mentira.
Nathan leu novamente.
— A assinatura parece verdadeira?
Carolina aproximou o documento.
— Parece.
Rafael perguntou:
— Ele alguma vez escreveu algo parecido?
— Nunca. André sabia que Nathan era o pai.
Ela parou.
Então se lembrou.
— Espere.
Carolina correu até o escritório. Abriu o cofre e retirou uma caixa que não tocava havia anos. Dentro estavam exames da gravidez, ultrassonografias e correspondências antigas. Encontrou um envelope do consultório de André enviado pouco antes do nascimento dos meninos.
Voltou à sala e abriu.
Havia uma carta.
“Carolina, caso alguém tente questionar futuramente o que discutimos em consulta, mantenha este documento. Houve uma solicitação incomum de acesso ao seu prontuário feita por representantes da família Vasconcelos. Eu a recusei.”
Nathan ficou pálido.
A carta continuava:
“Também descobri que minha assinatura foi reproduzida em um formulário que jamais redigi.”
Rafael olhou para Nathan.
— Ele sabia.
Carolina sentiu lágrimas queimarem os olhos. Durante anos guardara aquela carta sem compreender completamente por que André parecera tão preocupado.
Nathan pegou o celular.
— Isso destrói a declaração da minha mãe.
— Talvez — disse Rafael. — Mas precisamos do prontuário original.
Carolina sabia onde estava arquivado. Após a morte de André, os registros de seus pacientes haviam sido transferidos para uma clínica particular em Brasília.
Nathan telefonou para Eduardo e pediu que providenciasse uma solicitação urgente.
Foi então que Marcelo entrou pela porta dos fundos.
Seu rosto estava estranho.
— Doutora Carolina?
— O que foi?
Ele entregou um pequeno envelope.
— Encontrei isso preso no para-brisa do Bentley.
Não havia remetente.
Carolina abriu.
Dentro estava uma fotografia recente de Gabriel, Lucas e Miguel saindo da escola.
No verso, uma frase havia sido escrita à mão:
“Parem de procurar os registros do Dr. Collins.”
Nathan tomou a fotografia, furioso.
— Quem deixou isso?
— Não vi ninguém — respondeu Marcelo.
Rafael permaneceu assustadoramente quieto.
Carolina percebeu.
— Você reconheceu a letra.
Ele não respondeu.
— Rafael.
Nathan também o encarou.
Finalmente, Rafael tirou do bolso uma velha carta e colocou-a ao lado da fotografia.
A caligrafia era praticamente idêntica.
— Recebi isto há quatro anos — disse ele.
Nathan abriu a carta.
Havia apenas duas linhas.
“Fique longe de Carolina e das crianças. Seu silêncio continua sendo a única razão pela qual eles estão seguros.”
Nathan levantou os olhos.
— Foi minha mãe?
Rafael balançou lentamente a cabeça.
— É isso que eu acreditava.
— E agora?
Rafael apontou para uma pequena característica na letra “R”, repetida nos dois textos.
— Agora sei que estava errado.
Carolina sentiu um arrepio.
— Então quem escreveu?
Rafael demorou alguns segundos antes de responder.
— Eduardo Salles.
Nathan empalideceu.
Seu advogado.
O homem que administrara seu divórcio.
O homem cujo nome aparecia no teste clandestino.
E o mesmo homem que, naquele exato momento, estava providenciando acesso ao único prontuário capaz de provar que alguém falsificara a declaração do Dr. André Collins.







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