“Fechem todas as saídas”, ordenou Renata imediatamente.
Os policiais se espalharam pela casa.
Yasmin levantou a cabeça.
“Por quê? O que aconteceu?”
A inspetora não respondeu.
“Alana, descreva a pasta.”
“Cor de vinho. Couro. Tinha as iniciais A.D. gravadas na parte interna.”
Renata falou no rádio.
“Procurem uma pasta de couro vinho. Ninguém sai da propriedade até encontrarmos.”
Meu pai soltou uma risada curta, ainda algemado.
“Isso está ficando patético.”
Olhei para ele.
Era uma provocação.
Marcelo sempre fazia aquilo quando queria que eu reagisse emocionalmente.
Dessa vez, permaneci em silêncio.
A paramédica começou a imobilizar meu braço.
A dor era tão forte que minha visão escureceu por alguns segundos.
“Precisamos levá-la ao hospital”, disse ela.
“Eu vou”, respondi. “Mas preciso saber onde está aquela pasta.”
Renata se aproximou.
“Os documentos que estavam dentro dela eram originais?”
“Alguns, sim.”
“Quais?”
“O testamento original da minha avó não. Ana nunca permitiria que eu carregasse aquilo sozinha. Mas havia cópias autenticadas, escrituras e uma carta que Abigail deixou para mim.”
Meu pai ergueu os olhos.
Por um segundo, vi algo diferente em seu rosto.
Não medo da polícia.
Medo da carta.
Renata também percebeu.
“Que carta?”
“Eu ainda não tinha aberto.”
Marcelo se mexeu de repente.
“Isso não tem nada a ver com essa história.”
Renata virou a cabeça lentamente.
“Curioso. Ela nem explicou o conteúdo.”
Ele se calou.
Meu coração bateu mais forte.
Minha avó havia me entregue aquela carta duas semanas antes de morrer.
Tinha dito apenas:
“Abra quando Marcelo tentar tomar aquilo que é seu.”
Na época, achei que ela estivesse falando apenas da herança.
Agora eu já não tinha certeza.
Um policial voltou do corredor.
“Nada nos quartos.”
Outro apareceu vindo da cozinha.
“Nem na parte dos fundos.”
Giovana cruzou os braços.
“Talvez ela tenha escondido e esteja fazendo isso para piorar as coisas.”
“Eu estava caída no chão quando vocês chegaram”, respondi.
“Você planejou tudo!”
“Eu planejei ser protegida. Quem planejou me espancar foram vocês.”
Ela desviou os olhos.
Renata fez sinal para que outro agente recolhesse o celular dela.
“Vamos preservar o aparelho.”
Giovana segurou o telefone com força.
“Não.”
“Você estava gravando uma possível agressão e ameaça. O conteúdo pode ser relevante.”
“Esse celular é meu!”
Renata estendeu a mão.
“Entregue.”
Giovana hesitou por tempo demais.
Meu pai falou:
“Faça o que ela está mandando.”
Giovana olhou para ele.
Foi um erro pequeno.
Mas claro.
Renata estreitou os olhos.
“Por que você não quer entregar o aparelho?”
“Nada a ver.”
“Então entregue.”
Quando o policial se aproximou, Giovana desbloqueou o celular rapidamente.
Eu vi o movimento.
“Ela está apagando alguma coisa!”
O agente segurou a mão dela.
“Pare agora.”
“Me solta!”
O telefone caiu no sofá.
Na tela, ainda aberta, havia uma conversa.
O nome no topo era apenas:
**R. Farias.**
Giovana tentou alcançar o aparelho.
Renata foi mais rápida.
“Quem é R. Farias?”
“Ninguém.”
Yasmin empalideceu.
Meu pai fechou os olhos por meio segundo.
Outra vez, rápido demais para parecer natural.
Renata viu.
“Senhor Marcelo?”
“Não conheço.”
“Interessante.”
Ela pegou o aparelho sem mexer na tela.
“Então vamos descobrir.”
A paramédica tentou me conduzir para a maca.
“Alana, precisamos ir.”
Antes que eu respondesse, uma voz veio da entrada.
“Ela não pode sair daqui sem mim.”
Reconheci imediatamente.
Ana Breno atravessou a porta acompanhada por outro policial.
O cabelo estava desarrumado, e ela segurava uma pasta preta junto ao corpo.
Quando me viu, parou.
Seus olhos desceram até meu braço.
Por um instante, toda a firmeza desapareceu de seu rosto.
“Meu Deus.”
“Estou bem.”
“Não está.”
Ela veio até mim e segurou minha mão esquerda.
“Mas está viva. Isso é o que importa.”
Marcelo riu.
“Chegou a arquiteta.”
Ana olhou para ele.
“Não. A testemunha do planejamento sucessório da sua mãe.”
A sala ficou em silêncio.
Ana se virou para Renata.
“A investigação patrimonial que mencionei no alerta já vinha reunindo informações há quase quatro meses.”
Yasmin parou de chorar.
“Que investigação?”
Ana abriu a pasta preta.
“Abigail suspeitava que Marcelo estivesse tentando movimentar bens que nunca pertenceram a ele.”
Meu pai soltou um palavrão.
Ana continuou.
“Ela documentou tentativas de falsificação, consultas irregulares a cartórios e contatos feitos com profissionais dispostos a declarar Alana incapaz.”
Lembrei-me das palavras dele.
Um psiquiatra amigo meu vai declarar que você não tem capacidade mental.
A mesma ameaça.
Não tinha sido improvisada.
Renata olhou para Marcelo.
“Então o senhor já vinha preparando isso.”
“Essa mulher está mentindo.”
Ana tirou um envelope.
“Não estou.”
Antes que pudesse dizer mais, um policial apareceu na porta que dava para a garagem.
“Encontramos alguma coisa.”
Todos olharam para ele.
“Um veículo tentou sair pelo portão de serviço quando a primeira viatura entrou.”
Renata ficou imóvel.
“Quem estava dirigindo?”
“O caseiro, Paulo.”
Meu pai abaixou os olhos.
O policial continuou:
“Ele abandonou o carro perto do depósito e fugiu a pé.”
Meu estômago afundou.
“E a pasta?”
“Não estava no carro.”
Ana respirou devagar.
“Marcelo.”
Meu pai permaneceu em silêncio.
“Para quem você mandou entregar os documentos?”
Ele sorriu pela primeira vez desde que fora algemado.
Não era o sorriso de alguém inocente.
Era o sorriso de alguém que ainda acreditava ter uma carta escondida.
“Vocês estão procurando a coisa errada.”
Ana ficou rígida.
“O que você fez?”
“Pergunte à minha mãe.”
A frase me atingiu como gelo.
“Ela morreu.”
“Exatamente.”
Ana se virou para mim.
“Alana, a segunda cláusula não protege apenas a herança.”
“Então o que ela protege?”
Ana hesitou.
Foi a primeira vez que vi medo verdadeiro nela.
“Uma prova que Abigail escondeu anos atrás.”
Marcelo começou a rir.
“Agora está entendendo, filha?”
Ana apertou minha mão.
“Precisamos chegar ao cartório antes de quem estiver com aquela pasta.”
“Por quê?”
Ela me encarou.
“Porque a assinatura que você acabou de dar ativou a última etapa do plano da sua avó.”
E naquele momento compreendi que Abigail não tinha preparado apenas uma armadilha para impedir que roubassem meus bens.
Ela havia deixado algo capaz de destruir tudo o que meu pai passou anos tentando esconder.
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







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