“Que última etapa?”, perguntei.
Ana olhou para meu braço imobilizado e depois para Renata.
“Primeiro ela precisa ir ao hospital.”
“Não”, respondi. “Primeiro eu preciso saber por que meu pai está sorrindo.”
Marcelo apoiou as costas na parede, ainda algemado.
“Porque vocês continuam acreditando que Abigail era mais inteligente do que eu.”
Ana caminhou até ele.
“Ela era.”
O sorriso dele desapareceu.
Ana abriu a pasta preta e retirou uma cópia autenticada do testamento.
“Meses antes de morrer, Abigail acrescentou uma cláusula de proteção patrimonial. Se alguém tentasse obter a assinatura de Alana por ameaça, violência, incapacidade fraudulenta ou coerção, todos os atos de transferência realizados naquele contexto seriam imediatamente contestados.”
Yasmin soltou uma risada nervosa.
“Isso não prova que houve coerção.”
Ana apontou para meu broche.
“Temos vídeo.”
Depois apontou para o celular de Giovana.
“E provavelmente temos outro.”
Giovana desviou os olhos.
Ana continuou:
“Mas Abigail foi além. Ela sabia que Marcelo poderia tentar apresentar os papéis antes que Alana conseguisse reagir.”
Meu pai ficou sério.
“Cuidado com o que vai dizer.”
Ana não recuou.
“A assinatura de Alana tem uma marca de segurança.”
Olhei para ela.
“Marca?”
“Você se lembra do exercício que Abigail fez você repetir no escritório?”
Então entendi.
Meses antes, minha avó havia pedido que eu assinasse meu nome de duas maneiras diferentes.
Na ocasião, achei estranho.
A diferença era quase invisível.
Quando eu assinava normalmente, o último traço do ‘A’ terminava para cima.
Na assinatura de emergência, ele terminava para baixo e passava discretamente sob a última letra do sobrenome.
Minha avó havia guardado aquilo em ata notarial.
Se aquela versão aparecesse em qualquer documento patrimonial, significava uma coisa:
**coação.**
Olhei para Marcelo.
“Foi por isso que ela me fez treinar.”
Ana assentiu.
“E foi por isso que sua assinatura de hoje não transferiu nada.”
O rosto de Yasmin mudou.
“Como assim?”
“Assim que o sistema de emergência registrou o vídeo, enviei a ata e o alerta aos cartórios relacionados aos imóveis.”
Marcelo se lançou para a frente, mas o policial que o segurava o puxou de volta.
“Você não tinha autorização!”
“Eu tinha autorização da sua mãe.”
“Ela está morta!”
“E o mandato sucessório continua válido para proteger a beneficiária.”
Pela primeira vez desde que a polícia entrou, meu pai pareceu verdadeiramente assustado.
Ana virou-se para mim.
“Os prédios, a casa de Atibaia e a fazenda estão sob bloqueio preventivo de transferência até que a situação seja analisada.”
Yasmin deixou escapar:
“Não pode ser.”
Giovana olhou para a mãe.
“Você disse que estava tudo garantido.”
Yasmin virou-se para Marcelo.
“Você disse que, depois que ela assinasse, ninguém conseguiria impedir.”
“Cala a boca.”
“Você disse que o cartório já estava resolvido!”
Renata levantou a mão.
“Repita isso.”
Yasmin percebeu o que havia feito.
“Eu... eu não quis dizer...”
“Qual cartório estava ‘resolvido’?”
“Não sei.”
“Quem disse isso?”
Yasmin não respondeu.
Renata olhou para Marcelo.
Ele encarou a esposa com ódio.
Ana respirou fundo.
“Agora entende por que precisamos encontrar a pasta? Ela contém uma cópia da ata e uma carta de Abigail. Quem a roubou provavelmente está tentando descobrir o que mais ela documentou.”
“E o que mais ela documentou?”, perguntei.
Ana hesitou.
Marcelo falou antes dela.
“Conta para ela.”
A voz dele estava baixa.
“Já que chegaram tão longe, conta tudo.”
Ana me encarou.
“Há oito anos, Abigail percebeu que valores estavam desaparecendo das empresas que administravam os imóveis da família.”
Meu estômago apertou.
“Quanto?”
“Ela nunca conseguiu calcular o total.”
“Quanto, Ana?”
“Milhões.”
Giovana ficou imóvel.
Yasmin olhou para Marcelo.
“Você disse que aquele dinheiro vinha dos seus investimentos.”
“Não começa.”
Ana colocou sobre a mesa algumas cópias bancárias.
“Abigail acreditava que Marcelo usava empresas intermediárias para desviar receitas de aluguel e criar dívidas falsas em nome das holdings familiares.”
Meu pai riu.
“Ela acreditava. Isso não é prova.”
“Não.”
Ana retirou outro documento.
“Mas isto é.”
Renata se aproximou.
Era uma cópia de um contrato antigo.
Reconheci imediatamente a assinatura da minha avó.
Ou algo que parecia a assinatura dela.
Ana apontou para a data.
“Naquele dia, Abigail estava internada após uma cirurgia.”
Meu pai ficou em silêncio.
“Esse documento foi usado para autorizar uma operação de crédito de quase quatro milhões de reais.”
Olhei novamente para a assinatura.
“Foi falsificada.”
“Abigail acreditava que sim.”
“Por ele?”
Ana não respondeu diretamente.
“A investigação estava tentando provar quem preparou os documentos, quem os apresentou e para onde o dinheiro foi.”
Marcelo soltou uma risada amarga.
“Vocês não têm nada.”
Ana o encarou.
“Temos mais do que você imagina.”
O telefone de Renata tocou.
Ela atendeu e se afastou alguns passos.
Enquanto isso, dois paramédicos insistiam que eu precisava ser levada.
Minha dor estava piorando, mas já não conseguia pensar nela.
Tudo que eu conhecia sobre minha família começava a mudar.
Eu sempre soubera que meu pai era ganancioso.
Não sabia que minha avó passara anos reunindo provas contra ele.
Renata desligou.
“Encontraram Paulo.”
Marcelo levantou a cabeça.
“Onde?”
“Numa estrada de terra atrás da propriedade.”
“E a pasta?”
Renata me olhou.
“Não estava com ele.”
Ana fechou os olhos.
“Ele falou alguma coisa?”
“Disse que recebeu uma ordem para entregar a pasta a uma pessoa que o aguardava num posto de combustível.”
Meu pai permaneceu imóvel.
Renata continuou:
“Paulo afirma que não conhecia essa pessoa. Só recebeu um nome.”
Yasmin estava pálida.
“Qual?”
Renata consultou o celular.
“Rogério Farias.”
Olhei imediatamente para o aparelho de Giovana.
**R. Farias.**
Renata também.
“Agora sabemos quem é o contato.”
Giovana começou a chorar.
“Eu não fiz nada.”
“Você estava conversando com ele?”, perguntou Renata.
“Eu só mandava mensagens.”
“Sobre o quê?”
“Coisas da família.”
“Que tipo de coisas?”
Ela olhou para Marcelo.
Ele fez um movimento quase imperceptível com a cabeça.
Não.
Eu vi.
“Renata”, falei. “Ele está mandando ela ficar calada.”
“Eu não fiz nada!”, Marcelo gritou.
Mas Giovana já estava tremendo.
“Mãe...”
Yasmin virou o rosto.
“Não me coloca nisso.”
Giovana começou a respirar rápido.
“Eu não sabia que ele ia machucar a Alana daquele jeito.”
Meu coração parou por um instante.
Renata ficou completamente imóvel.
“Quem é ‘ele’?”
Giovana percebeu tarde demais.
“Meu pai.”
“E o que você sabia que aconteceria?”
“Nada.”
“Você acabou de dizer que não sabia que ele iria machucá-la ‘daquele jeito’. Então esperava que alguma coisa acontecesse.”
“Eu quis dizer...”
“Giovana.”
A voz de Renata estava calma.
“Este é o momento de pensar muito bem antes de continuar protegendo alguém que talvez esteja disposto a deixar toda a culpa com você.”
Giovana olhou para Marcelo.
Ele não parecia um pai olhando para a filha.
Parecia um homem avaliando um risco.
Foi isso que a fez ceder.
“Rogério cuidava dos documentos.”
Marcelo fechou os olhos.
Yasmin sussurrou:
“Meu Deus.”
“Que documentos?”, perguntou Renata.
Giovana começou a chorar de verdade.
“Os que precisavam parecer assinados por outras pessoas.”
Ninguém falou.
Ana apertou minha mão.
O centro de toda a história acabava de mudar.
Aquele não era mais apenas um caso sobre minha herança.
Meu pai podia estar ligado a anos de falsificações.
E minha meia-irmã acabara de entregar o primeiro nome capaz de provar isso.
Renata falou ao rádio:
“Localizem Rogério Farias imediatamente.”
Ana se aproximou de mim.
“Agora você vai para o hospital.”
Dessa vez, não discuti.
Quando me colocaram na maca, passei por Marcelo.
Ele me encarou com um ódio que eu conhecia desde criança.
Mas agora havia outra coisa por trás dele.
Pânico.
Inclinei-me o pouco que consegui na direção dele.
“Vovó sabia.”
Seu maxilar se contraiu.
“Você não sabe metade do que pensa que sabe.”
Talvez ele tivesse razão.
Mas enquanto a ambulância me levava para fora daquela casa, compreendi algo que mudou tudo.
Até aquele momento, eu só queria impedir que roubassem minha herança.
Agora eu queria descobrir quantas pessoas meu pai havia enganado para construir a vida que sempre apresentou como sua.
E, pela primeira vez, eu não estava esperando que alguém me salvasse.
Eu iria atrás da verdade.
**Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.**







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