Sofia ficou olhando para a fotografia como se o quarto tivesse desaparecido ao redor dela.
— Esse envelope estava no meu cofre — disse, quase sem voz. — Javier não sabia a combinação.
Alexandre não desviou os olhos da tela.
— Tem certeza?
— Absoluta. Eu nunca contei.
— Então alguém abriu o cofre sem precisar da combinação.
Ela me encarou.
— Mãe...
Eu já estava pensando na mesma coisa.
— Quem mais entrou no seu apartamento nos últimos meses?
Sofia respirou com dificuldade.
— A diarista. O técnico do ar-condicionado. Javier, claro. E... Carmen foi lá duas vezes.
Alexandre ergueu a cabeça.
— Sozinha?
— Uma vez comigo. Outra vez Javier estava lá.
— Quando?
— Mais ou menos um mês atrás.
O silêncio que se seguiu pareceu pesado demais para o quarto.
Alexandre entregou meu celular de volta.
— Não responde nada.
— Eles sabem que ela está comigo — falei.
— Provavelmente. Mas ainda não sabem o que vamos fazer.
Sofia apertou a manta contra o corpo.
— O que vamos fazer?
Alexandre respondeu sem hesitar.
— Primeiro, preservar tudo. Depois, descobrir até onde isso vai.
Ele pediu que eu encaminhasse as mensagens para o e-mail dele e para um endereço seguro. Fotografou a tela com o próprio celular, registrando horário, número remetente e conteúdo. Em seguida, orientou Sofia a escrever, enquanto ainda lembrava, tudo o que acontecera desde que deixara a festa.
Não apenas a agressão.
Tudo.
Quem estava no quarto. O que cada mulher dizia. Onde estavam posicionadas. O que Carmen exigia. O que Javier falou do lado de fora. Qual porta Sofia usou para escapar.
No início, ela mal conseguia segurar a caneta.
Depois, alguma coisa mudou.
A cada linha, o medo começou a adquirir forma.
E coisas com forma podem ser enfrentadas.
Às cinco e meia da manhã, uma policial civil entrou na sala acompanhada de outra agente. Falava baixo, sem pressa, e pediu que Sofia contasse a história com suas próprias palavras.
Alexandre ficou em silêncio durante quase todo o depoimento.
Quando Sofia descreveu as seis mulheres, a policial perguntou:
— Conhecia alguma delas?
— Duas eram tias do Javier. Uma era madrinha dele. As outras eu tinha visto na festa.
— Alguma tentou impedir a agressão?
Sofia soltou uma risada quebrada.
— Elas me seguraram.
A policial anotou.
— E havia alguma discussão sobre bens antes do casamento?
Eu respondi dessa vez.
— Muitas.
A agente olhou para mim.
— Que tipo de bens?
— Dinheiro, joias, garantias. Mas principalmente o apartamento da Sofia.
Quando mencionamos o documento fotografado e o envelope retirado do cofre, a expressão da policial mudou.
— Vocês têm advogado?
Alexandre respondeu:
— Teremos um em poucas horas.
A policial inclinou a cabeça.
— Não demorem. Isso pode ser mais do que violência doméstica.
Quando ela saiu, Sofia me olhou.
— O que ela quis dizer?
Alexandre pegou o copo de café que já estava frio.
— Que, se falsificaram documentos para tomar seu imóvel, existe uma fraude patrimonial por trás disso.
— Mas por que fazer tudo isso por um apartamento?
Eu ia responder que ganância não precisava de lógica quando Alexandre me interrompeu.
— Talvez não seja só pelo apartamento.
Ele perguntou a Sofia se Javier já havia demonstrado interesse por outros bens.
Ela pensou.
— Ele perguntava sobre a empresa do meu avô.
Meu corpo enrijeceu.
— Qual empresa?
— A Ribeiro Urbanismo.
Eu senti o sangue fugir do rosto.
Alexandre percebeu imediatamente.
— Helena?
Sofia olhou para mim.
— Mãe, o que foi?
Durante anos, eu havia evitado falar sobre aquele assunto porque parecia pertencer a uma vida antiga.
Meu pai fundara a Ribeiro Urbanismo ainda na década de oitenta. Depois de sua morte, parte das quotas havia sido distribuída entre herdeiros e parte permanecera vinculada a uma holding familiar.
Sofia nunca participara da administração.
Mas possuía participação.
Pequena o bastante para parecer irrelevante.
Grande o bastante para valer milhões.
— Javier sabia disso? — perguntou Alexandre.
— Acho que sim — respondi. — Apareceu no inventário do meu pai.
Sofia franziu a testa.
— Javier perguntou uma vez quanto valia minha participação.
— E o que você disse?
— Que eu não fazia ideia.
Alexandre pousou o café.
— Talvez ele fizesse.
Duas horas depois, enquanto Sofia era levada para fazer uma tomografia, Alexandre e eu ficamos sozinhos no corredor.
Foi a primeira vez em dez anos que estivemos lado a lado sem nossa filha entre nós.
— Você sabia alguma coisa sobre a família Robles? — perguntei.
— Não antes de hoje.
— Você chegou muito rápido.
Ele me lançou um olhar curto.
— Eu moro a quinze minutos daqui.
Aquilo me surpreendeu.
— Você mora em São Paulo?
— Há seis meses.
— Sofia não sabia.
— Eu sei.
Havia uma história inteira naquela resposta, mas aquela não era a noite para abri-la.
O celular dele tocou.
Alexandre atendeu e falou por menos de um minuto.
Quando desligou, sua expressão havia mudado.
— O que aconteceu?
— Pedi a um antigo colega para verificar informações públicas sobre a Robles Participações.
— E?
Ele me mostrou a tela.
A empresa tinha sido criada oito meses antes.
Sócios: Carmen Robles e Javier Robles.
Capital social modesto.
Atividade declarada: gestão patrimonial.
— Isso não prova nada — falei.
— Ainda não.
Ele rolou a página.
Havia três alterações contratuais recentes.
Na mais nova, registrada apenas quatro dias antes do casamento, a empresa passara a admitir integralização de capital por bens imóveis e participações societárias.
Senti um calafrio.
— Eles prepararam isso antes.
— Parece.
Quando Sofia voltou dos exames, contamos apenas o necessário.
Ela permaneceu em silêncio.
Depois perguntou:
— Posso ver o documento de novo?
Entreguei o celular.
Ela ampliou a fotografia da suposta cessão.
Ficou olhando para a própria assinatura por vários segundos.
Então congelou.
— Espera.
— O quê? — perguntei.
Ela ampliou ainda mais.
— Aqui embaixo.
Havia uma rubrica quase cortada pela borda da fotografia.
Sofia levou os dedos aos lábios.
— Eu conheço essa rubrica.
Alexandre se aproximou.
— De quem é?
Ela me olhou com uma expressão que misturava confusão e medo.
— Do pai do Javier.
— Ernesto?
— Sim.
Eu tinha visto Ernesto Robles apenas algumas vezes. Um homem quieto, educado demais, sempre dizendo que preferia ficar fora das decisões da esposa.
Sofia continuou:
— Javier sempre dizia que o pai não se envolvia em negócios. Que Carmen cuidava de tudo porque Ernesto estava praticamente afastado.
Alexandre aproximou a imagem.
— Essa rubrica aparece como testemunha.
Sofia balançou a cabeça.
— Tem mais.
Ela respirou fundo.
— Duas semanas atrás, quando assinei aqueles papéis no escritório do advogado, Ernesto estava lá.
Meu coração acelerou.
— Por quê?
— Javier disse que ele só tinha ido cumprimentar o advogado.
— Ele viu você assinar?
— Viu.
Alexandre ficou imóvel.
— Então ele pode saber exatamente o que colocaram na sua frente.
Sofia baixou o celular.
— Meu sogro sabe.
Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa, o telefone dela, que acreditávamos estar no hotel, apareceu conectado à conta digital no tablet de Alexandre.
Uma sincronização automática recuperou as últimas mensagens recebidas antes de o aparelho ser desligado.
Havia uma conversa de Javier com um contato salvo apenas como “Pai”.
A última mensagem enviada naquela noite dizia:
“Ela não quis cooperar. Minha mãe vai resolver. Depois apagamos o resto.”
E a resposta de Ernesto, enviada dois minutos depois, era ainda pior:
“Não façam nada antes de eu recuperar o documento original.”







No comments yet