— Sim.
Aquela única palavra caiu entre nós com mais peso do que qualquer explicação.
Sofia ficou olhando para Alexandre como se tivesse acabado de descobrir que o pai também fazia parte de uma história que todos haviam escondido dela.
— Há quanto tempo? — perguntou.
— Seis meses.
— Desde que voltou para São Paulo?
— Foi por isso que voltei.
Ela recuou um passo.
— Você sabia que Javier estava atrás de mim?
— Eu suspeitava.
— E não me contou?
Alexandre respirou fundo.
— Porque eu não sabia até onde ia. E porque, depois de dez anos afastado, eu sabia exatamente como pareceria se aparecesse dizendo que o homem com quem você ia se casar fazia parte de um esquema contra você.
— Pareceria o quê?
— Que eu estava tentando controlar sua vida.
Sofia soltou uma risada amarga.
— Então você decidiu me proteger sem que eu soubesse.
Alexandre não tentou se defender.
— Sim.
— E funcionou muito bem.
A frase atingiu em cheio.
Ele baixou os olhos.
Eu me aproximei dela.
— Sofia...
— Não, mãe. Eu quero ouvir tudo.
Alexandre abriu a velha jaqueta militar e retirou do bolso interno um pequeno pendrive.
— Três meses atrás, Beatriz entrou em contato comigo.
— Por quê?
— Porque alguém protocolou uma cessão preliminar das suas quotas usando documentos incompletos. Ela estranhou porque havia uma cópia de identidade antiga e uma assinatura que não correspondia ao padrão mais recente.
Sofia olhou para o pendrive.
— E você começou a investigar.
— Sim.
— Javier?
— Primeiro Mauricio Varela.
O nome fez o ambiente endurecer.
— Descobri que o escritório dele já aparecia ligado a duas disputas patrimoniais envolvendo casamentos, procurações e transferências contestadas.
— E Carmen?
— Veio depois.
Alexandre conectou o pendrive ao notebook.
Dentro havia pastas organizadas por datas.
Fotografias.
Registros empresariais.
Cópias de processos.
Extratos de cartórios.
E dezenas de imagens de Javier.
Sofia empalideceu.
— Você seguiu ele?
— Em alguns momentos.
— Pai...
— Eu precisava saber se estava errado.
Ele abriu uma fotografia.
Javier saía do escritório de Mauricio.
Outra.
Javier encontrava Carmen num restaurante.
Outra.
Ernesto entrava sozinho num estacionamento subterrâneo.
E então surgiu uma imagem diferente.
Javier abraçando uma mulher morena diante de um prédio comercial.
Sofia ficou imóvel.
— Quem é ela?
Alexandre não respondeu de imediato.
— O nome dela é Camila Duarte.
— E quem é?
— A ex-noiva de Javier.
Sofia piscou.
— Ex-noiva?
— Ele nunca te contou?
Ela negou.
Alexandre abriu um documento.
— Eles ficaram noivos quatro anos atrás.
Meu coração apertou.
— O que aconteceu?
— O noivado terminou seis semanas antes do casamento.
Sofia não conseguia desviar os olhos da fotografia.
— Por quê?
Alexandre abriu outra pasta.
— Porque Camila denunciou Javier por tentativa de fraude patrimonial.
Ninguém falou.
Sofia se sentou lentamente.
— Então eu não fui a primeira.
— Não.
A verdade doeu justamente porque explicava demais.
Alexandre mostrou cópias de um processo arquivado.
Camila afirmara que Javier tentara convencê-la a transferir uma sala comercial para uma empresa familiar. Quando ela recusou, começaram ameaças, chantagens e pressão de parentes.
— E Carmen? — perguntei.
— Foi citada informalmente, mas não denunciada. Camila retirou parte das acusações.
— Por quê?
— Medo.
Sofia apertou a mandíbula.
— Ela está viva?
— Sim.
— Você falou com ela?
Alexandre assentiu.
— Há duas semanas.
Sofia levantou-se de repente.
— Duas semanas?
— Ela confirmou quase tudo.
— E você ainda deixou o casamento acontecer?
Alexandre recebeu a acusação sem fugir.
— Camila não tinha provas suficientes. Eu tinha suspeitas, documentos incompletos e uma operação antiga bloqueada. Nada que me permitisse impedir você.
— Você podia ter me contado!
— Podia.
— Então por que não contou?
A resposta demorou.
— Porque você me odiava.
Sofia ficou em silêncio.
— E eu achei que, se viesse de mim, você defenderia Javier.
Ela respirou como se tivesse levado outro golpe.
Eu conhecia bem demais aquela parte da história.
Nos anos depois do divórcio, Sofia acreditara que Alexandre escolhera a carreira em vez da família. Ele quase nunca explicava nada. A distância se transformara em ressentimento.
Agora aquele silêncio antigo cobrava seu preço.
Sofia limpou o rosto.
— Quero falar com Camila.
Alexandre pegou o telefone.
— Ela concordou em falar, se chegasse o momento.
— O momento chegou.
A videochamada foi feita dali mesmo, com autorização do investigador.
Camila apareceu com o rosto tenso.
Quando viu Sofia machucada, levou a mão à boca.
— Meu Deus.
Sofia não perdeu tempo.
— Javier fez isso com você também?
Camila balançou a cabeça.
— Ele nunca me bateu.
— Carmen?
Ela hesitou.
— Ela mandou duas mulheres me seguirem. Depois me trancaram numa sala durante uma festa de família e disseram que eu sairia de lá quando assinasse.
Sofia fechou os olhos.
O padrão.
De novo.
— Você assinou?
— Não. Eu consegui mandar minha localização para uma amiga.
— E por que retirou a denúncia?
Camila olhou para baixo.
— Porque ameaçaram meu irmão.
Silêncio.
Então Camila disse:
— Tem mais uma coisa que seu pai talvez ainda não saiba.
Alexandre se inclinou.
— O quê?
— Javier não escolhia as mulheres sozinho.
— Carmen escolhia — disse Sofia.
Camila negou.
— Não exatamente.
Ela desapareceu da tela por alguns segundos e voltou com uma fotografia antiga.
Colocou diante da câmera.
Era Carmen, mais jovem.
Ernesto.
Mauricio.
E um quarto homem.
Meu corpo inteiro gelou.
Eu conhecia aquele rosto.
— Não pode ser — sussurrei.
Sofia virou para mim.
— Quem é?
A fotografia tinha pelo menos vinte anos.
O homem estava ao lado de Carmen segurando uma pasta da Ribeiro Urbanismo.
Eu conhecia aquele terno.
Conhecia aquele relógio.
Conhecia aquele sorriso.
Era meu irmão mais velho.
Ricardo Ribeiro.
O homem que todos acreditávamos ter morrido em um acidente de carro quinze anos antes.
Camila continuou:
— Encontrei essa foto entre documentos que Javier esqueceu comigo.
Minha boca ficou seca.
— Ricardo morreu.
— Talvez — disse Alexandre, olhando para a foto. — Mas isso não é o pior.
Ele ampliou o canto inferior.
Havia uma data escrita à mão.
Onze anos atrás.
Quatro anos depois da suposta morte de Ricardo.
Sofia ficou branca.
— Então ele estava vivo.
Alexandre abriu outro arquivo do pendrive.
— E há seis meses alguém usando uma identidade vinculada a Ricardo acessou registros societários antigos da Ribeiro Urbanismo.
Meu coração disparou.
— Você sabia disso?
— Descobri ontem.
— Por que não falou?
— Porque ainda estava tentando confirmar.
O investigador recebeu uma mensagem no celular e ficou imóvel.
— Acho que acabou de confirmar.
Virou a tela para nós.
A polícia localizara Ernesto.
Ele havia se apresentado voluntariamente em uma delegacia.
E entregado um envelope lacrado.
Dentro havia uma gravação recente.
Na transcrição preliminar, Carmen dizia:
“Quando a Sofia perder as quotas, Ricardo finalmente recebe a parte que prometemos em 1998.”
Eu parei de respirar.
Sofia me encarou.
— Mãe... o tio Ricardo estava por trás disso?
Antes que eu respondesse, o investigador continuou lendo.
Então sua expressão mudou.
— Há uma segunda voz na gravação.
— De quem? — perguntou Alexandre.
Ele levantou os olhos.
— De Javier.
E leu a última frase em voz alta:
— “Depois da transferência, não vamos mais precisar manter Sofia viva.”







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