Sofia não chorou quando viu o nome da Robles Participações na tela.
Aquilo me assustou mais do que as lágrimas.
Ela apenas ficou imóvel, olhando para a notificação bancária como se finalmente tivesse encontrado o centro exato da armadilha.
— Eles nunca quiseram só o apartamento — disse.
Alexandre assentiu.
— O apartamento era a porta de entrada.
O investigador pegou o celular da minha mão e fotografou a tela.
— Não mexam em nada. Vamos verificar o protocolo da operação.
Sofia levantou os olhos.
— Eu quero saber como fizeram isso.
— Vamos descobrir.
— Não. — A voz dela ficou firme. — Quero saber agora.
Foi a primeira vez que ouvi minha filha falar daquele jeito desde que aparecera à minha porta.
Sem pedir proteção.
Sem pedir permissão.
Ela abriu o notebook, acessou sua caixa de e-mails e procurou pelo nome da Ribeiro Urbanismo. Encontrou mensagens administrativas, convocações, relatórios anuais que quase nunca lia.
Então parou.
— Aqui.
Havia um e-mail recebido seis meses antes.
“Atualização cadastral de acionistas.”
O remetente parecia pertencer à própria empresa.
Sofia abriu.
— Javier estava comigo quando respondi isso.
Alexandre se aproximou.
— O que você enviou?
— Cópias dos meus documentos. Comprovante de endereço. Assinatura digitalizada.
Meu estômago afundou.
— Você falou com alguém da empresa?
— Não. Javier disse que era procedimento normal.
O investigador verificou o cabeçalho da mensagem.
Demorou menos de um minuto para notar.
— O domínio é parecido, mas não é o oficial.
Sofia empalideceu.
Uma letra havia sido trocada.
Quase imperceptível.
Um endereço falso.
— Phishing direcionado — disse o policial. — Eles queriam seus documentos.
Alexandre apertou os lábios.
— E sua assinatura.
Sofia fechou o notebook.
— Então começou há seis meses?
— Provavelmente antes — respondi.
Ela olhou para mim.
— Não. Começou quando Javier me conheceu.
Alexandre corrigiu:
— Começou quando Carmen decidiu que você era útil.
Sofia respirou fundo.
— Então eu quero parar de pensar como vítima e começar a pensar como ela.
Ninguém disse nada.
Ela apontou para a página 5.
— Carmen planejou tudo com antecedência. Se essa cessão foi protocolada hoje, ela precisava de alguém dentro da Ribeiro Urbanismo ou de algum intermediário capaz de fazer o documento parecer legítimo.
O investigador olhou para ela com aprovação discreta.
— Exato.
Alexandre perguntou:
— Quem poderia validar a operação?
Eu sabia.
— O departamento societário.
Peguei meu telefone e liguei para uma pessoa que não via havia anos: Beatriz Almeida, diretora jurídica da empresa.
Ela atendeu na terceira chamada.
— Helena?
— Beatriz, preciso que você escute sem interromper. Houve uma tentativa de transferência da participação societária da Sofia.
Silêncio.
— Como assim?
— Para uma empresa chamada Robles Participações.
A voz dela mudou.
— Isso é impossível.
— Por quê?
— Porque a cessão de quotas da Sofia exige validação de duas etapas e conferência presencial ou certificado digital qualificado.
Alexandre fez sinal para colocar no viva-voz.
— Algum pedido entrou hoje? — perguntou ele.
Beatriz hesitou.
— Quem está falando?
— Alexandre Ribeiro. Pai da Sofia.
— Coronel?
— Sim.
Outro silêncio.
— Entrou.
Sofia se aproximou.
— Quem aprovou?
Beatriz respirou fundo.
— Ainda não foi aprovada. Foi protocolada às cinco e quarenta e sete da manhã.
Meu coração acelerou.
Antes de amanhecer.
Exatamente como dizia o caderno.
— Quem enviou? — perguntou Sofia.
— Um escritório chamado Varela & Associados.
Mauricio.
Tudo convergia.
— E qual documento apresentaram? — perguntei.
— Instrumento particular de cessão assinado pela Sofia, duas testemunhas e reconhecimento de firma.
Sofia ficou rígida.
— Quem são as testemunhas?
Beatriz digitou alguma coisa.
— Ernesto Robles e... Carmen Robles.
Nós nos entreolhamos.
— Isso não faz sentido — disse Alexandre. — Carmen é beneficiária indireta da operação.
— Eu sei. Por isso caiu em análise.
Sofia perguntou:
— Tem mais alguma coisa anexada?
Beatriz ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tem.
— O quê?
— Uma procuração.
Sofia fechou os olhos.
— Em nome de quem?
— Javier Robles.
A sala pareceu diminuir.
— Eu nunca dei procuração nenhuma para ele — disse Sofia.
Beatriz respondeu imediatamente:
— Então temos um problema grave.
— Não — Sofia disse. — Nós temos uma prova grave.
A diferença importava.
Beatriz prometeu congelar administrativamente qualquer movimentação até ordem formal da polícia ou decisão judicial. Também enviaria os documentos ao investigador responsável.
Vinte minutos depois, os arquivos chegaram.
O policial abriu a procuração.
Sofia apontou de imediato.
— Essa assinatura é minha.
— Tem certeza?
— Sim.
Alexandre perguntou:
— De onde eles tiraram?
Ela releu o documento.
Então sua expressão mudou.
— Do casamento civil.
— Como?
— Eu assinei uma folha em branco parcial quando o cartório corrigiu um erro no meu endereço. A funcionária disse que reimprimiria a página.
O investigador levantou os olhos.
— Funcionária de qual cartório?
Sofia informou.
Meu estômago apertou.
Outra pessoa.
Outro ponto de acesso.
Mas Alexandre estava olhando para a data da procuração.
— Vejam isso.
A procuração estava datada de três dias antes de Sofia assinar no cartório civil.
— Então não copiaram a assinatura depois — falei.
— Prepararam o documento antes e inseriram a assinatura depois — disse ele.
O investigador aproximou a tela.
— Ou alguém forneceu previamente uma assinatura digitalizada.
Sofia abriu de novo o falso e-mail cadastral.
Seis meses antes.
Ali estava a resposta.
Eles já tinham a assinatura.
Cada pequena peça finalmente se conectava.
O falso recadastramento.
Os documentos no escritório de Mauricio.
As perguntas sobre a escritura.
O seguro de vida.
A visita de Carmen e Ernesto ao apartamento.
A página 5.
O “protocolo C”.
Nada fora improvisado.
Mas havia uma peça que ainda incomodava Sofia.
— Se Ernesto estava tentando sabotar Carmen, por que aparece como testemunha?
Ninguém respondeu.
Até que Alexandre disse:
— Talvez porque a assinatura dele seja justamente a falha.
— Que falha?
— Ernesto sabia que a operação seria analisada. Se quisesse destruir o documento sem alertar Carmen, poderia assinar de um modo verificavelmente diferente.
O investigador concordou.
— Precisamos comparar.
Encontramos na caixa de 1998 vários documentos assinados por Ernesto Valdés.
A assinatura antiga era longa, inclinada para a direita.
A assinatura na cessão recente parecia semelhante.
Mas havia uma diferença.
No documento antigo, Ernesto sempre acrescentava um pequeno traço sob o sobrenome.
Na cessão, não.
Sofia aproximou a imagem.
— Isso é suficiente?
— Sozinho, não — respondeu o investigador. — Mas perícia pode identificar falsificação ou assinatura propositalmente inconsistente.
Então meu telefone tocou novamente.
Dessa vez era Beatriz.
Atendi.
— Helena, encontrei uma coisa.
— O quê?
— Há um registro interno de tentativa anterior de transferência da participação da Sofia.
Sofia se levantou.
— Quando?
— Três meses atrás.
— Antes do casamento.
— Sim.
— Quem bloqueou?
Beatriz hesitou.
— Seu pai.
Sofia ficou sem entender.
— Meu avô está morto.
Beatriz respirou fundo.
— Não o seu avô.
Olhou para Alexandre, mesmo sem vê-lo.
— O coronel Alexandre Ribeiro.
Eu me virei para ele.
Sofia também.
Alexandre não pareceu surpreso.
Foi então que compreendi o significado real de ele estar morando em São Paulo havia seis meses.
Ele não tinha voltado por acaso.
— Pai... — Sofia disse lentamente. — Você já estava investigando Javier antes do casamento.
Alexandre fechou os olhos por um instante.
E, quando voltou a nos encarar, não tentou negar.
— Sim.







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