A lembrança daquela noite voltou inteira.
Isabela tinha aparecido no meu apartamento pouco depois das oito, com o notebook debaixo do braço e uma pressa que achei normal naquela época. Disse que a faculdade estava atualizando o cadastro dos formandos e precisava confirmar dados do responsável financeiro.
Eu estava terminando uma planilha de trabalho na mesa da cozinha.
Ela colocou três folhas na minha frente.
— É só burocracia, mãe. Assina aqui, aqui e aqui.
Eu não li tudo.
Essa foi a parte que mais doeu admitir.
Eu confiava nela.
Assinei dois papéis e, no terceiro, reclamei porque havia campos em branco.
Isabela riu.
— Eles preenchem no sistema depois.
Eu me recusei a assinar aquele.
Pelo menos era disso que eu me lembrava.
Agora, olhando para a cessão dos direitos do meu apartamento, uma pergunta me atravessou.
E se ela tivesse usado uma das assinaturas que eu realmente fiz para produzir os outros documentos?
— Márcia — falei. — A faculdade pediu alguma atualização de cadastro três semanas atrás?
Ela respondeu sem hesitar:
— Não.
Isabela fechou os olhos.
Aquilo bastou.
— Então você mentiu naquela noite.
— Eu precisava da sua assinatura.
— Para quê?
Ela ficou em silêncio.
— Não vou perguntar de novo aqui — continuei. — Mas também não vou fingir que isso é apenas uma briga de família.
Roberto concordou.
— Precisamos cancelar imediatamente a liberação de amanhã.
Ele pegou o telefone.
Isabela se aproximou.
— Roberto, por favor. Se cancelar agora, vai piorar tudo.
Eu a encarei.
— Piorar para quem?
Ela abriu a boca, mas Bruno falou primeiro.
— É isso que eu quero saber desde que chegamos aqui.
A cerimônia começou sem nós.
Ouvimos aplausos vindos do auditório e depois a voz de alguém anunciando os primeiros formandos. Isabela olhou para a porta. Durante quatro anos, eu tinha imaginado aquele momento como uma das noites mais felizes da minha vida.
Estranhamente, naquele instante, não senti vontade de entrar.
Eu queria a verdade.
Fomos para a sala de Márcia.
Era pequena, com uma mesa cheia de pastas, duas cadeiras diante dela e um armário metálico junto à parede. Roberto telefonou para o financeiro do Grupo Vasconcelos e mandou bloquear qualquer transferência relacionada a Isabela até segunda ordem.
Quando desligou, minha filha parecia prestes a passar mal.
— Você não entende o que acabou de fazer.
— Então explica — disse ele.
Ela se sentou.
Eu permaneci de pé.
— Primeiro eu quero ver tudo o que existe no meu nome.
Roberto assentiu.
Ele encaminhou para mim os arquivos que Isabela havia apresentado à empresa.
Havia seis documentos.
Uma declaração de dívida.
Duas supostas notificações de mensalidades atrasadas.
Uma planilha com valores.
A cessão sobre meu apartamento.
E uma carta que dizia que eu reconhecia ter recebido dinheiro da família Vasconcelos.
Meu nome estava em todos.
Minha assinatura também.
Mas um dos documentos continha algo que fez meu coração acelerar.
Meu CPF estava correto.
Meu endereço também.
Até o número antigo do meu RG aparecia ali.
Informações que não estavam em nenhum cadastro da faculdade.
— De onde você tirou esses dados? — perguntei.
Isabela me olhou.
— Mãe...
— Isso não veio da universidade.
Márcia aproximou a cadeira e analisou a folha.
— Definitivamente não.
Então me lembrei de outra coisa.
Seis meses antes, Isabela tinha pedido uma cópia da minha declaração de imposto de renda.
Dissera que precisava comprovar renda familiar para um cadastro acadêmico.
Eu mandei o arquivo pelo WhatsApp sem pensar duas vezes.
Na declaração estavam quase todos aqueles dados.
Peguei meu celular.
Rolei a conversa até encontrar a mensagem.
Lá estava.
“Mãe, manda sua declaração completa, por favor. Preciso entregar amanhã.”
Abaixo, o PDF enviado por mim.
Mostrei para todos.
Isabela começou a chorar de novo.
Mas dessa vez não senti vontade de consolá-la.
— Foi daqui, não foi?
— Algumas informações.
— Algumas?
— Eu não fiz tudo sozinha.
O silêncio caiu imediatamente.
Bruno inclinou o corpo para frente.
— Quem ajudou você?
Ela percebeu o que tinha acabado de dizer.
— Eu quis dizer que...
— Você acabou de dizer que não fez tudo sozinha — falei.
Isabela passou as mãos pelo rosto.
— Eu não posso falar.
Bruno soltou uma risada amarga.
— Você consegue mentir durante dois anos, pegar dinheiro de mim, da minha família, usar documentos falsos da sua mãe, mas não consegue dizer quem está envolvido?
Ela olhou para ele.
— Eu fiz isso por nós.
Foi a primeira frase daquela noite que não pareceu improvisada.
Bruno ficou imóvel.
— Por nós?
Isabela percebeu meu olhar.
— Não do jeito que vocês estão pensando.
— Então de que jeito?
Ela se levantou.
— Vocês não sabem como a família dele funciona.
Sônia, que permanecia quase calada, franziu a testa.
— O que isso quer dizer?
Isabela respirou fundo, mas desviou.
— Nada.
Aquilo me chamou atenção.
Até então, eu acreditava que o dinheiro fosse o objetivo.
Mas, pela primeira vez, comecei a suspeitar de que os cento e oitenta mil reais eram apenas parte de alguma coisa maior.
Peguei meu telefone e abri meu aplicativo bancário.
Passei pelos pagamentos da faculdade.
Quatro anos de transferências, boletos e mensalidades quitadas.
Depois procurei as datas dos documentos falsos.
Algo não batia.
A primeira declaração de “dívida” apresentada por Isabela aos Vasconcelos era de sete meses antes.
Porém, naquela mesma semana, eu havia feito um pagamento extraordinário à faculdade.
Márcia confirmou quando consultei o extrato acadêmico.
— Aqui. Helena antecipou três mensalidades.
Roberto olhou para Isabela.
— Você nos pediu dinheiro cinco dias depois disso.
Ela abaixou a cabeça.
Bruno se levantou e começou a andar pela sala.
— Então nunca existiu dívida nenhuma.
— Não com a faculdade — respondi.
A frase saiu sem que eu tivesse planejado.
Todos olharam para mim.
Inclusive Isabela.
E o medo em seu rosto me mostrou que eu tinha acertado em alguma coisa.
— Existia outra dívida — falei.
Ela permaneceu imóvel.
— Era para isso que servia o dinheiro.
— Mãe, para.
— Você precisava que Bruno acreditasse que eu tinha abandonado você porque não podia explicar por que recebia dinheiro dele. E precisava que os pais dele acreditassem que eu estava falida porque precisava justificar um valor muito maior.
Bruno parou de andar.
— Quem você estava pagando?
Isabela ficou muda.
Foi então que Márcia, ainda diante do computador, falou:
— Helena... tem outra coisa.
Ela havia aberto meu histórico de pagamentos.
— O quê?
— Houve uma tentativa de alteração do responsável financeiro da Isabela há oito meses.
Olhei para minha filha.
— Para quem?
Márcia franziu a testa.
— O pedido não foi aprovado porque faltavam documentos.
— Quem fez o pedido?
Ela clicou em uma aba.
— Foi enviado pelo acesso da própria Isabela.
Bruno se aproximou.
— Colocando quem como responsável?
Márcia leu o nome na tela.
A reação de Isabela foi instantânea.
Ela se levantou tão rápido que a cadeira bateu na parede.
— Não.
Eu não reconheci o nome.
Bruno também não.
Mas Roberto reconheceu.
Seu rosto endureceu de um jeito que ainda não tínhamos visto naquela noite.
— Você está envolvida com ele?
Sônia empalideceu.
Olhei de um para o outro.
— Quem é ele?
Roberto demorou alguns segundos antes de responder.
— Augusto Nogueira.
Isabela começou a negar com a cabeça.
— Roberto, não fala.
Ele ignorou.
— Augusto foi sócio do Grupo Vasconcelos.
— Foi? — perguntei.
— Até descobrirmos que ele desviava dinheiro da empresa.
Bruno virou lentamente para Isabela.
— Você conhece o homem que quase destruiu a empresa da minha família?
Minha filha fechou os olhos.
E então entendi que os documentos falsos, o dinheiro e até a mentira sobre mim estavam ligados a alguém que Isabela jamais havia mencionado.
Mas foi a última frase de Roberto que fez tudo ficar ainda pior.
— Augusto desapareceu depois que denunciamos o desvio, há quase três anos.
Ele olhou para Isabela.
— E, se você está mandando dinheiro para ele, então precisa nos explicar por que ele começou a receber justamente poucos meses depois que você começou a namorar meu filho.







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