Márcia se aproximou do telefone até o rosto quase tocar a tela.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— É o Renato.
— Quem é Renato? — perguntei.
Ela se sentou devagar.
— Renato Alves. Ele trabalha no setor administrativo-financeiro da faculdade. Está aqui há quase cinco anos.
Olhei novamente para a fotografia.
Então me lembrei. Ele era o homem que eu vira algumas vezes quando vinha resolver boletos, declarações ou documentos de Isabela. Sempre educado, discreto, daqueles funcionários cujo rosto você reconhece sem nunca ter realmente conversado.
Márcia pegou o próprio celular.
— Ele tem acesso aos dados financeiros dos alunos.
Roberto imediatamente entendeu.
— Inclusive aos documentos da Helena?
— Dependendo do período, sim.
Senti um arrepio.
O CPF, meu endereço, meu RG, os valores pagos, as datas das mensalidades.
Tudo aquilo que eu havia acreditado ter saído apenas da declaração de imposto que entreguei a Isabela poderia ter outra origem.
— Foi ele quem tentou mudar o responsável financeiro? — perguntei.
Márcia levantou-se.
— Vou verificar.
Ela entrou no sistema novamente e abriu uma área que eu nunca tinha visto. Depois de alguns minutos, encontrou o registro interno da solicitação.
O nome que aparecia como usuário responsável era de Isabela.
Mas Márcia continuou clicando.
— Aqui existem registros de acesso administrativo.
Bruno se aproximou.
— Dá para saber quem mexeu nisso?
— Dá.
Ela encontrou.
O pedido tinha sido iniciado pelo perfil de Isabela às 22h14.
Às 22h31, alguém do setor administrativo havia alterado manualmente dois campos.
O usuário era Renato Alves.
Isabela parou de respirar por um instante.
— Eu não sabia disso.
Roberto virou-se para ela.
— Você conhecia Renato?
— Não.
— Nunca falou com ele?
— Não sabendo quem ele era.
Bruno franziu a testa.
— O que isso quer dizer?
Isabela pegou novamente o telefone e começou a procurar nas conversas com Augusto.
Depois de quase um minuto, encontrou uma mensagem antiga.
“O R resolve qualquer problema dentro da faculdade. Não se preocupe com documento.”
Ela mostrou para nós.
— Eu achava que “R” fosse alguém do escritório dele.
Roberto soltou o ar lentamente.
— Augusto tinha uma pessoa dentro daqui.
Márcia já estava ligando para alguém.
— Vou pedir para a segurança localizar Renato.
Eu segurei seu braço.
— Não avisa que estamos procurando por causa disso.
Ela me olhou surpresa.
Três horas antes, eu provavelmente teria deixado qualquer decisão nas mãos dos outros.
Mas alguma coisa em mim havia mudado.
Durante anos, quando Isabela enfrentava um problema, minha primeira reação era resolver por ela.
Mensalidade atrasada? Eu pagava.
Documento? Eu buscava.
Crise? Eu ligava.
Naquela noite, percebi que proteger minha filha de todas as consequências talvez tivesse ajudado a criar exatamente a situação em que estávamos.
Agora eu precisava proteger a mim mesma.
— Só descubra onde ele está — falei. — Se Augusto souber que encontramos essa ligação, ele pode apagar tudo.
Roberto concordou.
— Helena tem razão.
Márcia fez a ligação sem mencionar nosso nome.
Enquanto esperávamos, ouvi novamente os aplausos da cerimônia.
Uma voz ecoou pelo sistema de som do auditório.
— Isabela Ferreira.
Meu corpo inteiro reagiu.
Era o nome que eu esperara ouvir por quatro anos.
Nenhum de nós se mexeu.
Alguns segundos depois, a voz chamou o nome seguinte.
Isabela abaixou a cabeça.
Ela acabara de perder o momento pelo qual eu tinha trabalhado durante anos.
Eu queria sentir pena.
E senti.
Mas não fui atrás dela.
Não disse que ainda dava tempo.
Não disse que tudo ficaria bem.
Algumas coisas não ficavam bem apenas porque uma mãe queria.
O telefone de Márcia tocou.
Ela atendeu.
— Sim?... Tem certeza?... Certo. Não mexam em nada.
Desligou.
— Renato não está no prédio.
— Quando saiu? — perguntou Roberto.
— Há vinte e seis minutos.
Bruno olhou para o relógio.
— Foi depois de a gente chegar.
Márcia assentiu.
— O crachá dele registrou saída pela garagem.
Aquilo não parecia coincidência.
— Ele sabia que alguma coisa tinha acontecido — falei.
Isabela levantou os olhos.
— Augusto deve ter avisado.
Roberto já estava falando com o advogado da empresa. Em poucos minutos, o Grupo Vasconcelos havia bloqueado a transferência de duzentos mil reais e iniciado uma revisão emergencial de tudo relacionado ao suposto “projeto educacional”.
Então veio o primeiro problema real.
O advogado ligou de volta.
Roberto colocou no viva-voz.
— Encontramos os pagamentos anteriores — disse o homem. — Mas há algo estranho.
— O quê?
— Os cento e vinte mil liberados pelo Grupo Vasconcelos não foram enviados diretamente para Isabela.
Minha filha olhou para ele.
— Eu disse isso.
— Foram para uma empresa chamada Horizonte Desenvolvimento Educacional.
Isabela assentiu rapidamente.
— Essa era a conta que Augusto mandou.
— Só que a empresa não pertence a Augusto Nogueira.
Roberto ficou em silêncio.
— A quem pertence?
Houve alguns segundos de teclado do outro lado.
— Renato Alves.
Márcia sentou-se novamente.
Agora tínhamos a conexão.
Augusto.
Renato.
A faculdade.
Os documentos.
Mas o advogado ainda não tinha terminado.
— E existe outra coisa. O pagamento de Bruno também foi enviado para essa empresa em pelo menos quatro transferências.
Bruno olhou para Isabela.
— Você me passou aqueles dados.
— Augusto passou para mim.
— Você sabia que era uma empresa?
— Ele dizia que era uma financeira que estava renegociando minha dívida.
Roberto fechou os olhos.
— Você nunca verificou?
Ela não respondeu.
O advogado continuou:
— Precisamos preservar todos os arquivos. Isso já ultrapassou uma questão familiar.
— Faça isso — disse Roberto.
Eu me aproximei da mesa.
— E os documentos no meu nome?
— Helena, aconselho registrar formalmente que a senhora contesta todas essas assinaturas. Não destrua nada e não confronte ninguém.
— Tem risco para o meu apartamento?
Houve uma pausa.
— Vou verificar.
Essas quatro palavras me deixaram mais nervosa do que qualquer resposta.
Enquanto ele pesquisava, Isabela começou a andar pela sala.
— Augusto disse que depois do pagamento de amanhã acabava.
Bruno olhou para ela.
— Você ainda acredita em alguma coisa que ele disse?
— Não.
— Então por que você estava tão desesperada para pagar?
Ela ficou parada.
— Porque ele tinha começado a falar da minha mãe.
Eu a encarei.
— Como assim?
Isabela apertou os braços contra o corpo.
— Primeiro eram ameaças contra mim. Depois ele começou a mandar fotos suas. Perguntava que horas você chegava em casa, quando trabalhava fora, se o apartamento ficava vazio.
Meu estômago virou.
— Por que ele queria saber isso?
— Eu não sabia.
— Você deveria ter me contado.
— Eu estava tentando impedir que ele chegasse perto de você.
Minha raiva finalmente escapou.
— Falsificando minha assinatura?
Ela começou a chorar.
— Eu achei que, se pagasse, ele sumiria.
— Você não estava me protegendo, Isabela. Você estava escondendo o problema até ele entrar na minha vida.
Ela recebeu a frase em silêncio.
Pela primeira vez, não tentei suavizá-la.
O telefone de Roberto tocou novamente.
Era o advogado.
— Encontrei uma coisa que vocês precisam ver agora.
Roberto abriu o e-mail que chegara.
Havia um PDF anexado.
Era um relatório de consulta feito naquela mesma manhã.
O endereço era o meu.
Meu apartamento.
Na parte inferior aparecia o nome de quem havia solicitado uma cópia atualizada da matrícula do imóvel.
Horizonte Desenvolvimento Educacional Ltda.
Renato.
— Por que ele consultou minha matrícula? — perguntei.
O advogado respondeu:
— Provavelmente para confirmar se o imóvel ainda estava em seu nome.
Eu senti minhas mãos ficarem frias.
Mas havia mais uma página.
Um pedido de análise documental havia sido enviado a um escritório especializado em operações imobiliárias.
Data marcada: manhã seguinte.
Interessado: Horizonte Desenvolvimento Educacional.
Documento apresentado como garantia: meu apartamento.
— Então os duzentos mil não eram o fim — falei.
Ninguém respondeu.
Eu finalmente compreendi.
Augusto não estava apenas extorquindo Isabela.
Ele estava construindo uma fraude em camadas.
Primeiro, fazia a família Vasconcelos acreditar que minha filha precisava de dinheiro.
Depois, usava documentos falsos para justificar os pagamentos.
E, enquanto todos olhavam para as supostas dívidas da faculdade, alguém preparava meu imóvel para entrar na operação.
Bruno ampliou o relatório.
— Espera.
Havia um campo chamado “representante autorizado”.
O nome não era de Renato.
Nem de Augusto.
Era de Isabela Ferreira.
Minha filha levou a mão à boca.
— Eu nunca autorizei isso.
Mas o arquivo seguinte continha uma procuração.
Minha assinatura aparecia novamente no final.
Dessa vez, acompanhada de uma cópia do meu documento.
E concedia a Isabela poderes para negociar direitos relacionados ao apartamento.
Isabela começou a negar com a cabeça.
— Eu nunca vi isso.
Eu queria acreditar nela.
Mas já havia acreditado muitas vezes naquela noite.
Foi então que notei a data da procuração.
Não era de três semanas antes.
Era de oito meses antes.
Exatamente a época em que Isabela pedira os primeiros cento e vinte mil reais aos pais de Bruno.
Olhei para ela.
— O que aconteceu oito meses atrás?
Ela abriu a boca.
Parou.
E, pela expressão em seu rosto, percebi que finalmente havia chegado a uma parte da história que ela ainda não tinha contado a ninguém.
— Foi quando Augusto me mandou entrar no seu apartamento enquanto você estava trabalhando — ela sussurrou.
Bruno ficou imóvel.
Eu também.
— Entrar para quê?
Isabela começou a chorar antes de responder.
— Para procurar um documento que ele dizia estar guardado lá desde que meu pai foi embora.







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