Isabela ficou olhando para Roberto como se aquela última frase tivesse tirado dela o pouco de força que ainda restava.
— Não foi assim — disse.
Bruno não levantou a voz.
— Então como foi?
Minha filha apertou os dedos uns contra os outros.
— Eu conheci o Augusto antes de conhecer você.
A sala inteira ficou em silêncio.
Bruno piscou devagar.
— Antes?
Roberto se aproximou da mesa.
— Onde?
Isabela olhou para mim antes de responder.
— No terceiro ano da faculdade. Eu estava procurando estágio. Recebi uma proposta para trabalhar remotamente com análise de documentos de uma consultoria pequena.
Aquilo me surpreendeu.
Eu me lembrava daquele estágio. Durante quase três meses, Isabela dizia que fazia relatórios para uma empresa. Depois, afirmou que o projeto tinha acabado.
— Era o Augusto? — perguntei.
Ela assentiu.
— No começo eu não sabia quem ele era. Ele usava outro sobrenome nas reuniões. Eu só descobri meses depois.
Roberto ficou vermelho.
— E mesmo assim continuou falando com ele?
— Quando descobri, já era tarde.
Bruno deu um passo para trás.
— Tarde por quê?
Isabela respirou fundo.
— Porque ele já tinha todos os meus dados. Documentos, endereço, cópias de contratos, informações da faculdade... tudo o que eu tinha enviado durante o trabalho.
Senti um desconforto imediato.
— E o que isso tem a ver com Bruno?
Ela não respondeu.
Roberto bateu a palma da mão na mesa.
— Fala.
Isabela se assustou.
— Augusto dizia que o Grupo Vasconcelos tinha destruído a vida dele. Que vocês tinham armado tudo para expulsá-lo da empresa.
— Mentira — disse Roberto.
— Eu sei disso agora.
— Agora?
Sônia finalmente falou:
— Isabela, como ele sabia que você namorava Bruno?
Minha filha começou a chorar novamente.
Mas dessa vez havia alguma coisa diferente.
Vergonha.
— Porque ele sabia antes de eu namorar.
Bruno ficou completamente imóvel.
Eu senti um frio percorrer minhas costas.
— O que você quer dizer? — perguntei.
Isabela fechou os olhos.
— Eu não conheci Bruno por acaso.
Ninguém disse nada.
A cerimônia continuava do outro lado do corredor. Ouvíamos nomes sendo anunciados e famílias aplaudindo enquanto, dentro daquela sala, outra vida começava a desmoronar.
Bruno foi o primeiro a encontrar a voz.
— Explica isso.
— Augusto me mostrou quem você era.
— O quê?
— Ele sabia onde você estudava, onde trabalhava, os lugares que frequentava. Disse que precisava descobrir algumas coisas sobre a família Vasconcelos.
Sônia levou a mão à boca.
Roberto encarou Isabela com desprezo.
— Você se aproximou do meu filho por causa dele?
— No começo.
Bruno ficou branco.
— No começo?
— Bruno, eu juro que depois mudou.
— Há quanto tempo você sabia quem eu era antes de falar comigo pela primeira vez?
Isabela não conseguiu olhar para ele.
— Algumas semanas.
Ele soltou uma risada curta, quase sem som.
— Então aquele café onde você disse que tinha esbarrado comigo por acaso...
— Não foi por acaso.
Bruno se afastou dela.
Eu entendia naquele momento por que minha filha tinha passado meses criando duas versões diferentes sobre mim.
Não era apenas para conseguir dinheiro.
Ela precisava manter os mundos separados.
Se Bruno se aproximasse de mim, poderia descobrir que Isabela não precisava de ajuda financeira.
Se eu me aproximasse demais dos Vasconcelos, poderia perceber inconsistências nas histórias dela.
E, principalmente, Augusto precisava que ninguém comparasse informações.
— O que ele queria que você descobrisse? — perguntei.
Isabela enxugou o rosto.
— No começo, coisas pequenas. Quem trabalhava com Roberto. Quem tinha acesso às contas antigas. Se Bruno falava sobre problemas na empresa.
Roberto interrompeu:
— Você passou informações internas?
— Nada importante.
— Você não tem condições de decidir o que era importante.
Ela abaixou a cabeça.
— Depois de alguns meses, eu tentei parar.
Bruno a encarou.
— Quando?
Isabela finalmente olhou para ele.
— Quando percebi que eu realmente estava apaixonada por você.
A expressão dele não mudou.
— Não usa isso agora.
— É verdade.
— Você começou nosso relacionamento seguindo instruções de um homem que queria atingir minha família.
— Eu sei.
— E nunca me contou.
— Porque Augusto começou a me ameaçar.
Aquilo mudou o ambiente.
Roberto se inclinou.
— Ameaçar como?
Isabela pegou o celular com mãos trêmulas.
— Ele tinha mensagens minhas. Gravações. Documentos que eu peguei para ele quando ainda achava que estava ajudando numa investigação particular. Disse que, se eu desaparecesse, entregaria tudo para vocês e faria parecer que eu tinha participado do desvio antigo.
Roberto estreitou os olhos.
— Ele não poderia provar isso.
— Eu tinha vinte e dois anos! — ela explodiu. — Eu estava apavorada.
Ninguém respondeu.
Isabela abriu uma conversa arquivada no telefone.
Havia centenas de mensagens.
Ela colocou o aparelho sobre a mesa.
O contato não tinha nome. Apenas uma letra: A.
Bruno começou a ler.
Eu observei o rosto dele mudar.
As primeiras mensagens eram antigas.
Perguntas sobre Roberto.
Sobre reuniões.
Sobre os hábitos de Bruno.
Depois vinham mensagens mais recentes.
“Se quer sair, paga o que deve.”
“Seu namorado não precisa saber como vocês se conheceram.”
“Você escolheu continuar. Agora termina.”
Sônia começou a chorar silenciosamente.
Roberto pegou o telefone.
— Foi para ele que você mandou os cento e oitenta mil?
Isabela assentiu.
— Quase tudo.
— Quase?
— Fiquei com uma parte para despesas e para conseguir tempo.
— E os duzentos mil de amanhã?
Ela engoliu seco.
— Era o último pagamento.
Bruno virou o rosto.
— Você ia continuar mentindo para mim até quando?
— Eu queria pagar e acabar com isso.
— Usando o dinheiro da minha família.
Ela não respondeu.
Foi então que notei algo nas mensagens.
Uma delas tinha sido enviada naquela manhã.
Puxei o telefone para perto.
“Hoje ela não pode entrar. Se Helena falar com os Vasconcelos antes da transferência, acabou.”
Meu coração acelerou.
Olhei para Isabela.
— Foi por isso que você me expulsou da formatura.
Ela chorou.
— Augusto sabia que você viria. Ele disse que, se você falasse com eles hoje, perceberiam que os documentos eram falsos e bloqueariam o dinheiro.
A dor daquela frase foi diferente de todas as anteriores.
Minha própria filha tinha me colocado do lado de fora para proteger uma mentira que já estava destruindo todo mundo.
Mas algo naquela mensagem me incomodou.
— Como Augusto sabia que eu viria?
Isabela parou de chorar.
Roberto também percebeu.
— Você contou?
— Não.
— Bruno?
— Eu nem sabia que Helena viria até hoje.
Márcia balançou a cabeça.
— Eu também não falei com ninguém.
Olhei novamente para a tela.
Augusto não apenas sabia da formatura.
Sabia que eu tinha convite.
Sabia que encontrar os Vasconcelos seria perigoso.
E sabia exatamente quando a transferência aconteceria.
Continuei subindo a conversa até encontrar uma fotografia enviada por ele dois dias antes.
Quando abri, senti meu estômago se contrair.
Era uma foto minha saindo do prédio onde eu morava.
Tirada de dentro de um carro.
Abaixo havia uma mensagem:
“Sua mãe continua fazendo perguntas demais. Não me obrigue a conversar com ela.”
Isabela cobriu a boca.
— Eu nunca vi essa foto.
— Está na sua conversa.
— Ele apagava mensagens depois de enviar. Eu devo ter aberto sem perceber.
Roberto pegou o próprio telefone.
— Vou chamar a polícia.
— Espera — falei.
Todos olharam para mim.
Ampliei a imagem.
No reflexo do vidro do carro havia parte do rosto de quem segurava o celular.
Não era Augusto.
Eu conhecia aquele rosto.
Tinha visto aquela pessoa várias vezes nos últimos quatro anos, andando pelos corredores da faculdade de Isabela.
Levantei os olhos para Márcia.
— Esse homem trabalha aqui.
E, pela primeira vez naquela noite, Márcia perdeu completamente a cor.







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