— Que documento? — perguntei.
Isabela demorou tanto para responder que ouvi novamente os aplausos distantes do auditório.
— Uma pasta azul.
Meu coração apertou.
Eu conhecia aquela pasta.
Durante quase vinte anos, ela tinha ficado no fundo de uma gaveta do meu quarto, junto com documentos antigos do apartamento, recibos e papéis que eu nunca tivera coragem de jogar fora depois que o pai de Isabela nos deixou.
— Você encontrou?
Ela assentiu.
— Encontrei.
— E entregou para Augusto?
— Tirei fotos.
Fechei os olhos por um instante.
Naquele momento, uma lembrança que eu havia considerado insignificante voltou com clareza. Oito meses antes, eu chegara do trabalho e encontrara a gaveta ligeiramente aberta. Achei que tivesse esquecido daquele jeito. Mais tarde, percebi que alguns papéis estavam fora de ordem.
Não perguntei nada.
Isabela tinha a chave do apartamento.
— O que havia naquela pasta? — perguntou Roberto.
Eu me sentei.
— Documentos antigos da compra do imóvel. E algumas coisas do pai dela.
Bruno olhou para Isabela.
— Augusto queria isso por quê?
— Ele disse que meu pai tinha escondido provas de uma fraude antiga.
Levantei a cabeça.
— Seu pai?
Isabela assentiu.
— Augusto sabia o nome dele.
Senti o estômago se contrair.
Isabela raramente falava do pai. Ele saíra de casa quando ela ainda era criança. Depois de alguns telefonemas esporádicos, desaparecera completamente da nossa rotina. Eu parei de procurá-lo quando percebi que cada promessa não cumprida machucava Isabela mais do que a ausência.
— O que exatamente Augusto falou? — perguntei.
— Que meu pai tinha trabalhado com gente ligada ao Grupo Vasconcelos muitos anos atrás.
Roberto mudou de expressão.
— Qual era o nome dele?
Olhei para Roberto.
— Marcelo Ferreira.
Ele não respondeu imediatamente.
Sônia foi a primeira a perceber.
— Roberto?
Ele passou a mão lentamente pelo queixo.
— Eu conheci um Marcelo Ferreira.
O silêncio voltou.
— Quando? — perguntei.
— Mais de vinte anos atrás. Ele prestava serviços contábeis para algumas empresas que faziam negócios conosco.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Marcelo havia trabalhado com contabilidade quando éramos casados. Depois dizia que fazia “consultorias por fora”, mas nunca explicava muito.
— Ele trabalhou diretamente para vocês?
— Não como funcionário. Era contratado por intermediários.
Roberto olhou para mim.
— E houve um problema naquela época.
Isabela ficou imóvel.
— Que problema?
— Um conjunto de pagamentos desapareceu de uma empresa parceira. A investigação nunca conseguiu provar quem tinha feito as transferências.
Sônia acrescentou:
— Foi antes de Bruno ser adulto. Quase ninguém na família falava sobre isso.
Roberto continuou:
— O nome de Marcelo apareceu na auditoria, mas ele sumiu antes de prestar esclarecimentos.
Senti como se alguém tivesse retirado o ar da sala.
Durante todos aqueles anos, eu acreditara que Marcelo simplesmente tivesse abandonado a família por covardia.
Talvez houvesse mais.
— E Augusto? — perguntei.
Roberto estreitou os olhos.
— Augusto entrou no Grupo Vasconcelos alguns anos depois.
Bruno franziu a testa.
— Então ele nem trabalhava com você quando Marcelo desapareceu.
— Não.
Aquilo me incomodou.
— Então como Augusto sabia da pasta?
Ninguém respondeu.
Isabela mexeu no telefone.
— Porque ele tinha uma foto.
— De quê?
Ela procurou durante alguns segundos e mostrou a tela.
Era uma fotografia antiga.
Marcelo aparecia ao lado de outro homem diante de um escritório.
O outro homem era muito mais jovem na imagem, mas reconheci o rosto.
Augusto Nogueira.
Roberto pegou o telefone.
— Isso não faz sentido.
— Você disse que ele entrou depois — falei.
— Oficialmente, sim.
A palavra ficou no ar.
Oficialmente.
Bruno percebeu também.
— Pai, o que você está dizendo?
Roberto ficou em silêncio por alguns segundos.
— Augusto trabalhava para uma empresa terceirizada antes de entrar no Grupo.
Eu entendi antes que ele terminasse.
— A mesma empresa que contratava Marcelo?
Roberto assentiu.
Isabela começou a chorar.
— Foi por isso que ele me procurou.
Finalmente, as peças começaram a se aproximar.
Augusto não havia escolhido Isabela aleatoriamente.
Ele sabia quem era o pai dela.
Sabia quem eu era.
Sabia onde morávamos.
E, quando descobriu que ela poderia se aproximar de Bruno, viu uma oportunidade de entrar novamente na vida dos Vasconcelos usando alguém ligado a um segredo antigo.
— O que você fotografou na pasta? — perguntei.
Isabela abriu outra pasta no celular.
— Tudo.
Havia recibos, extratos antigos, contratos e várias folhas manuscritas por Marcelo.
Uma delas chamou minha atenção.
Reconheci imediatamente a letra dele.
No topo estava escrito:
“Valores recebidos por A.N.”
Abaixo havia datas e números.
Roberto se inclinou sobre o telefone.
— Meu Deus.
— O quê?
Ele apontou para uma das datas.
— Isso corresponde a um dos pagamentos desaparecidos.
Bruno encarou o pai.
— Você está dizendo que Augusto estava envolvido no desvio antigo?
— Estou dizendo que esse papel sugere isso.
Continuei passando as fotos.
Na última folha havia uma frase manuscrita:
“Se alguma coisa acontecer comigo, Helena precisa saber que o dinheiro não ficou comigo.”
Minha garganta fechou.
Durante vinte anos, Marcelo tinha sido, na minha cabeça, apenas o homem que abandonara a esposa e a filha.
Agora eu estava lendo uma mensagem que parecia ter sido escrita para mim.
Isabela segurou minha mão pela primeira vez naquela noite.
Eu não a afastei.
Mas também não apertei de volta.
— Augusto queria o original — ela disse. — Ele dizia que, se eu entregasse a pasta, acabava tudo.
— E você entregou?
— Não. Quando fui procurar novamente, ela não estava mais lá.
Levantei os olhos.
— Como assim?
— Voltei ao apartamento algumas semanas depois. A pasta tinha sumido.
Eu me lembrei perfeitamente.
Naquele período, eu havia organizado os documentos porque o prédio estava atualizando o cadastro dos proprietários.
Foi quando percebi que a pasta azul não estava mais na gaveta.
Pensei que Marcelo talvez a tivesse levado anos antes.
Mas agora sabia que ela ainda estava ali oito meses atrás.
— Quem mais tinha acesso ao apartamento? — perguntou Bruno.
— Só eu e Isabela.
Minha filha ficou pálida.
— Mãe, eu não peguei.
Pensei.
Então me lembrei de uma visita.
Renato.
Quatro meses antes, ele tinha ido ao meu apartamento.
Na ocasião, Isabela me dissera que a faculdade estava recolhendo assinaturas de responsáveis financeiros que não conseguiam comparecer pessoalmente.
Renato passou menos de quinze minutos dentro de casa.
Eu o deixei sozinho na sala por alguns minutos enquanto procurava um documento no quarto.
— Renato esteve no meu apartamento.
Márcia me olhou, horrorizada.
— A faculdade nunca manda funcionários à casa de responsáveis.
Meu corpo inteiro esfriou.
Renato não tinha ido buscar assinatura alguma.
Provavelmente tinha ido buscar a pasta.
Roberto se levantou.
— Se ele encontrou o original, Augusto pode estar tentando destruir a única prova que liga o nome dele ao desvio antigo.
Bruno apontou para o celular de Isabela.
— Mas ainda temos as fotografias.
— Fotografias podem ser contestadas — respondeu Roberto. — O original é muito mais importante.
Meu telefone vibrou.
Era uma notificação do aplicativo do condomínio.
ACESSO DE VISITANTE SOLICITADO.
Abri.
O pedido havia sido feito naquele instante.
Nome do visitante:
Renato Alves.
Destino:
meu apartamento.
E, logo abaixo, aparecia uma observação inserida pela portaria:
“Visitante informa que a proprietária autorizou a retirada de documentos pessoais.”
Eu me levantei imediatamente.
— Ele está no meu prédio.
Isabela ficou branca.
Mas a mensagem seguinte do porteiro foi ainda pior.
“Dona Helena, o senhor já tinha autorização cadastrada anteriormente. Acabamos liberando a entrada.”







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