A delegada Renata foi a primeira a romper o silêncio.
— A partir de agora, ninguém desta família será tratado como simples testemunha.
Rafael se virou para ela.
— Você acha que existe uma quarta pessoa envolvida?
— Eu acho que alguém teve acesso à casa enquanto Carlos e Patrícia estavam na delegacia e Camila estava sendo localizada pela equipe. Isso significa oportunidade. Motivo ainda não sabemos.
Minha cabeça latejava.
— Camila não está na delegacia?
Marcelo respondeu:
— Quando voltamos à residência, ela já tinha saído.
Rafael deu um passo à frente.
— Como assim, saído?
— Seu pai disse que ela foi embora antes da chegada da segunda equipe. Sua mãe afirmou que achava que ela estivesse no quarto.
— E vocês acreditaram nisso?
Renata ergueu a mão.
— Ninguém está dizendo isso. Neste momento, estamos tentando encontrá-la.
A maneira seca como ela disse aquilo fez meu medo aumentar.
Camila tinha me chutado.
Tinha ligado para minha mãe dizendo que eu “não deveria acordar”.
Agora estava desaparecida.
— Ela fugiu — murmurei.
— É uma possibilidade — disse Renata. — Mas não vamos concluir antes de ter confirmação.
Rafael voltou para o meu lado.
— Mariana, não pensa nisso agora.
Olhei para ele.
Durante anos, “não pensar nisso” tinha sido exatamente o que minha família esperava de mim.
Não pensar quando Camila quebrava alguma coisa e dizia que eu tinha feito.
Não pensar quando minha mãe me obrigava a pedir desculpas para manter a paz.
Não pensar quando meu pai dizia que eu era sensível demais.
Eu tinha passado a vida inteira sobrevivendo através do silêncio.
Aquilo acabou.
— Não — respondi. — Eu quero saber tudo.
Rafael me observou por alguns segundos.
Então assentiu.
Renata aproximou uma cadeira.
— Há uma coisa que pode ajudar.
— O quê?
— Precisamos reconstruir os dias anteriores ao ataque. Qualquer comportamento diferente de Camila. Qualquer mensagem. Discussão. Pedido de dinheiro. Pergunta sobre sua gravidez.
Pensei.
A gravidez ainda era segredo.
Rafael e eu tínhamos contado apenas naquele dia.
Ou pelo menos era o que eu acreditava.
— Ninguém sabia.
Rafael franziu a testa.
— Tinha certeza?
— Absoluta.
Então uma lembrança desagradável surgiu.
Duas semanas antes, minha mãe tinha aparecido sem avisar no meu apartamento.
Eu estava no banheiro quando ela entrou no quarto para “procurar um carregador”.
Minha bolsa estava aberta sobre a cômoda.
Dentro dela havia um envelope da clínica.
Naquele momento, não pensei em nada.
Minha respiração mudou.
— Minha mãe pode ter descoberto.
Rafael ficou imóvel.
— Como?
Expliquei.
Renata anotou imediatamente.
— Qual clínica?
— Centro Médico Santa Clara.
— Você fez exames lá?
— Sim.
— Algum documento mencionava a gestação?
— O ultrassom.
Senti náusea.
— Estava dentro do envelope.
Rafael passou a mão pelo rosto.
— Então Patrícia pode ter sabido semanas antes.
Marcelo falou:
— Isso explicaria as mensagens insistindo para que vocês fossem à casa.
Renata, porém, permaneceu cautelosa.
— Explica possibilidade de conhecimento. Ainda precisamos provar intenção.
Eu sabia.
Mas, pela primeira vez, eu não precisava convencer ninguém apenas com minhas memórias.
Existiam registros.
Horários.
Mensagens.
Áudios.
A família que sempre me obrigara a duvidar da própria percepção agora teria que enfrentar fatos.
A porta se abriu, e a Dra. Helena entrou.
O rosto dela estava mais tranquilo.
— Os sinais estabilizaram.
Soltei o ar.
Rafael segurou minha mão.
— E o bebê?
— Os batimentos continuam presentes. O sangramento não aumentou desde o último exame.
Fechei os olhos.
Era a primeira notícia boa em horas.
Helena colocou a mão sobre meu braço.
— Mas você precisa evitar estresse físico. O corpo ainda está reagindo ao trauma.
Quase ri.
Evitar estresse parecia impossível.
Renata se levantou.
— Vamos deixá-la descansar.
— Delegada.
Ela parou.
— Se encontrarem Camila, eu quero saber.
— Você será informada sobre qualquer mudança relevante.
Antes de sair, Marcelo se aproximou de Rafael.
— Seu depoimento complementar será necessário amanhã.
— Estarei lá.
Quando ficamos sozinhos, Rafael fechou a porta.
Então puxou o celular.
— Eu também preciso te mostrar uma coisa.
Meu estômago se apertou.
— Outra?
— Recebi agora.
Era uma mensagem do colega do escritório.
Rafael abriu um arquivo.
— Ele conseguiu organizar as mensagens antigas que sua mãe me mandou nos últimos meses.
Deslizou a tela.
A maioria era banal.
Convites.
Reclamações.
Pedidos para eu aparecer mais.
Então encontramos uma sequência diferente.
Patrícia perguntando sobre seguro de saúde.
Depois sobre meu plano.
Depois, estranhamente, sobre cobertura de emergência durante gravidez.
Olhei para Rafael.
— Por que ela perguntaria isso?
— Na época, disse que uma conhecida estava grávida.
A mensagem seguinte foi pior.
“Se uma gestante sofrer uma queda, o hospital é obrigado a avisar a polícia?”
Minha pele gelou.
— Quando ela mandou isso?
Rafael verificou.
— Nove dias atrás.
Ficamos em silêncio.
Aquilo já não parecia curiosidade.
Parecia preparação.
— Você respondeu?
— Disse que não sabia e que dependia das circunstâncias.
Outra mensagem.
“E se a própria família disser que foi acidente?”
Rafael não tinha respondido.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Ela estava estudando como controlar a versão.
— É o que parece.
Pela primeira vez, vi algo próximo de culpa no rosto dele.
— Eu devia ter percebido.
— Não.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Não faz isso.
Ele me encarou.
— Eles passaram anos tornando o absurdo normal. Era assim que funcionavam.
Aquela frase ficou entre nós.
Eu finalmente compreendi uma coisa que doía admitir.
Minha família não tinha criado aquela violência de repente.
Eles tinham construído o terreno durante anos.
Cada desculpa dada a Camila.
Cada vez que eu fui culpada.
Cada vez que meus pais ensinaram a ela que consequências podiam ser transferidas para mim.
O chute tinha sido uma explosão.
Mas o mecanismo vinha de muito antes.
O telefone de Rafael tocou.
Era Marcelo.
Ele atendeu no viva-voz.
— Encontraram Camila?
— Ainda não.
— Então o que aconteceu?
Houve alguns segundos de silêncio.
— A perícia preliminar identificou o ponto onde o incêndio começou.
Rafael ficou atento.
— No quarto dos documentos?
— Não exatamente.
Marcelo respirou fundo.
— O fogo começou dentro de uma lixeira metálica. Alguém queimou apenas alguns papéis específicos.
— Quais?
— Extratos bancários.
Rafael e eu nos entreolhamos.
— De quem?
— De Camila.
Meu coração afundou.
Marcelo continuou:
— Conseguimos recuperar parte de uma folha.
O som de papel sendo movimentado veio pelo telefone.
— Há uma transferência recebida três dias antes do ataque.
Rafael perguntou:
— Valor?
— Vinte e cinco mil reais.
Eu senti a garganta fechar.
Camila estava desempregada.
Dependia dos meus pais até para pagar combustível.
— Quem enviou?
— É isso que estamos tentando descobrir.
Rafael se levantou.
— Nome da conta?
— Uma empresa.
— Qual empresa?
Marcelo hesitou.
— Almeida Consultoria Patrimonial Ltda.
O mundo pareceu inclinar.
Reconheci o sobrenome imediatamente.
Rafael também.
Porque aquela empresa não pertencia aos Ferreira.
Pertencia à família dele.
Ele ficou pálido.
— Isso não é possível.
— Você conhece?
Rafael demorou a responder.
— Era uma empresa do meu pai.
Meu peito apertou.
O pai de Rafael havia morrido quase dois anos antes.
Marcelo continuou:
— Então precisamos descobrir quem ainda movimenta essa conta.
A ligação terminou.
Fiquei olhando para meu marido.
Pela primeira vez desde o ataque, havia medo no rosto dele que não tinha relação apenas comigo ou com nosso bebê.
— Rafael...
Ele continuava olhando para a tela.
— Depois da morte do meu pai, a empresa deveria ter ficado praticamente inativa.
— Quem tinha acesso?
Ele ergueu os olhos.
— Eu.
Uma pausa.
— E minha mãe.
Naquele instante, o ataque deixou de parecer um segredo restrito à casa dos meus pais.
Alguém ligado à família de Rafael tinha enviado dinheiro para Camila poucos dias antes de ela tentar destruir nossa gravidez.
E agora alguém estava queimando exatamente as provas que poderiam revelar por quê.
**Continua — clique na Parte 5 para ler o próximo capítulo.**







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