O sorriso de Vera durou menos de um segundo.
Não porque ela tivesse percebido o que eu sabia, mas porque viu o celular na minha mão.
Seus olhos desceram imediatamente para a tela.
Eu me movi antes que ela pudesse gritar.
Rolei para o lado, puxei a renda do vestido que ainda estava presa no criado-mudo e saí debaixo da cama pelo lado oposto. Levantei-me com dificuldade, os joelhos doloridos, o vestido amassado e coberto de poeira. Eu devia parecer ridícula. Uma noiva escondida debaixo da própria cama na noite do casamento.
Mas ninguém riu.
Eduardo me encarava como se estivesse vendo uma desconhecida.
Sofia levou a mão à barriga.
Vera se levantou devagar.
“Mariana…”
“Não.”
Minha própria voz me surpreendeu. Estava calma.
Dois minutos antes, eu queria chorar. Queria arrancar a aliança, jogar alguma coisa contra a parede, perguntar a Eduardo por quê. Queria obrigá-lo a olhar para mim e explicar em que momento nossos dois anos juntos tinham se transformado numa mentira.
Mas a fotografia de Henrique havia mudado tudo.
Se meu advogado pessoal estava envolvido, aquela traição era maior do que meu casamento.
E eu precisava descobrir até onde chegava.
Eduardo deu um passo na minha direção.
“Amor, isso não é o que você está pensando.”
Olhei para ele.
“Qual parte?”
Ele parou.
“A amante grávida?”
Sofia desviou os olhos.
“O plano para me declarar desequilibrada?”
Vera perdeu a cor.
“Ou os documentos que vocês pretendiam usar para tomar meu apartamento?”
Eduardo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Levantei o celular.
“Eu gravei tudo.”
Foi como acender um fósforo dentro de um quarto cheio de gasolina.
Vera avançou.
“Me dá isso!”
Afastei-me.
Eduardo segurou a mãe pelo braço.
“Mãe!”
“Ela não pode sair daqui com essa gravação!”
Sofia começou a chorar.
“Você disse que ninguém seria prejudicado, Eduardo.”
Eu a encarei.
“Você estava aqui chamando meu filho de ‘nosso bebê’ enquanto planejava morar na minha casa.”
“Eu não sabia de tudo.”
“Sabia o suficiente.”
Ela ficou em silêncio.
Meu telefone vibrou novamente.
Henrique.
O nome apareceu na tela.
Todos viram.
Vera empalideceu.
Eduardo olhou para a mãe.
Foi rápido, mas eu percebi.
Medo.
Não surpresa.
Medo.
Então eles conheciam Henrique muito melhor do que deveriam.
Atendi.
“Mariana?”, ele disse imediatamente. “Onde você está?”
“Na suíte.”
Houve uma pausa.
“Está sozinha?”
Olhei para Eduardo.
“Não.”
Outra pausa.
Mais longa.
“Você precisa sair daí.”
Quase sorri.
“Por quê?”
“Porque aconteceu uma coisa com o apartamento.”
“Que coisa?”
“Não posso explicar por telefone.”
“Então venha até aqui.”
“Mariana…”
“Venha.”
Desliguei.
Eduardo passou a mão pelos cabelos.
“Você está cometendo um erro.”
“Meu erro foi hoje de manhã.”
Ele olhou para minha aliança.
Eu também.
Aquele pequeno círculo dourado parecia pesar quilos.
Vera recuperou a postura primeiro.
“Escuta, Mariana. Todo casamento tem coisas que parecem piores quando são tiradas de contexto.”
Eu não consegui acreditar.
“Qual é o contexto correto para planejar roubar minha casa?”
“Roubar é uma palavra muito forte.”
“E qual palavra você prefere?”
Ela apertou os lábios.
Eduardo tentou se aproximar novamente.
“Eu posso explicar a Sofia.”
“Pode?”
“Foi complicado.”
Sofia levantou a cabeça.
“Não faz isso.”
Ele virou para ela.
“Sofia…”
“Não me transforme na culpada agora.”
Algo mudou no rosto dela.
Raiva.
“Você me procurou.”
Meu olhar voltou para Eduardo.
Sofia continuou.
“Foi você que apareceu no meu apartamento seis meses atrás dizendo que o casamento era temporário.”
Seis meses.
Eu senti como se alguém tivesse empurrado o ar para fora dos meus pulmões.
Seis meses antes, Eduardo havia me levado para Campos do Jordão no meu aniversário. Ficamos numa pousada pequena. Ele preparou café para mim pela manhã e passou quase uma hora tentando acender uma lareira que não funcionava.
Naquela viagem, começamos a falar seriamente sobre casamento.
Enquanto fazia planos comigo, ele já fazia promessas para ela.
“Cala a boca, Sofia”, Vera disse.
“Não vou calar!”
Sofia começou a chorar de verdade.
“Ele disse que Mariana tinha dinheiro suficiente para resolver nossos problemas.”
Nossos problemas.
A frase me atingiu.
“Que problemas?”
Ninguém respondeu.
“Que problemas, Sofia?”
Ela olhou para Eduardo.
Ele balançou a cabeça discretamente.
Eu percebi.
“Dívidas?”, perguntei.
Silêncio.
“Eduardo está devendo dinheiro?”
Vera interveio.
“Isso não interessa.”
“Então é verdade.”
Antes que ela respondesse, alguém bateu à porta.
Três batidas.
Todos congelaram.
Henrique chegou rápido demais.
Eu havia desligado havia menos de quatro minutos.
Eduardo percebeu ao mesmo tempo.
“Como ele já estava aqui?”
Boa pergunta.
Caminhei até a porta, mas não abri imediatamente.
“Henrique?”
“Sou eu.”
Olhei pelo olho mágico.
Era ele.
Terno azul-escuro, gravata solta, uma pasta de couro na mão.
Mas havia outra pessoa no corredor.
Um homem alto, de costas, próximo aos elevadores.
“Quem está com você?”
Henrique hesitou.
“Ninguém.”
Mentira.
Dei um passo para trás.
Henrique bateu novamente.
“Mariana, abra. Seu pai pediu que eu viesse.”
Meu pai.
A mensagem anônima ainda estava aberta no celular.
A fotografia mostrava Henrique entrando no cartório com Eduardo e Vera.
“Quando você falou com meu pai?”
Silêncio.
“Henrique?”
“Há quinze minutos.”
Aquilo podia ser verdade.
Mas então Sofia falou atrás de mim.
“Não abre.”
Virei-me.
Ela estava completamente pálida.
Eduardo avançou.
“Sofia, fica quieta.”
“Por quê?”
Ela olhava para a porta.
“Porque esse homem não trabalha para o pai dela.”
Meu coração bateu violentamente.
“O que você disse?”
Sofia engoliu em seco.
“Eu vi ele antes.”
Vera avançou para ela.
“Sofia!”
“Na casa do Gustavo.”
Eduardo segurou Sofia pelos ombros.
“Chega!”
Eu levantei o celular.
“Quem é Gustavo?”
Ninguém respondeu.
Henrique voltou a bater.
Dessa vez mais forte.
“Mariana, abra agora.”
Sofia começou a tremer.
“Gustavo é o homem para quem Eduardo deve dinheiro.”
Olhei para meu marido.
Toda a arrogância havia desaparecido do rosto dele.
“Quanto?”
Ele não respondeu.
“Quanto, Eduardo?”
Sofia respondeu por ele.
“Quatro milhões.”
Por alguns segundos, só ouvi minha própria respiração.
Quatro milhões de reais.
Aquilo não era uma dívida comum.
“Como?”
Eduardo baixou os olhos.
Vera tentou interromper.
“Não temos tempo para isso.”
“Como ele perdeu quatro milhões?”
Sofia limpou as lágrimas.
“Ele não perdeu.”
Eduardo levantou a cabeça bruscamente.
“Sofia!”
Mas ela terminou.
“Ele pegou.”
O corredor ficou silencioso.
Até Henrique havia parado de bater.
“Pegou de quem?”, perguntei.
Sofia me encarou.
“Do Grupo Sampaio.”
Meu corpo inteiro esfriou.
Aquilo era impossível.
Eduardo nunca trabalhara para nenhuma empresa da minha família.
Pelo menos não que eu soubesse.
Então o celular de Henrique tocou do outro lado da porta.
O som atravessou a madeira.
Segundos depois, meu próprio telefone vibrou.
Papai.
Atendi imediatamente.
“Pai?”
“Mariana.” A voz dele estava estranha. “Escute com atenção. Não abra a porta para Henrique.”
Olhei para a madeira à minha frente.
“Por quê?”
“Porque Henrique desapareceu ontem.”
Meu sangue gelou.
“Como assim?”
“Ele não atende ninguém há quase vinte e quatro horas. A polícia está procurando por ele.”
Olhei novamente pelo olho mágico.
Henrique continuava parado do outro lado.
A mesma pasta nas mãos.
O mesmo rosto que eu conhecia havia oito anos.
“Pai… ele está na minha frente.”
Meu pai ficou completamente em silêncio.
Então falou cinco palavras que fizeram minhas mãos começarem a tremer.
“Mariana, esse homem não é Henrique.”







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