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Na Noite Do Meu Casamento, Me Escondi Debaixo Da Cama — E Ouvi Meu Marido Planejar Como Acabar Comigo

Ricardo permaneceu diante da janela, olhando para as luzes de São Paulo como se esperasse encontrar nelas uma resposta que não precisasse me dar. Eu ainda segurava o telefone junto ao ouvido, embora Henrique já tivesse desligado. A frase dele continuava ecoando dentro de mim.

Foi por causa do que existe lá dentro que sua mãe conheceu Ricardo.

“Você sabe onde fica o cofre”, eu disse.

Meu pai demorou alguns segundos para se virar.

“Sei.”

“E sabia que minha mãe o tinha alugado?”

“Sabia.”

“Mas acabou de dizer que nunca tinha ouvido falar da chave.”

“Porque são coisas diferentes.”

Soltei uma risada curta, sem humor.

“Tudo é sempre diferente quando você precisa explicar uma mentira.”

A dor atravessou o rosto dele.

“Eu nunca menti sobre amar você.”

“Eu não perguntei sobre amor.”

Aquela resposta o silenciou.

Eu mesma senti o peso dela.

Ricardo havia me criado. Ficara sentado ao lado da minha cama quando tive pneumonia aos onze anos. Aprendera a fazer tranças terríveis quando minha mãe viajava. Aos dezessete, quando bati o carro, ele chegou antes da polícia e me abraçou antes de perguntar pelo veículo. Nada que estivesse naquela certidão apagaria essas memórias.

Mas amor não dava a ele o direito de escolher quais partes da minha vida eu podia conhecer.

“Quero a verdade.”

Ele caminhou até a mesa.

“Conheci Helena em 1996. Eu tinha uma pequena construtora naquela época. Nada parecido com o Grupo Sampaio de hoje.”

“E ela trabalhava na Horizonte.”

“Sim. Na área jurídica.”

“E o cofre?”

Ricardo respirou fundo.

“Helena me procurou porque precisava esconder documentos.”

Meu coração acelerou.

“Documentos de quê?”

“Terrenos. Procurações. Contratos. Registros de empresas.”

“Fraudes?”

“Talvez.”

“Talvez?”

“Eu nunca vi tudo.”

Eu o encarei.

“Henrique disse que foi por causa do conteúdo daquele cofre que vocês se conheceram.”

“Porque Helena precisava de alguém de fora da Horizonte. Alguém que pudesse ajudá-la a provar que a empresa estava desviando propriedades.”

Aquilo fazia sentido.

Mas apenas parcialmente.

“E Gustavo?”

O maxilar de Ricardo endureceu.

“Era diretor financeiro.”

“Então ele roubava a empresa?”

“Não exatamente.”

Antes que pudesse continuar, o investigador aproximou-se.

“Desculpem interromper. Temos novidades sobre o apartamento da senhora Mariana.”

Ele colocou o tablet sobre a mesa.

As imagens mostravam dois homens entrando no meu prédio antigo pouco depois das onze. Bonés baixos, roupas comuns. Um deles carregava uma mochila.

“Eles saíram sete minutos depois”, explicou.

“Com a chave?”

“Não conseguimos confirmar.”

A imagem avançou.

Os dois homens apareceram novamente no elevador.

Um deles segurava minha caixa de madeira.

Meu peito apertou.

“Eles levaram tudo.”

“Talvez não.”

O investigador ampliou o pulso de um dos homens.

Havia uma tatuagem.

Ricardo aproximou o rosto.

Eu percebi sua reação.

“Você conhece?”

“Não.”

Outra mentira.

Dessa vez eu não discuti.

Apenas fotografei a tela com meu celular.

Se eu havia aprendido alguma coisa naquela noite, era que confrontar imediatamente quem mentia apenas fazia a pessoa construir uma mentira melhor.

Poucos minutos depois, Sofia pediu para falar comigo.

Sozinha.

Encontramo-nos num pequeno salão do hotel. Ela estava sem os sapatos e abraçava os próprios braços. Sem maquiagem perfeita e sem Eduardo ao lado, parecia muito mais jovem.

“Eu sei que você me odeia”, começou.

“Não sei o suficiente sobre você para odiar.”

Ela abaixou a cabeça.

“Eduardo mentiu para mim também.”

“Isso não transforma você em vítima.”

“Eu sei.”

Pelo menos não tentou se defender.

“Por que queria falar comigo?”

Sofia tirou algo da bolsa.

Um cartão magnético preto.

Colocou sobre a mesa.

“Peguei isso da carteira do Eduardo.”

Não toquei.

“Quando?”

“Hoje.”

“Por quê?”

“Porque comecei a desconfiar dele.”

Olhei o cartão.

Não havia logotipo. Apenas um número gravado: 1706.

“Você sabe o que abre?”

“Não. Mas Gustavo perguntou por ele duas vezes.”

Meu corpo ficou tenso.

“Você conhece Gustavo pessoalmente?”

Ela assentiu.

“Eduardo me levou à casa dele.”

“Quando?”

“Três meses atrás.”

“E o que viu?”

Sofia hesitou.

“Fotos suas.”

Senti um arrepio.

“Que fotos?”

“Centenas.”

Minha garganta secou.

“Na rua. No trabalho. Com Eduardo. Algumas eram antigas.”

“Quanto antigas?”

“Você parecia adolescente em algumas.”

Aquilo não podia ter começado três anos antes.

Alguém me observava havia muito mais tempo.

“Gustavo disse alguma coisa sobre minha mãe?”

Sofia ficou pálida.

“Uma vez.”

“O quê?”

“Ele disse que você tinha os olhos dela.”

Meu coração bateu mais rápido.

“Gustavo conhecia minha mãe.”

“Pelo jeito, muito bem.”

A porta se abriu.

Ricardo entrou.

Ao ver o cartão preto sobre a mesa, ele parou.

Foi apenas um segundo.

Mas Sofia percebeu também.

“Você sabe o que é isso”, falei.

“Não.”

Peguei o cartão.

“Então por que ficou assustado?”

“Porque não gosto de objetos misteriosos aparecendo depois de tudo que aconteceu.”

“1706 significa alguma coisa?”

Ricardo não respondeu.

Eu já sabia.

“Significa.”

Ele fechou os olhos.

“Mariana…”

“Chega.”

Levantei-me.

“Ou você me conta agora ou eu descubro sem você.”

Ricardo olhou para Sofia, depois para mim.

“Dezessete de junho.”

“Que aconteceu nessa data?”

A resposta demorou.

“Foi o dia em que sua mãe tentou sair da Horizonte.”

Meu coração apertou.

“E?”

“Ela desapareceu por três dias.”

Nunca ouvira aquilo.

“Desapareceu?”

“Quando voltou, estava ferida, assustada e se recusava a dizer onde estivera.”

“E você nunca contou isso?”

“Ela me fez prometer.”

“Minha mãe parece ter feito você prometer muitas coisas.”

Ricardo baixou a cabeça.

Então seu celular tocou.

Ele olhou para a tela.

Não atendeu.

“Quem é?”

“Ninguém.”

Estendi a mão.

“Mostra.”

“Mariana…”

“Mostra.”

Depois de alguns segundos, ele virou o aparelho.

Número desconhecido.

Mas havia uma mensagem.

VOCÊ DEVERIA TER DESTRUÍDO O CONTEÚDO DO COFRE QUANDO HELENA MORREU.

Abaixo, outra chegou.

AGORA SUA FILHA VAI TERMINAR O QUE A MÃE COMEÇOU.

Sofia levou a mão à boca.

Eu reli a mensagem.

Sua filha.

Então chegou uma terceira.

Uma fotografia.

Era o Banco Paulista da Avenida São Luís.

A imagem havia sido tirada naquela noite.

Na entrada estava um homem.

Gustavo Ferraz.

Eu nunca o vira pessoalmente, mas reconheci o rosto imediatamente pelas pesquisas rápidas que o investigador fizera.

Ao lado dele havia outro homem.

Eduardo.

Meu marido deveria estar sob supervisão policial dentro do hotel.

Olhei para o relógio da fotografia.

00h38.

Menos de dois minutos antes.

“Como Eduardo saiu daqui?”

Ricardo pegou o telefone.

Mas uma quarta mensagem apareceu antes que pudesse ligar para alguém.

Dessa vez era um vídeo.

Apertei play.

Eduardo estava diante de uma câmera, visivelmente nervoso.

Atrás dele havia a entrada do banco.

“Mariana”, disse ele, “se você está vendo isso, Gustavo já sabe que a chave não estava na caixa.”

Meu coração parou.

Então Eduardo levantou um pequeno objeto dourado.

Meu pingente.

“Porque a chave sempre esteve comigo.”

Olhei para a tela sem respirar.

Eduardo aproximou o rosto da câmera.

“E existe uma coisa que você precisa saber antes de abrir aquele cofre.”

Ele olhou para alguém fora da imagem.

Depois pronunciou uma frase que transformou completamente o silêncio da sala.

“Gustavo Ferraz afirma que é seu pai biológico.”

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