A imagem congelou no rosto de Eduardo, mas a frase continuou reverberando dentro de mim.
Gustavo Ferraz afirma que é seu pai biológico.
Por alguns segundos, não senti raiva. Nem medo. Apenas uma espécie de vazio, como se minha mente tivesse recusado a informação antes que ela pudesse chegar ao coração.
Sofia foi a primeira a falar.
“Mariana…”
Levantei a mão.
“Não.”
Eu precisava de silêncio.
Olhei para Ricardo.
Ele não parecia surpreso.
Foi isso que me destruiu.
“Você sabia.”
“Eu sabia que existia essa possibilidade.”
“Possibilidade?”
Minha voz saiu baixa.
“Há quanto tempo?”
Ricardo respirou fundo.
“Desde antes de você nascer.”
Sofia se afastou discretamente. Talvez tivesse entendido que aquela conversa não pertencia a ela.
Eu me aproximei de Ricardo.
“Minha mãe teve um relacionamento com Gustavo?”
“Sim.”
A palavra foi simples.
A consequência, não.
“Quando?”
“Antes de mim. E durante um período muito curto depois que nós nos conhecemos.”
Fechei os olhos.
Então aquela certidão fazia sentido.
“Ela não sabia quem era meu pai.”
Ricardo demorou a responder.
“Não.”
Minha garganta queimou.
“E você decidiu simplesmente fingir que era você?”
“Eu decidi criar você.”
“Sem nunca descobrir?”
“Helena não queria descobrir.”
“E você aceitou?”
“Eu amava sua mãe.”
“Isso não responde.”
“Eu amava você antes mesmo de você nascer.”
Pela primeira vez, a voz dele falhou.
Aquilo me atingiu, mas não apagou a mentira.
“Você deveria ter me contado.”
“Talvez.”
“Não talvez.”
Ele assentiu lentamente.
“Você tem razão.”
Meu telefone vibrou.
Outra mensagem.
01h15. Banco Paulista. Venha sozinha se quiser respostas.
Abaixo havia uma fotografia do pingente.
“Não vai”, Ricardo disse imediatamente.
“Não disse que vou.”
Mas nós dois sabíamos que eu estava considerando.
Ele se aproximou.
“Gustavo passou vinte e nove anos esperando alguma coisa. Se está se expondo agora, é porque acredita que finalmente pode conseguir.”
“Conseguir o quê?”
“Não sei.”
“Você continua dizendo isso.”
“Porque é verdade.”
Olhei para o relógio.
00h43.
Trinta e dois minutos.
“Preciso falar com Eduardo.”
“Ele está com Gustavo.”
“Exatamente.”
Ricardo chamou o investigador. Descobrimos rapidamente como Eduardo saíra do hotel: nunca estivera formalmente detido. Depois de prestar depoimento, alegara mal-estar, pedira para ir ao banheiro e utilizara uma saída de serviço.
Vera continuava no hotel.
Quando soube que Eduardo desaparecera, exigiu falar comigo.
Encontrei-a cercada por dois policiais. A mulher elegante e arrogante da suíte havia sumido. Seu cabelo estava desfeito, o rímel manchava a pele.
“Meu filho está em perigo”, disse ela.
“Seu filho me colocou em perigo.”
“Você não entende Gustavo.”
“Então me faça entender.”
Ela olhou para Ricardo.
“Não com ele aqui.”
Ricardo deu um passo.
“Vera…”
“Você principalmente.”
Aquilo me chamou a atenção.
“Vocês se conhecem?”
Vera riu amargamente.
“Todo mundo nessa história se conhece há mais tempo do que você imagina.”
Ricardo ficou imóvel.
“Fala”, ordenei.
Vera respirou fundo.
“Meu marido trabalhava para a Horizonte.”
Eu sabia que o pai de Eduardo morrera quando ele era adolescente. Eduardo sempre dissera que fora contador.
“Qual era o nome dele?”
“Antônio Moura.”
Ricardo fechou os olhos.
Ele conhecia.
“Antônio descobriu os desvios”, Vera continuou. “Foi ele quem percebeu que Gustavo estava transferindo terrenos para empresas de fachada.”
“Então meu pai estava certo.”
Vera olhou para Ricardo.
“Seu pai?”
A crueldade daquela pergunta foi deliberada.
Ignorei.
“Minha mãe tentou denunciar Gustavo?”
“Sim. Mas descobriu tarde demais que não era apenas dinheiro.”
“Então o que era?”
Vera hesitou.
“Identidades.”
Senti um arrepio.
“Que identidades?”
“Pessoas usadas como proprietárias de empresas que nunca souberam que possuíam. Mortos, funcionários, parentes. Documentos falsificados. Certidões alteradas.”
Pensei imediatamente no homem que tinha o rosto de Henrique.
“Isso tem relação com o falso Henrique?”
“Provavelmente.”
Ricardo aproximou-se.
“Antônio nunca me contou isso.”
“Porque Antônio não confiava em você.”
Os dois se encararam.
“Por quê?”
Vera respondeu olhando para mim.
“Porque uma das empresas de fachada acabou pertencendo ao Grupo Sampaio.”
O silêncio caiu.
Virei para Ricardo.
“Isso é verdade?”
“Eu descobri anos depois.”
“E fez o quê?”
“Fechei a empresa.”
“Destruiu os registros?”
“Não.”
Vera riu.
“Mentiroso.”
Ricardo perdeu a calma pela primeira vez.
“Cuidado.”
“Com o quê? Com sua reputação?”
“Com aquilo que você não entende.”
“Eu entendo perfeitamente. Helena encontrou provas. Antônio ajudou. E então os dois perceberam que havia gente poderosa demais envolvida.”
“Meu marido morreu oito meses depois”, Vera disse.
Minha raiva diminuiu por um instante.
“Como?”
“Acidente de carro.”
Ricardo olhou para ela.
“Foi considerado acidente.”
“Você realmente acredita nisso?”
Vera abriu a bolsa que a polícia havia devolvido e tirou uma fotografia antiga.
Colocou-a diante de mim.
Quatro pessoas estavam diante de um prédio.
Minha mãe.
Gustavo.
Antônio Moura.
E Ricardo.
Todos jovens.
No verso havia uma data.
17 de junho de 1997.
“Essa foto foi tirada no dia em que Helena desapareceu”, Vera disse.
Olhei para meu pai.
“Você estava lá.”
“Sim.”
“Por que nunca contou?”
“Porque aquela noite terminou de uma forma que nenhum de nós queria lembrar.”
Meu celular tocou.
Eduardo.
Atendi no viva-voz.
“Mariana.”
A voz dele estava baixa.
“Estou ouvindo.”
“Não venha ao banco.”
Olhei para Ricardo.
“Você acabou de mandar eu ir.”
“Não fui eu.”
Meu corpo gelou.
“Então quem enviou as mensagens?”
“Gustavo.”
Ouvi uma discussão abafada ao fundo.
“Eduardo, onde você está?”
“No estacionamento subterrâneo.”
“Por que está ajudando ele?”
Silêncio.
“Eduardo?”
“Porque ele sabe onde está Sofia.”
Sofia ficou branca.
“Eu estou aqui”, ela disse.
Do outro lado, Eduardo parou de respirar.
“Como assim?”
Sofia aproximou-se do telefone.
“Eduardo, eu estou no hotel.”
Silêncio.
Então ele sussurrou:
“Meu Deus.”
“Que foi?”
“A mulher que Gustavo me mostrou…”
Um barulho forte interrompeu a frase.
A ligação permaneceu aberta.
“Eduardo!”
Passos.
Uma porta.
Depois a voz dele voltou, quase num sussurro.
“Mariana, não confie na Sofia.”
Todos olharam para ela.
Sofia recuou.
“O quê?”
Eduardo continuou.
“A mulher que está com você não é Sofia.”
Ela ficou imóvel.
Minha pele inteira se arrepiou.
“Eduardo, isso não faz sentido.”
“Eu estou olhando para Sofia agora.”
Olhei para a mulher diante de mim.
O mesmo vestido verde-escuro.
A mesma barriga.
O mesmo rosto que estivera no casamento.
Ela começou a chorar.
“Ele está mentindo.”
Mas então Eduardo disse algo ainda pior.
“A Sofia verdadeira não está grávida.”
Meus olhos desceram lentamente para a barriga saliente diante de mim.
A mulher percebeu.
Deu um passo para trás.
E, pela primeira vez desde que a conheci, sua mão não foi instintivamente proteger a barriga.
Foi até o bolso do vestido.
“Não se aproxima”, ela disse.
A voz havia mudado.
Não havia mais lágrimas.
Não havia mais medo.
Ricardo ficou na minha frente.
Os policiais avançaram.
A falsa Sofia sorriu.
Então retirou do bolso não uma arma, mas uma pequena chave metálica marcada com o mesmo número do cartão preto.
Ela a ergueu entre os dedos e olhou diretamente para mim.
“Seu marido roubou o pingente errado, Mariana.”
Meu coração disparou.
Ela colocou a mão sobre a barriga falsa e arrancou de dentro do enchimento um pequeno envelope lacrado, amarelado pelo tempo.
Na frente havia uma única frase escrita com a letra da minha mãe:
Para minha filha, quando finalmente descobrir quem todos nós somos.







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