Fiquei olhando para o rosto jovem do meu pai na fotografia até os sons da estação parecerem distantes. Ele estava atrás de Helena e Aurora, parcialmente escondido pela sombra da varanda, mas não havia dúvida. Era Roberto Ferraz, talvez com trinta anos, olhando diretamente para a câmera. O problema não era apenas ele estar ali. Era a data escrita no verso: 1988. Segundo a história que eu ouvira durante toda a infância, meu pai conhecera minha mãe em 1990.
Guardei a fotografia antes que Eduardo pudesse perguntar qualquer coisa.
— Vamos embora.
— Para a empresa?
Olhei para o envelope que ordenava que eu não contasse a Roberto que Aurora estava viva.
— Não. Para casa.
Durante o caminho, meu pai ligou quatro vezes. Não atendi nenhuma. Na quinta, enviou uma mensagem: “Amanda, preciso saber exatamente o que você encontrou.”
Foi justamente por isso que decidi não responder.
Cheguei ao meu apartamento pouco depois das oito. Tranquei a porta, fechei as cortinas e espalhei sobre a mesa tudo o que havia no compartimento 317. Extratos, contratos, a agenda de minha mãe, a fotografia e a fita cassete. A maioria dos pagamentos seguia um padrão estranho: valores relativamente pequenos transferidos trimestralmente para empresas diferentes. Instituto Horizonte, A.S. Serviços Médicos, Fundação Vale Sereno. Algumas haviam sido encerradas anos antes. Outras nunca tiveram atividade comercial relevante.
Mas todas levavam ao mesmo código contábil.
**Projeto A-17.**
Peguei a agenda de minha mãe e comecei a procurar referências. Em uma página de 2004 encontrei uma anotação:
**“Aurora não recebe o dinheiro. Alguém recebe por ela.”**
Mais adiante:
**“Roberto diz que é proteção. Álvaro chama de acordo. Nenhum dos dois me conta contra quem estamos protegendo Amanda.”**
Meu nome fez meu coração acelerar.
Eu não era apenas filha de alguém investigando aquilo.
Eu fazia parte da razão.
Encontrei um velho aparelho de som no escritório. Meu pai o dera a mim anos antes porque eu gostava de guardar objetos antigos. A ironia quase me fez rir.
Coloquei a fita.
Primeiro veio apenas chiado.
Depois ouvi a voz de minha mãe.
Precisei fechar os olhos.
— Se você está ouvindo isso, alguma coisa deu errado.
Minha respiração parou.
— Amanda, existem verdades que escondemos para proteger quem amamos. O problema é que uma mentira usada como proteção continua sendo uma mentira.
Houve um ruído.
— Aurora está viva. Sempre esteve.
Levei a mão à boca.
— Ela não desapareceu por escolha. E Roberto sabe disso.
A gravação interrompeu-se abruptamente.
Virei a fita.
Nada.
Alguém havia apagado o restante.
Meu celular tocou naquele instante.
Marcelo.
Quase rejeitei, mas atendi.
— O que você quer?
— Você encontrou o compartimento.
Não era uma pergunta.
— Como sabe?
— Porque Álvaro me ligou.
Levantei-me.
— Hoje?
— Dez minutos atrás.
— Você disse que ele tinha desaparecido da sua vida.
— Tinha.
— O que ele queria?
Marcelo respirou fundo.
— Saber se você encontrou Aurora.
Olhei para a fotografia sobre a mesa.
— E o que respondeu?
— Que não sabia.
— Por que eu acreditaria em você?
— Não deveria. Mas precisa ouvir uma coisa: não vá ao endereço sozinha.
Meu corpo ficou rígido.
— Como sabe do endereço?
Silêncio.
— Marcelo?
— Porque recebi a mesma fotografia há seis anos.
Aquilo me atingiu como um golpe.
— Você sabia que Aurora estava viva durante todo o nosso casamento?
— Eu sabia que alguém dizia que ela estava viva. Nunca consegui confirmar.
— E nunca me contou.
— Eu estava sendo chantageado!
— Pare de usar chantagem para justificar cinco anos de mentiras.
Ele ficou em silêncio.
Então disse:
— Amanda, há uma coisa pior. Quando sua mãe morreu, eu investiguei o endereço. A casa de Campos do Jordão pertence a uma fundação ligada ao Grupo Alvorada.
— Qual?
— Fundação Vale Sereno.
Olhei para o extrato diante de mim.
O mesmo nome.
— Quem controla a fundação?
— Oficialmente, ninguém da sua família.
— E extraoficialmente?
— Seu pai assinou os primeiros repasses.
Desliguei.
Naquela noite não dormi.
Às seis da manhã, deixei meu celular principal no apartamento e peguei um aparelho reserva. Eduardo não poderia me acompanhar sem informar meu pai, então fui sozinha, exatamente como o bilhete exigia.
A estrada para Campos do Jordão parecia interminável. A cada curva, eu repetia para mim mesma que ainda não tinha provas contra meu pai. Havia documentos contraditórios, gravações incompletas e pessoas que haviam mentido durante anos.
Cheguei pouco antes das dez.
O endereço levava a uma casa antiga cercada por araucárias, distante da região turística. O portão estava aberto.
Estacionei e permaneci alguns segundos dentro do carro.
Então vi uma mulher parada na varanda.
Cabelos grisalhos. Corpo magro. Um lenço azul sobre os ombros.
Reconheci seus olhos imediatamente.
Eram os olhos da minha mãe.
Saí do carro.
— Aurora?
A mulher não respondeu. Apenas começou a chorar.
Subi os degraus devagar.
Quando fiquei diante dela, Aurora tocou meu rosto com mãos trêmulas.
— Você se parece tanto com Helena.
Minha garganta fechou.
— Por que minha mãe acreditava que você estava morta?
O rosto dela mudou.
— Porque foi a única maneira de manter você viva.
Entrei.
A casa era simples, mas extremamente organizada. Havia medicamentos sobre uma mesa e fotografias antigas nas paredes. Em uma delas, Helena e Aurora apareciam crianças. Em outra, meu pai estava com as duas.
— Meu pai sabia onde você estava?
Aurora assentiu.
— Durante todos esses anos?
— Sim.
A raiva veio instantaneamente.
— Então ele mentiu para mim.
— Roberto mentiu para todos.
— Inclusive para minha mãe?
Aurora olhou pela janela.
— Essa resposta é mais complicada.
Ela preparou café, embora minhas mãos tremessem demais para segurar a xícara. Então contou que, no final dos anos 1980, ela trabalhara no departamento financeiro de uma empresa que mais tarde seria incorporada ao Grupo Alvorada. Descobrira pagamentos clandestinos e empresas fictícias. Quando tentou denunciar, recebeu ameaças.
— Álvaro criou minha morte administrativa — explicou. — Um acidente no exterior, documentos falsificados, registros encerrados. Eu desapareci.
— E meu pai financiou tudo.
— Sim.
— Por quê?
Aurora me encarou.
— Porque ele me amava.
Senti algo apertar meu peito.
— Como irmã da mulher com quem ele se casaria?
Ela baixou os olhos.
Foi suficiente.
— Não.
Aurora começou a chorar.
— Roberto e eu ficamos juntos durante três anos.
Levantei-me tão depressa que bati na mesa.
— Minha mãe sabia?
— Descobriu depois.
— Depois de quê?
Aurora demorou para responder.
— Depois que você nasceu.
Minha mente pareceu se partir em dezenas de perguntas.
— O que isso tem a ver comigo?
Aurora caminhou até um armário e retirou uma caixa de madeira. De dentro, pegou um envelope amarelado.
— Helena encontrou isso quando você tinha quatro meses.
Era um exame antigo.
Na parte superior havia o nome de minha mãe.
**Helena Almeida Ferraz.**
Abaixo, o meu.
E no campo destinado à compatibilidade biológica havia uma anotação manuscrita.
**“Incompatibilidade materna confirmada.”**
Li três vezes.
— Isso está errado.
Aurora não respondeu.
— Minha mãe me deu à luz.
— Helena criou você — disse ela, com a voz quebrada. — E amou você mais do que qualquer pessoa neste mundo.
— Não foi isso que perguntei.
Ela fechou os olhos.
— Não.
Dei um passo para trás.
— Quem é minha mãe?
Aurora me olhou.
E naquele instante compreendi antes mesmo que ela respondesse.
— Eu sou.
O silêncio que se seguiu foi quase insuportável.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Amanda...
— Não toque em mim.
Ela parou.
— Helena não podia ter filhos — continuou Aurora. — Eu estava grávida quando precisei desaparecer. Roberto não podia desaparecer comigo sem destruir tudo o que estava construindo. Helena concordou em registrar você como filha dela para que ninguém pudesse usar você para me encontrar.
— Meu pai é Roberto?
Aurora abriu a boca.
Mas não respondeu.
E aquele silêncio revelou que ainda havia algo pior.
— Quem é meu pai?
Antes que Aurora pudesse falar, ouvimos um carro parar do lado de fora.
Ela perdeu toda a cor.
— Você contou a alguém que vinha?
— Não.
Aurora correu até a janela e afastou discretamente a cortina.
Seu rosto se transformou.
— Meu Deus.
— Quem é?
Ela segurou meu braço.
— Você precisa sair pelos fundos.
— Aurora, quem chegou?
A porta da frente se abriu antes que ela respondesse.
Passos atravessaram o corredor.
Então uma voz masculina que eu conhecia desde criança falou do outro lado da sala:
— Eu avisei que esse dia chegaria.
Não era meu pai.
Era Álvaro Siqueira.
Ele entrou apoiado em uma bengala, muito mais velho do que eu lembrava. Parou ao me ver e soltou um suspiro cansado.
— Amanda, se Aurora acabou de dizer que é sua mãe, então chegou a hora de você descobrir a outra metade.
Aurora colocou-se entre nós.
— Não.
Álvaro ignorou-a.
Retirou do bolso interno do paletó um envelope lacrado e colocou-o sobre a mesa.
Na frente estava escrito:
**EXAME DE PATERNIDADE — AMANDA ALMEIDA.**
Olhei para Aurora.
Ela estava chorando.
— Roberto não é meu pai — sussurrei.
Álvaro balançou lentamente a cabeça.
— Não.
Então apontou para o envelope.
— E quando você descobrir quem é, finalmente vai entender por que Helena precisou morrer.







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