Fiquei olhando para o envelope sem tocá-lo. Durante toda a viagem até Campos do Jordão, eu me preparara para descobrir que meu pai havia mentido sobre Aurora, talvez até sobre minha mãe. Não me preparara para descobrir que Helena não era minha mãe biológica. Muito menos para ouvir que Roberto também não era meu pai.
— Abra — disse Álvaro.
Aurora segurou meu pulso.
— Amanda, não faça isso desse jeito.
Afastei a mão dela.
— Passei trinta e quatro anos vivendo “desse jeito”. Todo mundo decidindo qual verdade eu podia suportar.
Peguei o envelope e rompi o lacre. O exame era antigo, datado de 1992. Li os códigos, os marcadores genéticos e, finalmente, a conclusão. Paternidade biológica compatível: 99,7%.
O nome abaixo me fez parar de respirar.
**Álvaro Siqueira.**
Levantei os olhos lentamente.
— Você?
Aurora começou a chorar.
Álvaro permaneceu imóvel.
— Sim.
A raiva veio antes da tristeza.
— Então você é meu pai?
— Biologicamente.
— E Roberto?
— Foi o homem que escolheu ser seu pai quando soube a verdade.
Aquilo não fazia sentido. Aurora acabara de dizer que tivera um relacionamento de três anos com Roberto.
— Explique tudo. Agora.
Aurora sentou-se.
— Eu amava Roberto. Mas, em 1991, nós nos separamos durante alguns meses. Ele estava obcecado em salvar a empresa do pai, e eu já havia descoberto movimentações financeiras que colocavam pessoas perigosas perto de nós. Álvaro era advogado da empresa. Trabalhávamos juntos na investigação. Eu estava vulnerável. Nós nos aproximamos.
Álvaro fechou os olhos.
— Foi um erro que mudou cinco vidas.
— E eu fui esse erro?
— Não — respondeu Aurora imediatamente. — Você nunca foi.
Eu ri sem humor.
— Parece que todo mundo passou décadas construindo mentiras ao meu redor por causa desse “não erro”.
Álvaro aproximou-se da mesa.
— Quando Aurora descobriu a gravidez, já estava novamente com Roberto. Pouco depois, começaram as ameaças. Não por causa da gravidez, mas por causa do que ela descobrira nas contas.
— Os pagamentos?
Ele assentiu.
— O Grupo Alvorada não criou aquele esquema. Herdou-o.
Álvaro explicou que o pai de Roberto, meu avô, adquirira no fim dos anos oitenta uma empresa de logística quase falida. Dentro dela havia contratos usados para movimentar dinheiro clandestinamente. Aurora descobrira que alguns fornecedores eram fachadas. Antes que conseguisse reunir provas suficientes, alguém tentou invadir seu apartamento.
— Criamos a morte de Aurora para fazê-la desaparecer — disse Álvaro. — Helena assumiu sua identidade em alguns exames, Roberto financiou a proteção e eu cuidei da documentação.
— E eu?
Aurora enxugou as lágrimas.
— Você nasceu meses depois, numa clínica particular. Helena registrou você como filha dela e de Roberto.
— Por quê?
— Porque meu nome precisava desaparecer completamente.
Minha cabeça doía.
— E Helena aceitou criar a filha do marido com a própria irmã?
Aurora baixou os olhos.
— Foi ideia dela.
Aquilo me destruiu de uma maneira que eu não esperava.
Helena sabia.
E mesmo assim me escolhera.
Lembrei-me dela penteando meus cabelos antes da escola, segurando minha mão quando tive pneumonia, esperando acordada quando cheguei tarde da minha primeira festa. Nunca houvera distância. Nunca houvera ressentimento.
Sentei-me porque minhas pernas não conseguiam mais me sustentar.
— Então por que ela morreu?
Álvaro caminhou até a janela.
— Porque, anos depois, Helena descobriu que os pagamentos clandestinos nunca haviam parado.
— Projeto A-17.
Ele virou-se imediatamente.
— Onde viu isso?
— No compartimento.
O medo atravessou seu rosto.
— Você encontrou a agenda?
— Encontrei.
— E a fita?
— Metade dela foi apagada.
Álvaro olhou para Aurora.
— Então chegaram antes.
— Quem?
Nenhum deles respondeu.
Bati a palma da mão na mesa.
— Chega!
Aurora se assustou.
— Minha mãe morreu. Meu ex-marido roubou nossa empresa. Minha família inteira mentiu sobre quem eu sou. Alguém me ameaçou quando eu ainda estava na faculdade. Quero um nome.
Álvaro voltou lentamente para a mesa.
— Helena descobriu que o Projeto A-17 havia mudado. Inicialmente, os pagamentos sustentavam a proteção de Aurora: casa, documentos, tratamentos, segurança. Mas alguém começou a multiplicar os valores e criar beneficiários inexistentes.
— Quem administrava?
— Eu supervisionava a estrutura jurídica. Roberto autorizava os repasses gerais. Mas havia uma terceira pessoa com acesso operacional.
— Quem?
Álvaro hesitou.
— Augusto.
Seu filho.
O médico que cuidara de Helena.
— Seu próprio filho?
— Augusto descobriu a existência de Aurora ainda jovem. Achou que eu havia destruído nossa família por causa dela. Depois descobriu que você era minha filha.
A expressão dele se desfez.
— Ele passou a odiar todos nós.
— Isso significa que Augusto matou Helena?
— Eu não disse isso.
— Mas ela estava sendo envenenada.
— Suspeitava que estivesse.
Aurora levantou-se.
— Helena me telefonou uma semana antes do acidente. Disse que os exames mostravam exposição repetida a uma substância sedativa. Em pequenas doses.
Senti náusea.
— Augusto prescrevia os medicamentos dela.
— Sim — respondeu Álvaro.
Tudo parecia finalmente se encaixar.
Talvez fácil demais.
Meu celular reserva vibrou.
Uma mensagem de Eduardo.
**“Dona Amanda, seu pai desapareceu do Grupo Alvorada. O carro dele ainda está na garagem.”**
Liguei imediatamente.
— Eduardo, quando?
— Há aproximadamente vinte minutos. As câmeras do elevador mostram seu pai descendo até o estacionamento, mas não existe imagem dele saindo.
— Procure tudo.
— Já estamos procurando. Tem outra coisa.
— O quê?
— Antes de desaparecer, ele acessou o arquivo físico da presidência.
Meu coração acelerou.
— O que retirou?
— Uma caixa registrada como A-17.
Olhei para Álvaro.
— Meu pai levou os documentos originais.
Álvaro ficou pálido.
— Então Roberto sabe que você encontrou Aurora.
Um ruído veio do andar superior.
Aurora congelou.
Álvaro virou-se para a escada.
— Há mais alguém aqui?
— Não.
Outro ruído.
Dessa vez, claramente uma porta fechando.
Álvaro fez sinal para permanecermos onde estávamos, mas eu o ignorei. Subimos juntos.
O corredor estava vazio.
A janela do quarto dos fundos estava aberta.
Sobre a cama havia um celular que não estava ali antes.
A tela ainda estava acesa.
Um vídeo pausado.
Reconheci imediatamente minha mãe.
Helena estava sentada dentro do escritório de nossa antiga casa, olhando diretamente para uma câmera. A data indicava a noite anterior à sua morte.
Apertei o play.
— Se alguém encontrar esta gravação, significa que eu não consegui terminar o que comecei.
Minha mão começou a tremer.
— Augusto acredita que eu descobri o que ele fez. Ele está errado. Descobri algo muito pior.
Álvaro aproximou-se.
Na gravação, minha mãe ergueu uma pasta.
— O dinheiro do Projeto A-17 não está sendo roubado apenas. Está comprando silêncio.
Ela respirou profundamente.
— Roberto ainda não sabe toda a verdade. Aurora também não. E Amanda jamais poderá saber até estar segura.
A imagem falhou durante dois segundos.
Quando voltou, Helena estava chorando.
— Álvaro, se você estiver vendo isto, procure o registro 42. Foi ali que tudo começou.
Então ela olhou para fora da câmera, como se alguém tivesse entrado no cômodo.
Seu rosto mudou.
— O que você está fazendo aqui?
Uma voz respondeu ao fundo.
Baixa.
Mas perfeitamente audível.
— Você deveria ter parado de investigar, Helena.
Álvaro cambaleou para trás.
Aurora levou a mão à boca.
Eu conhecia aquela voz.
Não era Augusto.
Não era Marcelo.
E não era meu pai.
Eu a ouvira apenas algumas horas antes, pelo telefone, quando o desconhecido me avisara que a morte da minha mãe nunca havia sido um acidente.
A gravação continuou por três segundos.
O suficiente para revelar algo ainda pior.
Helena olhou diretamente para a pessoa fora da câmera e pronunciou seu nome.
— Vitória... o que você fez?







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