— Três? — perguntei.
Do outro lado da linha, Henrique não respondeu imediatamente. Eu ainda segurava a fotografia dele quando criança, encontrada na pasta falsa do Registro 42. Roberto estava sentado diante de mim, Marcelo permanecia próximo à porta e Álvaro parecia ter envelhecido dez anos em poucos segundos.
— Henrique, quem é o terceiro filho?
Ouvi uma movimentação abafada.
Então Augusto tomou o telefone.
— Se quer respostas, Amanda, pare de fazer perguntas às pessoas erradas.
Álvaro aproximou-se.
— Augusto!
O filho dele soltou uma risada curta.
— Meu pai está aí? Perfeito. Está na hora de ele ouvir também.
— Onde está Henrique? — perguntei.
— Seguro. Mais seguro comigo do que esteve durante toda a vida cercado por vocês.
— Você envenenou Helena?
Silêncio.
— Essa é a história que Vitória contou?
— Eu ouvi a voz dela na gravação.
— Então ouviu apenas a parte que alguém queria que encontrasse.
Meu estômago se contraiu.
— O celular em Campos do Jordão...
— Eu coloquei lá.
Aurora havia permanecido perto da entrada do galpão. Ao ouvir aquilo, aproximou-se lentamente.
— Augusto, por quê?
A voz dele mudou.
— Porque vocês continuavam escondendo a verdade.
— Que verdade? — perguntei.
— Pergunte a Roberto quem era o terceiro bebê.
Olhei para meu pai.
Ele ficou imóvel.
— Pai?
Roberto baixou os olhos.
Naquele instante, compreendi que ele sabia.
— Fale.
— Amanda, existem coisas que eu deveria ter contado há muito tempo.
— Não quero ouvir outra justificativa. Quero um nome.
Aurora avançou até ele.
— Roberto, do que ele está falando?
Meu pai olhou para ela.
— Você não lembra porque estava sedada depois do parto.
Aurora empalideceu.
— Que parto?
Álvaro fechou os olhos.
Roberto respirou fundo.
— O de Amanda.
O silêncio foi devastador.
— Ela não nasceu sozinha — continuou ele. — Eram gêmeas.
Aurora cambaleou.
Segurei-a antes que caísse.
— Não...
— Uma das meninas teve complicações respiratórias. Disseram que morreu poucas horas depois.
— Disseram? — repeti.
Roberto assentiu.
— Nunca vimos o corpo.
Meu coração começou a bater violentamente.
No telefone, Augusto falou:
— Porque ela não morreu.
Fechei os olhos.
Uma irmã.
Eu tinha uma irmã gêmea.
— Onde ela está?
— Essa é a pergunta que Helena fez seis anos atrás — respondeu Augusto. — E foi por isso que começou a investigar novamente o Projeto A-17.
Tudo se reorganizou dentro da minha cabeça.
Minha mãe não estava apenas investigando dinheiro.
Estava procurando uma criança desaparecida.
— O Registro 42 era minha irmã?
— Não — disse Augusto. — Henrique era o Registro 42. Seu irmão mais velho.
Aurora começou a chorar.
— Gabriel...
— Gabriel Almeida foi o nome de nascimento dele — explicou Augusto. — Depois que foi retirado de Aurora, passou por duas instituições e recebeu outro nome. Helena o encontrou anos depois, mas decidiu não contar a ninguém até descobrir quem havia organizado a retirada.
Olhei para Roberto.
— E você contratou Henrique no Grupo Alvorada.
— Eu sabia quem ele era quando o contratei.
— Ele sabia?
— Não.
Minha raiva explodiu.
— Quantas vidas vocês controlaram em silêncio?
— Eu queria mantê-lo perto!
— Você queria controlar a verdade!
Roberto não respondeu.
Augusto interrompeu:
— Agora você está começando a entender.
— Então diga onde está minha irmã.
— Primeiro encontre Vitória.
— Por quê?
— Porque foi ela quem levou o bebê da clínica.
Aurora soltou um gemido.
Marcelo ficou rígido.
— Minha mãe?
— Vitória trabalhava como auditora, mas naquela época prestava serviços administrativos para a clínica — disse Augusto. — Foi ela quem assinou a transferência da criança.
Marcelo balançou a cabeça.
— Isso é mentira.
— Pergunte a ela.
— Onde ela está? — perguntei.
— Eu não sei. Mas ela vai procurar você.
A ligação caiu.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Então Marcelo pegou o próprio celular.
— Tenho um lugar.
— O quê?
— Minha mãe mantinha um apartamento que ninguém da família usava. Sempre disse que era investimento.
— Onde?
— Higienópolis.
Saímos do galpão imediatamente. Desta vez, Eduardo veio conosco. Durante o caminho, Aurora permaneceu em silêncio, olhando pela janela. Eu queria consolá-la, mas não sabia como. Em poucas horas, ela descobrira que dois filhos que acreditava ter perdido talvez estivessem vivos.
Quando chegamos ao apartamento, a porta estava destrancada.
Eduardo entrou primeiro.
— Vazio.
Havia uma mala aberta no quarto.
Vitória estivera ali recentemente.
Sobre a mesa da sala encontramos documentos, passaportes e dinheiro.
Marcelo abriu uma gaveta.
Seu rosto mudou.
— Amanda.
Dentro havia dezenas de fotografias minhas.
Eu criança.
Na escola.
Na universidade.
No meu primeiro dia no Grupo Alvorada.
Algumas haviam sido tiradas de longe.
— Ela me vigiava.
Marcelo parecia horrorizado.
— Eu não sabia disso.
Continuei procurando.
No fundo da gaveta encontrei duas fotografias de mulheres adultas.
Uma era minha.
A outra fez minhas mãos tremerem.
Mesma idade.
Mesmo formato de rosto.
Mesmos olhos.
Mas cabelos curtos e escuros.
No verso estava escrito:
**Lívia — Curitiba — 2024.**
Aurora levou a mão à boca.
— É ela.
Não havia necessidade de exame genético para perceber a semelhança.
Minha irmã estava viva.
Eduardo encontrou um notebook dentro do armário. Henrique conseguiu acessá-lo remotamente depois que o localizamos, e poucos minutos depois uma pasta criptografada apareceu na tela.
**HELENA — ACIDENTE.**
Abri.
Havia fotografias do carro da minha mãe, relatórios mecânicos e mensagens trocadas entre Vitória e alguém identificado apenas pelas iniciais A.S.
Uma delas havia sido enviada dois dias antes da morte:
**“Ela descobriu Lívia. Precisamos impedir que chegue até Curitiba.”**
Outra resposta:
**“Não faça nada até eu falar com R.”**
Meu corpo gelou.
R.
Roberto?
Olhei para meu pai.
— Você recebeu alguma ligação de Vitória antes da morte da mamãe?
Ele ficou em silêncio por tempo demais.
— Pai.
— Recebi.
Aurora virou-se para ele.
— O que ela disse?
— Que Helena havia descoberto onde estava a segunda menina.
— E o que você fez?
Roberto parecia destruído.
— Pedi que Vitória impedisse Helena de ir a Curitiba.
Minha garganta secou.
— Você deu a ordem.
— Não para machucá-la! — ele respondeu imediatamente. — Helena estava doente, assustada, dirigindo sozinha. Eu queria que Vitória a convencesse a voltar.
— E ela morreu naquela viagem.
— Eu sei.
Meu telefone vibrou.
Número desconhecido.
Uma mensagem.
**“Se encontrou as fotos, já sabe que estou viva.”**
Abaixo havia outra.
**“Não confie em Roberto. Não confie em Augusto. E, principalmente, não confie em Álvaro.”**
Olhei para Álvaro.
Ele percebeu minha expressão.
— O que foi?
Não respondi.
Outra mensagem chegou.
Era uma fotografia tirada naquele exato momento.
Nós dentro do apartamento.
Alguém nos observava do prédio em frente.
Então veio a terceira mensagem:
**“Amanda, sou Lívia. Se quiser saber quem matou Helena, venha até a garagem. Sozinha.”**
Não contei a ninguém.
Disse apenas que precisava ir ao banheiro, atravessei o corredor de serviço e desci pelo elevador secundário.
Quando as portas se abriram na garagem, uma mulher estava parada entre dois carros.
Era como olhar para uma versão diferente de mim mesma.
Ela tinha meus olhos.
Meu nariz.
Até a pequena inclinação da cabeça quando estava desconfiada.
Ficamos alguns segundos apenas nos encarando.
— Lívia?
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Amanda.
Dei um passo.
Ela recuou.
— Ainda não.
Aquilo doeu mais do que deveria.
— Você enviou as mensagens?
— Algumas.
— Foi você quem me ligou no dia do divórcio?
— Não.
Meu coração acelerou.
— Então quem foi?
— Henrique.
— Henrique?
Ela assentiu.
— Ele descobriu quem era há seis meses. Foi ele quem começou a desmontar o esquema por dentro. Seu divórcio apenas deu a oportunidade de agir.
De repente, tudo fez sentido: Compliance já tinha as provas, meu pai estava “esperando” minha ligação, Henrique conhecia cada movimento dos Vasconcelos.
— E Augusto?
— Está ajudando Henrique.
— Ele envenenou Helena?
— Não.
— Então quem fez isso?
Lívia olhou ao redor antes de responder.
— Helena não morreu envenenada. As pequenas doses serviam para fazê-la parecer confusa, para que ninguém acreditasse nas acusações dela.
— Quem administrava?
— Vitória alterava os medicamentos seguindo ordens de alguém.
— Álvaro?
Lívia balançou a cabeça.
— Álvaro descobriu tarde demais.
— Roberto?
Ela não respondeu.
— Lívia.
— Você está procurando um assassino, Amanda. Mas a morte de Helena não foi planejada como assassinato.
— O que isso significa?
Lívia retirou um pequeno dispositivo do bolso.
— O carro de Helena tinha uma câmera interna. Vitória achou que havia destruído a gravação.
Meu coração parou.
— Você tem?
— Tenho.
Ela colocou o dispositivo na minha mão.
— Helena não estava sozinha quando o carro saiu da estrada.
Ouvi passos atrás de nós.
Lívia empalideceu.
— Você contou que vinha?
— Não.
Ela segurou meu braço.
— Então eles descobriram.
Um homem apareceu no corredor da garagem.
Marcelo.
— Amanda!
Lívia recuou imediatamente.
— Não deixe que ele veja meu rosto.
Mas era tarde.
Marcelo parou.
Olhou para mim.
Depois para ela.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— Meu Deus...
Lívia encarou Marcelo como se já o conhecesse.
E então disse algo que fez meu sangue gelar:
— Você finalmente se lembra de mim.
Marcelo não conseguiu responder.
— Do que ela está falando? — perguntei.
Lívia abriu a bolsa e retirou uma fotografia.
Marcelo e ela apareciam juntos diante de um hotel.
A data era de sete anos antes.
Dois anos antes de nosso casamento.
— Marcelo me conheceu antes de conhecer você — disse Lívia.
Olhei para meu ex-marido.
— Isso é verdade?
Ele fechou os olhos.
— Amanda...
— Responda.
— Sim.
— Como?
Marcelo respirou fundo.
— Porque foi Lívia quem me mandou entrar na sua vida.







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