Fiquei olhando para o nome da minha mãe no envelope até as letras perderem a nitidez. Teresa. A caligrafia não era dela; eu reconheceria a letra inclinada e delicada de minha mãe em qualquer lugar. Aqueles traços eram duros, quase apressados. Minha primeira vontade foi virar o celular para meu pai, mas a mensagem de Helena parecia gritar na minha cabeça: “Preciso conversar com você sozinha antes que Augusto descubra o que encontrei.”
— Algum problema? — meu pai perguntou.
Bloqueei a tela.
— Não. A tia Helena perguntou se o voo está no horário.
A mentira saiu rápido demais, e isso me incomodou. Augusto me observou por alguns segundos, como se tentasse decidir se acreditava. Depois voltou os olhos para a fotografia no celular de Camila.
— Paula, aquilo que aconteceu naquela época não tem relação com sua mãe.
Agora eu sabia que tinha.
— Então por que você nunca falou de Roberto Ferraz?
— Porque não havia motivo.
— Um homem desapareceu três dias depois de participar da transferência da sua empresa e não havia motivo?
Meu pai passou a mão pelo rosto.
— Roberto não desapareceu como você está imaginando. Ele simplesmente foi embora.
— Sem avisar ninguém?
— Ele estava com problemas.
— Que problemas?
Augusto hesitou.
Camila percebeu que a conversa estava ficando íntima demais e guardou o telefone.
— Preciso voltar ao trabalho.
Antes de sair, ela me lançou um olhar rápido. Não consegui saber se era preocupação ou um aviso.
Meu pai esperou que ela se afastasse.
— Roberto tinha dívidas.
— Com quem?
— Eu nunca soube.
— E você acredita que ele largou tudo por causa disso?
— Na época, sim.
— E agora?
Augusto não respondeu.
Foi naquele silêncio que percebi uma coisa ainda mais estranha: meu pai não parecia preocupado com Roberto. Parecia preocupado com Helena.
— Por que você não queria que Camila mostrasse aquela fotografia?
— Porque sua tia aparece nela.
— Isso eu percebi.
— Helena não deveria estar naquela reunião.
— Mas estava.
— Exatamente.
Ele se inclinou para mim e baixou a voz.
— Eu pedi que ela ficasse fora da empresa durante todo o processo.
— Por quê?
— Porque alguém estava desviando dinheiro havia quase dois anos. Eu não sabia em quem confiar.
— Nem na própria irmã?
A expressão dele endureceu.
— Principalmente quando descobri que documentos internos estavam saindo da minha sala.
Senti o coração acelerar.
— Você suspeitava da tia Helena?
— Eu suspeitava de todo mundo.
— E descobriu quem era?
Augusto abriu a boca, mas uma turbulência repentina sacudiu a aeronave. O aviso dos cintos acendeu e Camila pediu que todos permanecessem sentados.
Meu pai segurou o braço da poltrona.
— Descobri uma conta — disse quando o avião estabilizou. — Não uma pessoa.
— Que conta?
— Uma empresa de fachada recebia pagamentos por serviços que nunca eram prestados. Quando rastreamos os documentos, chegamos a uma conta bancária.
— Em nome de Roberto?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— De Helena?
Meu pai me encarou.
— Também não.
— Então de quem?
— De Teresa.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Minha mãe?
— O nome dela. CPF. Dados pessoais. Tudo.
— Você está dizendo que minha mãe roubava sua empresa?
— Estou dizendo exatamente o contrário.
Havia uma firmeza imediata na voz dele.
— Sua mãe nunca recebeu aquele dinheiro. Eu conferi nossas contas, documentos, tudo. Alguém usou os dados dela.
Respirei fundo, tentando acompanhar.
— E foi por isso que você escondeu a verdade?
— Em parte. Se a investigação se tornasse pública, Teresa seria tratada como suspeita. Ela já estava doente. Eu não permitiria que passasse os últimos meses tentando provar que não era uma ladra.
A raiva que eu sentia começou a se misturar com algo pior.
— Então você abriu mão da empresa para encerrar o caso?
— Não. Transferi a empresa para impedir que quem estava por trás do esquema pudesse vendê-la ou destruí-la. Mas havia outra condição.
— Qual?
— Os funcionários só receberiam definitivamente as participações depois que uma auditoria independente confirmasse todas as contas.
— E confirmou?
— Nunca terminou.
— Por causa do desaparecimento de Roberto?
Augusto assentiu.
— Ele levou uma pasta naquela noite.
Olhei instintivamente para a fotografia.
A pasta nas mãos de Helena.
— A mesma pasta da foto?
— Eu não sei.
— Você sabe, sim.
Meu pai desviou o olhar.
— Augusto.
Ele respirou fundo.
— Provavelmente.
A resposta me deixou gelada.
— E você nunca perguntou à tia Helena?
— Perguntei.
— O que ela disse?
— Que Roberto entregou a pasta para ela porque eu não estava na fábrica. Segundo Helena, ela deixou os documentos na minha sala naquela mesma noite.
— Eles estavam lá?
— Não.
A turbulência cessara, mas dentro de mim tudo parecia continuar se movendo.
Peguei o telefone novamente. Nenhuma nova mensagem de Helena.
— E três dias depois Roberto foi embora.
— Sim.
— Pouco depois a tia Helena se mudou para Salvador.
Meu pai me olhou de imediato.
Eu tinha acertado alguma coisa.
— A mudança dela não teve relação com isso.
— Como você pode ter certeza?
— Porque fui eu que pedi que ela fosse.
Dessa vez, fiquei sem palavras.
— Você expulsou sua irmã de São Paulo?
— Eu queria distância entre ela e tudo aquilo.
— Porque achava que ela estava envolvida?
— Porque alguém começou a ameaçá-la.
Ele disse aquilo quase num sussurro.
— Que tipo de ameaça?
— Ligações. Bilhetes. Uma fotografia deixada no carro dela.
— Fotografia de quê?
Meu pai demorou a responder.
— De você saindo da faculdade.
Senti o sangue desaparecer do meu rosto.
— De mim?
— Foi quando entendi que aquilo já não era apenas dinheiro. Mandei Helena para Salvador e fiz parecer que ela tinha recebido uma proposta profissional. Depois vendemos a casa e mudamos nossa rotina.
De repente, várias decisões absurdas da minha família começaram a formar um desenho diferente.
— Mamãe sabia das ameaças?
— Não de todas.
Quase.
A mesma palavra novamente.
Antes que eu pudesse insistir, o comandante anunciou o início da descida para Salvador.
Meu telefone vibrou.
Outra mensagem de Helena.
“Quando desembarcar, vá ao banheiro próximo à retirada de bagagens. Não conte nada a Augusto.”
Em seguida:
“Roberto Ferraz não desapareceu.”
Meu coração disparou.
Chegou uma terceira mensagem.
“Ele esteve comigo ontem.”
Olhei para meu pai. Augusto observava Salvador surgindo sob as nuvens, sem imaginar o que eu acabara de ler.
Então Helena enviou uma fotografia tirada aparentemente dentro de sua casa. Um homem grisalho estava sentado à mesa, de perfil. Devia ter mais de sessenta anos.
À frente dele estava o envelope com o nome de minha mãe.
Mas havia algo ainda mais perturbador sobre a mesa.
Uma fotografia antiga de Teresa.
No verso, escrito com a mesma caligrafia do envelope, aparecia uma data: 18 de novembro.
E abaixo dela, uma frase:
“Teresa descobriu primeiro.”







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