A primeira coisa que senti não foi medo. Foi raiva. Uma raiva tão limpa e intensa que precisei apoiar as mãos na mesa para não começar a gritar no meio do aeroporto. Meu pai acabara de colocar diante de mim a possibilidade de que tudo o que eu sabia sobre meu nascimento estivesse errado e, ainda assim, continuava escolhendo cada palavra como se pudesse controlar quanto da minha vida eu tinha direito de conhecer.
— Você sabia que uma criança desapareceu naquela noite?
Augusto assentiu devagar.
— Soube no dia seguinte.
— E nunca achou importante me contar?
— Porque não tinha relação com você.
— Como pode ter certeza?
Ele abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
Foi Helena quem falou.
— Augusto, você fez algum exame?
Meu pai virou-se para ela.
— Que exame?
— Para confirmar que Paula era filha de vocês.
O silêncio dele respondeu primeiro.
Senti o estômago se contrair.
— Pai?
— Não.
— Por quê?
— Porque ela era nossa filha.
— Isso não é uma resposta.
— Para mim era.
Afastei a cadeira.
— Eu preciso sair daqui.
Helena tentou tocar meu braço.
— Paula...
— Não.
Peguei a bolsa e caminhei para longe das mesas. Ouvi passos atrás de mim e imaginei que fosse meu pai, mas era Roberto.
— Não venha atrás de mim.
— Há uma coisa que você precisa saber antes de confrontá-lo novamente.
Parei.
— Mais uma?
Ele segurava o caderno de Teresa.
— Sua mãe também desconfiou.
Olhei para ele.
— Do quê?
— De que você talvez não fosse a criança que ela deu à luz.
Minha garganta fechou.
— Isso está escrito aí?
— Não diretamente.
Roberto abriu o caderno perto das últimas páginas. Teresa escrevera duas datas: 23 de março de 1987 e 18 de novembro de 2003. Entre elas havia uma frase:
“Dezesseis anos para encontrar a menina errada.”
— O que significa isso?
— Não sei.
— Você sabe mais do que está dizendo.
— Sei que Teresa começou a investigar seu nascimento antes de descobrir o esquema financeiro.
Aquilo invertia tudo.
Eu acreditara que os documentos falsos tinham levado minha mãe ao passado. Segundo Roberto, fora o passado que a levara aos documentos.
Augusto e Helena se aproximaram.
Meu pai viu o caderno aberto.
— Onde conseguiu isso?
— Teresa me entregou.
— Por que entregaria a você?
Roberto sustentou o olhar dele.
— Porque não confiava mais em ninguém ligado à empresa.
A frase atingiu Augusto.
— Nem em mim?
— Principalmente em você.
Meu pai ficou imóvel.
— Está mentindo.
— Então explique por que Teresa pediu que eu investigasse o hospital sem contar ao marido.
Augusto agarrou o encosto de uma cadeira.
— Ela nunca faria isso.
— Fez.
Roberto virou outra página.
Havia um sobrenome repetido diversas vezes: Brandão.
— Quem é Brandão? — perguntei.
Helena respondeu antes dos outros.
— Doutor Álvaro Brandão.
Augusto olhou para a irmã.
— Como você lembra?
— Porque ele cuidou de Teresa.
— Não — disse Roberto. — Ele não era médico dela.
Helena franziu a testa.
— Eu o vi no hospital.
— Álvaro Brandão era advogado.
Meu pai ficou pálido.
Roberto continuou:
— E representante jurídico da maternidade onde Paula nasceu.
Aquilo chamou imediatamente minha atenção.
— O mesmo homem estava envolvido nos dois hospitais?
— Sim.
— Vinte anos depois?
— Sim.
— Coincidência?
— Teresa não acreditava nisso.
Voltamos à mesa. Dessa vez, ninguém fingia que aquela conversa poderia ser encerrada.
Roberto explicou que, três meses antes, encontrara o caderno dentro de uma caixa guardada em um depósito. Passara semanas reconstruindo nomes e datas. Álvaro Brandão aparecia em documentos da maternidade em 1987, em registros empresariais dos anos 2000 e na criação da Horizonte Participações.
— Ele está vivo? — perguntei.
— Está.
— Onde?
Roberto olhou para Helena.
— Salvador.
Minha tia ficou surpresa.
— Desde quando?
— Pelo menos doze anos.
Augusto levantou-se imediatamente.
— Não vamos procurar esse homem.
— Por quê? — perguntei.
— Porque você não sabe com quem está lidando.
— Você sabe?
Meu pai permaneceu em silêncio.
— Você conhece Álvaro pessoalmente.
Ele respirou fundo.
— Conheci.
— Quando?
— Na maternidade.
Roberto inclinou-se.
— Antes ou depois do desaparecimento da criança?
Augusto não respondeu.
A pergunta pareceu atingir um ponto que ele vinha protegendo.
— Pai.
Ele voltou a sentar.
— Antes.
— Quanto antes?
— Algumas horas.
— Por que um advogado da maternidade falaria com você no dia do nascimento da sua filha?
Augusto passou a mão pela testa.
— Porque houve um problema naquela noite.
— Que problema?
— Teresa não foi a única mulher que teve complicações. Lúcia entrou em estado grave. Houve confusão na ala. Funcionários entravam e saíam. Em algum momento, uma enfermeira trouxe uma criança para nosso quarto.
— Eu?
— Foi o que disseram.
— E você acreditou?
— A pulseira tinha o sobrenome Menezes.
— Só isso?
— Paula, era 1987. Eu estava há quase vinte horas sem dormir. Sua mãe estava sedada.
— E Álvaro?
— Apareceu pouco depois dizendo que precisava corrigir alguns documentos.
Roberto fechou os olhos como se uma peça finalmente tivesse encontrado lugar.
— A primeira declaração.
Augusto assentiu.
— Aquela em que seu nome não aparecia como pai.
— Exatamente.
— E você guardou uma cópia?
— Não. Achei que tivesse sido destruída.
— Mas alguém guardou — falei.
Meu pai olhou para mim.
— Sim.
Helena parecia perturbada.
— Augusto, por que nunca contou isso nem para mim?
— Porque Teresa pediu.
— Quando?
— Anos depois. Quando encontrou a cópia.
— E ela não quis investigar?
Augusto riu sem humor.
— Teresa fez exatamente o contrário.
Ele apontou para o caderno.
— Isso prova.
— Então por que você tentou impedir?
Meu pai abaixou os olhos.
— Porque quando ela começou a procurar respostas, alguém entrou em nossa casa.
Eu me lembrava vagamente daquela noite. Uma janela quebrada. Meu pai dizendo que provavelmente fora um ladrão.
— Não levaram televisão, joias nem dinheiro — continuou. — Levaram apenas uma pasta com documentos sobre seu nascimento.
Um arrepio percorreu minhas costas.
— E depois?
— Teresa recebeu uma ligação.
— De quem?
— Ela nunca disse.
— O que disseram?
Augusto demorou.
— Que, se continuasse procurando pela filha de Lúcia, você seria a próxima pessoa a desaparecer.
Ninguém falou por alguns segundos.
Foi Helena quem rompeu o silêncio.
— Então Teresa parou?
Meu pai olhou para Roberto.
— Eu achei que sim.
Roberto balançou a cabeça.
— Não parou.
Abriu o caderno na contracapa. Havia um pequeno bolso que eu ainda não tinha percebido. De dentro, retirou um recibo antigo.
— Três semanas depois daquela ameaça, Teresa pagou um laboratório particular.
Meu coração acelerou.
— Para quê?
— Um teste de DNA.
Augusto ficou imóvel.
— DNA de quem?
— Teresa e Paula.
Eu quase não consegui perguntar:
— E o resultado?
— Não estava junto do caderno.
A frustração me fez apertar os punhos.
— Então precisamos descobrir o laboratório.
Roberto apontou para o recibo.
— Já descobri. Fechou em 2011, mas o arquivo foi comprado por outra empresa.
— Ainda existem registros?
— Talvez.
Meu pai balançou a cabeça.
— Paula, pense antes de fazer isso.
Virei-me para ele.
— Você passou dezesseis anos pedindo que eu não pensasse nisso.
Ele ficou calado.
Peguei meu celular.
— Qual é o nome da empresa que ficou com os arquivos?
Roberto me entregou um cartão onde havia anotado um endereço em Salvador.
Antes que eu pudesse guardá-lo, Helena recebeu uma ligação.
Ela olhou para a tela e empalideceu.
— É da portaria do meu prédio.
Atendeu.
— Alô?
Escutou por alguns segundos.
— Como assim minha porta está aberta?
Augusto levantou-se.
Helena apertou o telefone.
— Não, não entre. Chame a polícia.
Desligou.
— Alguém invadiu meu apartamento.
Roberto ficou tenso.
— O envelope.
Helena olhou para mim.
— Está com você.
Levei a mão à bolsa.
A carta de Teresa e a pequena chave continuavam lá.
— Então o que estavam procurando?
Ninguém precisou responder.
Havia outra coisa na casa de Helena.
Ela pareceu lembrar no mesmo instante.
— Meu Deus.
— O quê? — perguntei.
— Roberto deixou uma caixa comigo ontem.
Olhei para ele.
— Que caixa?
Roberto ficou branco.
— Helena, eu disse para não contar a ninguém.
— Já entraram na minha casa!
— O que tem dentro? — Augusto exigiu.
Roberto demorou alguns segundos antes de responder.
— Os documentos originais que retirei da empresa em 2007.
Meu pai avançou.
— Você ficou com eles todos esses anos?
— Eram a única coisa que me mantinha vivo.
— O que há neles?
Roberto olhou diretamente para mim.
— A lista completa das identidades usadas no esquema.
— Inclusive a minha?
— Sim.
— E a de Lúcia?
Ele assentiu.
Helena levou a mão à testa.
— A caixa estava escondida no meu quarto.
Meu telefone vibrou.
Número desconhecido.
Abri a mensagem.
Era uma fotografia tirada dentro do apartamento de Helena. A caixa estava aberta sobre a cama.
Abaixo, uma única frase:
“Se Paula quiser saber quem nasceu com o nome dela, use a chave e vá ao compartimento 214 antes das seis.”
Olhei a hora.
14h37.
Mostrei a mensagem aos outros.
Roberto empalideceu ao ver a fotografia.
Mas meu pai não estava olhando para a caixa.
Estava olhando para a frase.
— Eu sei onde fica o compartimento 214.
Todos se viraram para ele.
— Onde?
Augusto respirou fundo.
— Na antiga estação ferroviária da Calçada.
— Como você sabe?
Meu pai levantou os olhos para mim.
— Porque fui eu quem alugou aquele compartimento.
Senti o peito apertar.
— Quando?
A resposta veio quase num sussurro.
— Dois dias antes de sua mãe morrer.







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