O avião tocou a pista em Salvador, mas eu mal percebi o impacto. A frase continuava diante dos meus olhos: “Teresa descobriu primeiro.” Minha mãe, que durante dezesseis anos existira em minha memória apenas como uma mulher doente tentando manter nossa família unida, acabava de surgir no centro de uma história que meu pai passara metade da minha vida escondendo.
— Paula.
Bloqueei o telefone quando Augusto se virou.
— O quê?
— Você está estranha desde que recebeu aquela mensagem.
— Estou tentando entender tudo que você acabou de me contar.
Ele pareceu aceitar, mas não completamente.
Quando desembarcamos, meu pai insistiu em carregar a própria mala. Caminhamos pelo terminal até a área de retirada de bagagens. Meu coração acelerava à medida que nos aproximávamos do banheiro indicado por Helena.
— Pai, espera aqui. Preciso ir ao banheiro.
Augusto segurou meu braço.
— Paula.
Parei.
— Foi Helena quem mandou mensagem?
Por um segundo pensei em continuar mentindo. Não consegui.
— Foi.
O rosto dele perdeu a cor.
— O que ela disse?
— Que nos espera.
Não era exatamente mentira.
— Onde?
— Pai, por que você está com tanto medo da sua própria irmã?
Ele soltou meu braço.
— Porque Helena nunca soube deixar o passado enterrado.
— Talvez porque ele não esteja enterrado.
Augusto me encarou, mas naquele momento o telefone dele tocou. Aproveitei.
— Já volto.
Entrei no banheiro e encontrei Helena perto dos lavatórios.
Minha tia parecia diferente da última vez que a vira. Mais magra. Olheiras profundas. Segurava uma bolsa de couro contra o corpo.
— Você veio sozinha?
— Meu pai está lá fora.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Quanto ele contou?
— Roberto. A empresa de fachada. A conta usando os dados da mamãe. As ameaças. A pasta que desapareceu.
Helena ficou pálida.
— Ele contou sobre a conta?
— Sim.
— Então finalmente começou a falar.
— Agora é sua vez.
Ela abriu a bolsa e retirou o envelope.
O nome de Teresa estava realmente escrito na frente.
— Roberto apareceu na minha casa ontem às nove e meia da noite — disse. — Eu não o via havia dezesseis anos.
— Onde ele esteve?
— Não quis dizer.
— E por que voltou agora?
Helena me entregou o envelope.
— Porque alguém está procurando isso.
Abri.
Dentro havia quatro folhas envelhecidas e uma pequena chave presa com fita adesiva. Reconheci imediatamente a letra da minha mãe.
A primeira página começava: “Augusto, se você estiver lendo isto, então eu não consegui contar pessoalmente.”
Minha garganta fechou.
— É uma carta dela?
— Continue.
Li em silêncio.
Teresa dizia ter encontrado cópias de notas fiscais escondidas entre documentos levados para nossa casa. Inicialmente acreditara que Augusto estava sendo enganado por um fornecedor. Depois percebeu que os pagamentos eram autorizados usando credenciais de pessoas diferentes.
Na segunda folha havia uma frase sublinhada:
“Quem está fazendo isso conhece nossa família.”
Olhei para Helena.
— Ela sabia quem era?
— Talvez.
— Talvez?
— Falta uma página.
Revirei o envelope.
— Você disse quatro folhas.
— A carta tinha cinco.
— Como sabe?
Helena apontou para a numeração no canto. 1, 2, 3... e 5.
A quarta página havia desaparecido.
— Roberto tirou?
— Ele disse que recebeu assim.
Continuei lendo.
Na última folha, Teresa mencionava a chave.
“Guardei uma cópia onde ninguém da empresa procuraria. A chave abre o compartimento 214.”
— Compartimento onde?
— É isso que precisamos descobrir.
— Roberto não sabe?
— Disse que não.
— Você acredita nele?
Helena demorou.
— Não.
Fechei a carta.
— Por que Roberto estava com isso?
Minha tia apoiou as mãos na pia.
— Na noite de dezoito de novembro, ele me entregou a pasta que aparece naquela fotografia. Eu deveria levá-la para Augusto.
— Mas os documentos nunca chegaram.
— Chegaram.
Fiquei imóvel.
— Meu pai disse que não.
— Porque quando Augusto entrou na sala na manhã seguinte, a pasta tinha desaparecido. Mas eu a coloquei na mesa dele às onze e vinte da noite.
— Alguém entrou depois?
— Sim.
— Quem?
Helena me olhou.
— Teresa.
Meu peito apertou.
— Minha mãe estava na fábrica?
— Ela me telefonou naquela noite e perguntou onde Augusto estava. Eu disse que ele tinha ido ao hospital encontrar o médico dela. Teresa apareceu cerca de vinte minutos depois.
— Por quê?
— Ela disse que precisava verificar uma coisa antes que seu pai voltasse.
— Você deixou ela entrar?
— Teresa tinha acesso a tudo.
— E depois?
— Eu fui embora. Foi a última vez que vi aquela pasta.
A porta do banheiro abriu, e duas mulheres entraram conversando. Helena guardou rapidamente as folhas.
— Precisamos sair separadas.
— Não. Quero saber por que você disse que mamãe descobriu primeiro.
Helena aproximou-se.
— Porque Roberto me contou ontem que o esquema não começou na empresa do seu pai.
— Como assim?
— A empresa era apenas onde o dinheiro passava. O objetivo verdadeiro estava em outro lugar.
— Onde?
Antes que ela respondesse, meu telefone tocou.
Augusto.
Recusei.
Ele ligou novamente.
Helena ficou inquieta.
— Vá.
— Só depois de responder.
Ela segurou meu pulso.
— Paula, sua mãe descobriu que alguém vinha usando documentos da família havia anos. Não apenas os dela.
— De quem mais?
— Seus.
Senti um frio no estômago.
— Eu tinha vinte e dois anos.
— Começou antes.
— Quanto antes?
— Quando você tinha dezessete.
Eu não conseguia entender.
— Para quê?
— Abrir empresas, movimentar contas, assinar contratos. Roberto encontrou seu CPF em documentos que nunca deveriam existir.
Meu telefone vibrou novamente.
Dessa vez era uma mensagem de Augusto:
“Paula, saia daí agora. Helena não está sozinha.”
Levantei os olhos.
— Meu pai sabe que você está aqui.
Helena ficou branca.
— Como?
Outra mensagem chegou.
Uma fotografia.
Meu pai havia fotografado de longe um homem próximo à saída do terminal.
O mesmo homem grisalho da casa de Helena.
Roberto.
Mas ele não estava olhando para Augusto.
Estava olhando diretamente para a entrada do banheiro onde eu estava.
Helena viu a tela e deu um passo para trás.
— Isso não faz sentido.
— O quê?
— Roberto me prometeu que não viria ao aeroporto.
Saímos para o corredor.
Meu pai caminhava rapidamente em nossa direção.
Roberto percebeu e começou a se afastar.
— Roberto! — Helena gritou.
Ele parou.
Augusto também.
Durante alguns segundos, os três ficaram separados por poucos metros e dezesseis anos de silêncio.
Meu pai foi o primeiro a falar.
— Você deveria ter ficado longe da minha família.
Roberto não respondeu a ele.
Olhou para mim.
— Paula, sua mãe deixou aquela carta para você, não para Augusto.
— Está escrito “Augusto” no começo.
— Eu sei.
— Então por que seria para mim?
Roberto colocou lentamente a mão dentro do paletó e retirou uma folha dobrada.
Helena perdeu a cor.
— A página quatro.
Ele assentiu.
Meu pai avançou um passo.
— Não entregue isso a ela.
Olhei para Augusto, incrédula.
— Por quê?
Pela primeira vez desde o início daquela viagem, vi meu pai verdadeiramente apavorado.
Roberto estendeu a folha em minha direção.
— Porque esta página explica por que Teresa usou o nome dele na carta quando, na verdade, estava escrevendo para você.
Peguei o papel.
Havia apenas três parágrafos.
No segundo, minha mãe escrevera uma frase que me obrigou a reler duas vezes:
“Paula não pode descobrir ainda por que os documentos dela existem desde antes de completar dezoito anos. Se ela descobrir quem autorizou o primeiro deles, vai entender que Augusto não me contou toda a verdade sobre o dia em que ela nasceu.”
Levantei lentamente os olhos para meu pai.
Augusto não tentou negar.
Apenas disse:
— Paula, existem coisas sobre o seu nascimento que sua mãe e eu juramos nunca contar.







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